Da Redação
O Brasil chega aos 204 anos de sua Independência em plena campanha presidencial, sob forte polarização e com manifestações da direita convocadas em pelo menos 15 cidades, enquanto Flávio Bolsonaro, Michelle Bolsonaro, Tarcísio de Freitas e Romeu Zema convergem para um ato na Avenida Paulista centrado em críticas ao governo Lula e ao ministro Alexandre de Moraes. Em Brasília, o desfile oficial terá Lula, cerca de 30 mil pessoas são esperadas e um esquema especial protegerá a Esplanada e a Praça dos Três Poderes. Até agora, não há informação pública que permita afirmar que esteja em curso uma tentativa organizada de ruptura institucional amanhã. O precedente do 8 de Janeiro, porém, torna indispensável distinguir o direito democrático de protestar da transformação das ruas em instrumento de intimidação dos Poderes.
O Brasil chegará nesta segunda-feira, 7 de setembro, aos 204 anos da declaração formal de sua Independência em uma circunstância que transforma a data em algo muito maior do que uma cerimônia cívica. O país está a poucas semanas das eleições gerais de 2026, continua profundamente polarizado e verá novamente o verde e amarelo, a bandeira e a própria ideia de patriotismo disputados por projetos políticos antagônicos. Em Brasília, Luiz Inácio Lula da Silva participará do tradicional desfile cívico-militar na Esplanada dos Ministérios, programado para começar às 9 horas, com participação de estudantes, Forças Armadas, Polícia Militar, Corpo de Bombeiros, desfile motorizado e apresentações aéreas. A expectativa oficial é de aproximadamente 30 mil pessoas. Em São Paulo e outras cidades, grupos de direita e apoiadores do bolsonarismo preparam manifestações contra Lula e Alexandre de Moraes, enquanto a Avenida Paulista deve reunir alguns dos principais nomes desse campo político.
O primeiro cuidado necessário diante desse cenário é não confundir mobilização de oposição com tentativa de golpe. Protestar contra Lula, Moraes, o Supremo Tribunal Federal ou qualquer outra autoridade faz parte das liberdades políticas asseguradas pela Constituição. A Carta de 1988 protege a manifestação do pensamento e o direito de reunião pacífica e, ao mesmo tempo, estabelece como fundamentos da República a soberania, a cidadania e o pluralismo político. A fronteira democrática aparece quando a crítica a autoridades se converte em defesa de ruptura da ordem constitucional, violência, impedimento do funcionamento dos Poderes ou tentativa de substituir eleições e procedimentos legais pela coerção. É justamente essa distinção que precisa orientar a leitura do 7 de Setembro de 2026.
Até a noite deste domingo, as informações públicas consultadas não demonstram a existência de um plano operacional organizado para produzir amanhã uma ruptura institucional semelhante à tentativa golpista que culminou no 8 de Janeiro de 2023. Seria jornalisticamente incorreto anunciar antecipadamente uma ação dessa natureza sem evidências. Existe, contudo, um contexto político que explica a atenção das autoridades: o bolsonarismo volta a escolher uma data carregada de simbolismo nacional para uma demonstração de força, e a crise desencadeada pelas revelações do caso Banco Master tornou Alexandre de Moraes novamente um dos principais alvos da mobilização da direita. A campanha de Flávio Bolsonaro considera o 7 de Setembro uma oportunidade importante de mobilização e tem explorado diretamente a crise envolvendo Moraes e André Mendonça.
Flávio Bolsonaro confirmou presença na Avenida Paulista e convocou apoiadores a comparecerem às manifestações. O ato paulista deverá contar também com Michelle Bolsonaro e Tarcísio de Freitas, enquanto Romeu Zema anunciou que fará discurso crítico a Moraes. Levantamento publicado neste domingo registra mobilizações da direita previstas em pelo menos 15 cidades. O caráter eleitoral da manifestação é evidente: o Brasil está em campanha, Flávio é candidato à Presidência e seus aliados enxergam a rua como espaço de demonstração de capacidade de mobilização política. Isso, por si só, é inteiramente compatível com uma democracia. A questão decisiva será o conteúdo das manifestações, dos discursos e das ações concretas produzidas ao longo do dia.
É justamente por isso que o 7 de Setembro possui uma força simbólica incomum na história política brasileira. A Independência de 1822 costuma ser condensada na imagem de Pedro de Alcântara às margens do Ipiranga, mas a construção da independência foi um processo muito mais amplo, contraditório e socialmente conflituoso. Em diferentes regiões houve participação popular, confrontos armados e disputas sobre o significado concreto da separação de Portugal. A própria memória oficial da Independência da Bahia destaca a participação direta das camadas populares e associa aquele processo histórico a liberdade, justiça social, participação popular e soberania. A Independência brasileira não nasceu pronta em 7 de setembro de 1822; foi construída em conflitos posteriores e permaneceu limitada por uma estrutura escravista, profundamente desigual e economicamente dependente.
Essa contradição ajuda a compreender por que falar de independência em 2026 significa falar de muito mais do que fronteiras territoriais. A Constituição brasileira estabelece a soberania como fundamento da República e coloca entre os princípios das relações internacionais do país a independência nacional, a autodeterminação dos povos, a não intervenção, a defesa da paz e a solução pacífica dos conflitos. Ela determina ainda que o Brasil busque a integração econômica, política, social e cultural da América Latina. A soberania brasileira contemporânea, portanto, possui uma dimensão política, econômica e internacional: pressupõe que as decisões fundamentais do país sejam tomadas por suas instituições e por sua população, e não impostas por qualquer potência estrangeira.
É nesse ponto que o significado do 7 de Setembro ultrapassa qualquer governo. Um país formalmente independente pode continuar economicamente dependente, tecnologicamente subordinado ou vulnerável às decisões tomadas fora de suas fronteiras. No século XXI, soberania envolve energia, alimentos, minerais estratégicos, infraestrutura digital, capacidade científica, indústria, defesa, controle de dados e autonomia para estabelecer relações internacionais. O próprio Ministério da Defesa define a soberania brasileira a partir do exercício autônomo do poder sobre território, mar e espaço aéreo e associa a capacidade soberana à possibilidade de o país afirmar livremente seus interesses e perseguir seu desenvolvimento.
Essa questão adquire relevância particular para um país do Sul Global. O Brasil possui dimensões continentais, enorme capacidade agrícola, biodiversidade, água, petróleo, minerais críticos, uma extensa costa atlântica e a maior parcela da Amazônia. É simultaneamente uma potência regional, uma economia profundamente integrada ao capitalismo mundial e um país marcado internamente por desigualdades históricas. A independência política conquistada no século XIX não resolveu automaticamente essas contradições. O desafio contemporâneo é construir autonomia suficiente para que inserção internacional não signifique subordinação e para que desenvolvimento nacional não seja apenas crescimento econômico, mas também capacidade efetiva de decidir sobre recursos, tecnologia e distribuição da riqueza.
Há, portanto, uma dimensão social da independência frequentemente esquecida pelas cerimônias oficiais. A própria Constituição não limita a República à soberania territorial: determina como objetivos fundamentais construir uma sociedade livre, justa e solidária, garantir o desenvolvimento nacional, erradicar pobreza e marginalização e reduzir desigualdades sociais e regionais. Isso significa que a promessa democrática brasileira liga soberania externa e cidadania interna. Uma sociedade pode possuir bandeira, Exército, moeda e território e ainda conservar milhões de pessoas excluídas do acesso material aos direitos que tornam a liberdade concreta.
O 7 de Setembro também carrega, entretanto, uma história mais recente que explica a sensibilidade de 2026. Durante o governo Jair Bolsonaro, a data foi progressivamente incorporada à mobilização política de seus apoiadores. A bandeira nacional e as cores verde e amarela, símbolos que juridicamente pertencem ao conjunto da sociedade, passaram a ocupar posição central na identidade visual do movimento. O problema institucional nunca esteve no uso dessas cores por uma corrente política, algo perfeitamente legítimo, mas nos momentos em que manifestações passaram a incluir reivindicações incompatíveis com a ordem constitucional ou ataques aos mecanismos democráticos.
O 8 de Janeiro de 2023 modificou definitivamente a maneira pela qual grandes concentrações políticas próximas às sedes dos Poderes são avaliadas pelas instituições de segurança. Naquela data, milhares de apoiadores de Jair Bolsonaro invadiram e depredaram o Congresso Nacional, o Palácio do Planalto e o Supremo Tribunal Federal. A sequência de acontecimentos foi posteriormente objeto de investigações, processos e condenações. A experiência demonstrou que retórica radical, mobilização política, desinformação e presença física diante das instituições podem, em determinadas circunstâncias, convergir para violência concreta. Isso não autoriza presumir que qualquer manifestação futura tenha o mesmo objetivo; autoriza, sim, o Estado democrático a trabalhar preventivamente com cenários de risco.
E é precisamente o que Brasília está fazendo amanhã. O Protocolo de Operações Integradas preparado para o desfile foi construído, segundo o Governo do Distrito Federal, a partir de reuniões entre órgãos federais e locais e de levantamentos de inteligência. Haverá reforço policial em toda a região central, emprego de tropas especializadas, proteção dos prédios públicos por gradis e restrição de acesso à Praça dos Três Poderes. A chamada Cidade Policial será instalada ao lado do Museu da República e concentrará comandos móveis das forças de segurança. Câmeras e drones autorizados produzirão imagens em tempo real, enquanto equipes de emergência e combate a incêndios permanecerão mobilizadas.
As restrições começam antes mesmo do desfile. O trânsito na Esplanada começa a ser fechado neste domingo, e os bloqueios serão ampliados durante a noite. Caminhões, tratores, trios elétricos e outros veículos de grande porte não autorizados ficarão impedidos de acessar determinadas vias do perímetro. Armas, objetos perfurocortantes, explosivos, fogos de artifício, substâncias inflamáveis, recipientes de vidro, capacetes e uma série de outros objetos não poderão entrar na área controlada. A revista do público começará às 6 horas.
Há ainda uma zona de restrição de voo para drones estabelecida entre 0h e 18h de segunda-feira. Apenas aeronaves não tripuladas das forças de segurança ou previamente autorizadas poderão operar na região do desfile. O GSI adverte que violações podem produzir medidas de mitigação e consequências administrativas, civis e penais. É uma medida concreta de segurança presidencial e proteção de grandes concentrações, não evidência de que exista um ataque planejado. Essa diferença é fundamental.
O governo Lula também procura evitar que o próprio desfile oficial se transforme formalmente em evento eleitoral. Segundo informações publicadas neste domingo, existe mobilização para estimular participação popular na Esplanada, mas foram transmitidas orientações para impedir propaganda eleitoral no evento, incluindo símbolos partidários, adesivos, santinhos e bandeiras de campanha. A cautela possui um precedente jurídico importante: o uso eleitoral das comemorações oficiais do Bicentenário da Independência em 2022 esteve entre os episódios analisados pela Justiça Eleitoral no contexto que posteriormente levou à inelegibilidade de Jair Bolsonaro.
Essa separação entre Estado, governo e campanha é essencial. O presidente da República participa do 7 de Setembro como chefe de Estado e comandante supremo das Forças Armadas; ao mesmo tempo, Lula é candidato à reeleição. O evento pertence institucionalmente à República, não a uma candidatura. Da mesma maneira, a bandeira brasileira não pertence ao governo nem à oposição. Transformar símbolos nacionais em patrimônio exclusivo de uma corrente política reduz justamente aquilo que deveriam representar: uma comunidade política formada por cidadãos que podem discordar radicalmente entre si sem deixar de pertencer ao mesmo país.
A democracia começa nesse reconhecimento. O manifestante que amanhã estiver na Paulista contra Lula possui o mesmo direito constitucional de expressão que o cidadão que comparecer à Esplanada ou a qualquer manifestação crítica ao bolsonarismo. O Estado democrático não existe para impedir a oposição; existe para garantir que governo e oposição possam disputar poder sem destruir as regras que tornam essa disputa possível. Eleições periódicas, liberdade de expressão, imprensa livre, direito de manifestação, devido processo, independência dos Poderes e possibilidade de alternância no governo formam partes de uma mesma arquitetura.
É justamente por isso que o conceito de fascismo precisa ser empregado com precisão histórica, e não como simples sinônimo de adversário político. A extrema direita contemporânea possui correntes distintas, e nem todo conservador, liberal ou eleitor de direita pode ser classificado como fascista. Historicamente, experiências fascistas estiveram associadas à destruição do pluralismo político, culto à força, perseguição sistemática de adversários, nacionalismo autoritário, subordinação ou eliminação das instituições representativas e mobilização social organizada contra a democracia liberal. Identificar tendências autoritárias exige observar práticas e projetos concretos, não apenas rótulos partidários.
A experiência internacional contemporânea mostra por que essa vigilância democrática não é exclusividade brasileira. Em diferentes países, movimentos nacionalistas radicais ganharam espaço explorando insegurança econômica, desigualdade, imigração, transformações culturais e perda de confiança nas instituições. As respostas variam enormemente entre sociedades, e não existe uma linha automática que conduza crise econômica ao fascismo. Mas períodos de deterioração material e insegurança social historicamente podem criar terreno para projetos que oferecem soluções políticas baseadas em inimigos internos, concentração de poder e redução de direitos.
É nesse terreno que uma perspectiva social e democrática sobre a independência continua atual. A liberdade política não pode ser separada indefinidamente das condições materiais de existência. Sociedades extremamente desiguais produzem concentração não apenas de renda, mas também de capacidade política, acesso à informação, educação, tecnologia e influência sobre o Estado. Para tradições socialistas e trabalhistas, a democracia só alcança sua dimensão mais profunda quando direitos políticos são acompanhados de direitos sociais e quando o desenvolvimento aumenta a capacidade da maioria da população de controlar seu próprio destino. Essa é uma interpretação política legítima do significado da independência; não é, porém, a única existente numa sociedade plural.
Também é necessário colocar o Brasil dentro do Sul Global. A ordem internacional atravessa uma disputa crescente por tecnologia, energia, cadeias produtivas, minerais críticos, inteligência artificial e capacidade militar. Nesse ambiente, independência não significa isolamento. Nenhum país de grande porte consegue se desenvolver fora das relações internacionais. Soberania significa possuir capacidade suficiente para cooperar sem transformar cooperação em submissão, negociar sem aceitar tutela e diversificar relações para reduzir dependências excessivas.
A Constituição brasileira oferece, nesse aspecto, uma formulação extraordinariamente contemporânea. Ela combina independência nacional com não intervenção, autodeterminação dos povos, defesa da paz, solução pacífica dos conflitos e integração latino-americana. Não estabelece que o Brasil deva trocar dependência de uma potência por dependência de outra. O princípio é autonomia. A soberania brasileira não deveria ser medida pela proximidade com Washington, Pequim, Moscou ou qualquer outro centro de poder, mas pela capacidade do país de tomar decisões de acordo com suas próprias instituições e interesses democraticamente definidos.
Essa dimensão externa se conecta diretamente à disputa política doméstica. Quando grupos brasileiros procuram apoio internacional para pressionar instituições nacionais, a questão precisa ser examinada segundo fatos concretos e dentro das normas constitucionais. Da mesma forma, acusações de interferência estrangeira exigem provas e não podem funcionar como expediente para deslegitimar oposição interna. Soberania democrática possui duas faces inseparáveis: rejeitar ingerência externa e preservar internamente o direito dos brasileiros de discordar do governo.
É essa distinção que será testada nas ruas amanhã. Os atos da direita são legítimos enquanto permanecerem dentro da liberdade constitucional de reunião e expressão. Pedidos de investigação, críticas a decisões judiciais, defesa de impeachment dentro dos mecanismos previstos constitucionalmente e oposição eleitoral ao governo fazem parte da política democrática. A linha muda quando aparecem defesa de violência, ruptura institucional ou substituição dos procedimentos constitucionais pela força. A mesma regra vale para qualquer campo político.
A atenção sobre os discursos contra Alexandre de Moraes merece, portanto, uma leitura particularmente cuidadosa. As revelações recentes relacionadas ao Banco Master produziram questionamentos sérios e uma disputa aberta dentro das próprias instituições. Investigar fatos envolvendo um ministro do Supremo não constitui ataque à democracia; instituições democráticas também precisam ser fiscalizadas, e nenhuma autoridade deve possuir imunidade contra apuração legal. Outra coisa é utilizar suspeitas ainda em investigação para concluir antecipadamente que todo o Supremo é ilegítimo ou que decisões judiciais podem simplesmente ser anuladas pela pressão das ruas. Criticar um juiz é democracia; eliminar a independência judicial não é.
A diferença é essencial também porque a democracia não se defende pela blindagem de seus agentes. Quando surgem indícios envolvendo ministros, procuradores, policiais, governadores, parlamentares ou integrantes do Executivo, a resposta institucionalmente saudável é investigação com devido processo. O sistema se fortalece quando consegue examinar seus próprios integrantes sem destruir suas garantias. A defesa democrática perde credibilidade se significar proteger uma autoridade apenas porque ela enfrenta um movimento considerado autoritário.
Esse princípio vale igualmente para a oposição. A existência de investigações ou condenações contra integrantes de determinado movimento político não elimina os direitos civis e políticos de seus demais participantes. Responsabilidade criminal é individual e depende de provas e processo. A experiência brasileira recente torna ainda mais importante preservar simultaneamente duas ideias que às vezes aparecem artificialmente como incompatíveis: não pode haver impunidade para ataques à ordem democrática e não pode haver responsabilização sem devido processo.
Por isso o risco mais profundo do 7 de Setembro talvez não esteja em um acontecimento espetacular, mas na transformação gradual da política numa guerra entre brasileiros incapazes de reconhecer a legitimidade da existência do adversário. Democracias não exigem consenso. Exigem exatamente o contrário: instituições capazes de administrar conflitos profundos sem que cada eleição seja interpretada como autorização para destruir quem perdeu e sem que cada derrota seja convertida em justificativa para rejeitar as regras.
Há uma razão histórica para que a soberania popular esteja no centro dessa discussão. A Constituição começa afirmando que todo poder emana do povo. Mas imediatamente determina como esse poder é exercido: diretamente ou por representantes eleitos, nos termos da própria Constituição. A soberania popular, portanto, não é autorização para uma multidão circunstancial substituir as instituições. Nem governo, nem tribunal, nem Forças Armadas, nem manifestação de rua possui sozinho a representação absoluta da vontade nacional.
Essa talvez seja uma das lições mais importantes que o Brasil pode retirar do 8 de Janeiro. O fato de milhares de pessoas acreditarem profundamente numa causa não transforma automaticamente essa causa em expressão da vontade do povo. Numa democracia de mais de 200 milhões de habitantes, a vontade política nacional é processada por eleições, instituições, direitos, garantias e mecanismos constitucionais. A rua é parte da democracia; não é substituta da democracia.
O papel das Forças Armadas também ganha significado especial nessa data. O desfile de amanhã terá tropas do Exército, Marinha e Aeronáutica, além das forças de segurança do Distrito Federal, veículos militares e apresentações da Força Aérea. Num Estado democrático, essa demonstração não deveria representar poder militar sobre a sociedade, mas poder estatal submetido à ordem constitucional. As armas pertencem à República, e não a um partido, candidato ou corrente ideológica.
É precisamente por isso que o simbolismo do 7 de Setembro pode ser recuperado de maneira mais ampla. Independência não precisa significar culto à força. Pode significar soberania popular. Patriotismo não precisa significar submissão a um governo. Pode significar compromisso com uma sociedade capaz de decidir seu futuro. Bandeira não precisa separar brasileiros entre proprietários legítimos e adversários da pátria. Pode representar justamente a possibilidade de que cidadãos com projetos incompatíveis continuem compartilhando uma mesma comunidade política.
Para um país marcado por séculos de escravidão, concentração fundiária, desigualdade, dependência econômica e autoritarismo, a independência permanece um processo inacabado. O Brasil rompeu formalmente com Portugal em 1822, aboliu a escravidão apenas em 1888, tornou-se República em 1889, atravessou ditaduras e reconstruiu a democracia em diferentes momentos. A Constituição de 1988 estabeleceu a arquitetura institucional vigente, mas não eliminou desigualdade, violência, racismo, pobreza ou dependências externas. Cada geração recebe, portanto, uma independência juridicamente conquistada e socialmente incompleta.
É nesse sentido que democracia e emancipação social podem se encontrar. Para uma leitura socialista, a liberdade política precisa avançar em direção à democratização das condições materiais de vida; para uma leitura constitucional pluralista, diferentes projetos para alcançar desenvolvimento e justiça social devem poder competir livremente. Essas duas dimensões não precisam ser confundidas. A democracia estabelece o terreno no qual projetos socialistas, liberais, conservadores, trabalhistas e outros disputam legitimamente o futuro do país — desde que aceitem que nenhuma corrente possui o direito de abolir pela força a possibilidade de as demais existirem.
Amanhã, portanto, o Brasil viverá dois acontecimentos simultâneos. Na Esplanada, o Estado realizará sua cerimônia oficial diante de milhares de pessoas, sob um esquema de segurança cuidadosamente preparado. Nas ruas de várias cidades, adversários do governo exercerão seu direito de protestar e transformarão o 7 de Setembro também em ato político e eleitoral. Em São Paulo, a Paulista será o principal termômetro dessa mobilização.
Nada do que está confirmado até agora permite antecipar que essas manifestações produzirão uma tentativa de ruptura institucional. Tampouco a história recente permite que as instituições tratem grandes mobilizações radicalizadas como se o 8 de Janeiro nunca tivesse acontecido. As duas afirmações podem — e devem — coexistir. Prevenção não é criminalização antecipada; liberdade de manifestação não é licença para violência ou golpe.
É justamente aí que reside a dimensão mais profunda deste 7 de Setembro. Duzentos e quatro anos depois de 1822, a independência brasileira já não se decide às margens do Ipiranga. Decide-se cotidianamente na capacidade de preservar território e recursos, produzir conhecimento e tecnologia, reduzir desigualdades, relacionar-se autonomamente com as grandes potências, integrar-se à América Latina e impedir que conflitos políticos internos destruam o mecanismo pelo qual a própria sociedade decide quem governa.
O desafio de amanhã, portanto, não pertence exclusivamente a Lula, Flávio Bolsonaro, Alexandre de Moraes ou qualquer outro personagem da conjuntura. Pertence à República. Um país soberano precisa ser capaz de permitir que dezenas de milhares de cidadãos ataquem politicamente seu governo sem temer o Estado e, simultaneamente, precisa possuir instituições suficientemente sólidas para impedir que qualquer grupo transforme essa liberdade em instrumento de violência contra a ordem constitucional. Talvez seja essa a forma contemporânea mais exigente de independência: um Brasil capaz de decidir seus próprios caminhos, proteger sua democracia, preservar sua soberania diante do mundo e reconhecer que liberdade política só existe de verdade quando nenhum brasileiro — governo ou oposição — pode reivindicar para si o monopólio da pátria.






