Vereadora do PT em Fortaleza debateu no programa Democracia no Ar o apagamento da resistência negra, o racismo estrutural e as disputas em torno da memória da abolição no Brasil
Durante entrevista ao programa Democracia no Ar, da Rádio e TV Atitude Popular, a vereadora de Fortaleza Mariana Lacerda defendeu que o 13 de Maio não deve ser tratado como data de celebração da população negra brasileira. A parlamentar criticou a narrativa tradicional sobre a assinatura da Lei Áurea e afirmou que o processo de abolição no Brasil ocorreu sem reparação social, econômica ou política para os negros escravizados.
Apresentado por Sara Goes, o programa discutiu os significados históricos e políticos do 13 de Maio, além das críticas formuladas há décadas pelo movimento negro brasileiro contra a ideia de que a liberdade teria sido “concedida” pela monarquia. Para Mariana Lacerda, a narrativa oficial invisibiliza a resistência negra e transforma personagens brancos em protagonistas absolutos do processo abolicionista.
“Há muito tempo o movimento negro denuncia essa falsa abolição. O Estado brasileiro reconhece sua dívida histórica no pós-abolição. Então por que celebrar uma data que não garantiu condições de integração daquela população à sociedade brasileira?”, questionou a vereadora.
Ao longo da entrevista, Mariana argumentou que o racismo estrutural brasileiro se consolidou justamente no período posterior à abolição formal, quando milhões de negros libertos foram abandonados sem terra, moradia, educação ou qualquer política pública de inclusão.
Segundo ela, a própria forma como a história é ensinada contribui para o apagamento das lutas negras.
“Existe um apagamento da resistência do povo negro nesse processo. Não se fala das fugas em massa, dos quilombos, dos incêndios nos engenhos, da organização política negra, da compra coletiva de alforrias. A história oficial prefere contar uma versão branda, confortável para as elites”, afirmou.
A parlamentar também criticou a permanência de símbolos e datas oficiais que, segundo ela, exaltam uma falsa libertação enquanto silenciam sobre a violência social herdada da escravidão.
“13 de maio não é dia de negro. É dia de denunciar essa falsa abolição e colocar na ordem do dia a pauta da reparação histórica, social e econômica”, declarou.
Durante a conversa, Mariana Lacerda também abordou o caso do Ceará, frequentemente apresentado como “Terra da Luz” por ter abolido formalmente a escravidão antes do restante do país. Para ela, a chamada Data Magna cearense também reproduz uma narrativa centrada em figuras brancas e ignora o protagonismo negro nas lutas pela liberdade.
A vereadora lembrou que episódios como a revolta dos jangadeiros possuem importância histórica muito maior do que os marcos burocráticos posteriormente oficializados.
“O que nós questionamos é justamente essa versão que coloca os grandes abolicionistas brancos como protagonistas absolutos, enquanto a resistência negra é escondida”, disse.
Mariana ainda citou o poeta e intelectual negro Hilário Ferreira, falecido recentemente, cuja obra criticava a narrativa oficial da abolição no Ceará. Trechos do poema “Abolição inacabada” foram lidos durante o programa para ilustrar a permanência das desigualdades raciais e o apagamento histórico da população negra cearense.
A entrevista também abordou o cenário político nacional e os desdobramentos da reportagem publicada pelo The Intercept Brasil sobre as relações entre Flávio Bolsonaro, Daniel Vorcaro e o financiamento do filme Dark Horse, produção hollywoodiana inspirada em Jair Bolsonaro. Mariana classificou o caso como “a ponta de um iceberg” e afirmou que o fluxo milionário de recursos precisa ser investigado pelas autoridades.
Ao comentar os valores envolvidos na produção cinematográfica, a vereadora afirmou que o montante levantou suspeitas até mesmo dentro do mercado audiovisual brasileiro.
“Estamos falando de cifras incompatíveis com a realidade do cinema nacional. Filmes premiados internacionalmente custaram muito menos”, observou.
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