Da Redação
A cinebiografia Dark Horse, produção que pretende retratar Jair Bolsonaro como uma espécie de herói político internacional, entrou novamente no centro de uma crise que mistura dinheiro público, contratos milionários, investigações policiais e suspeitas de irregularidades administrativas. Nos últimos dias, a Polícia Civil de São Paulo aprofundou apurações sobre possíveis desvios de recursos ligados ao Instituto Conhecer Brasil (ICB), organização comandada por Karina Ferreira da Gama, que também controla a produtora Go Up Entertainment, responsável pela realização do filme.
O caso ganhou proporções ainda maiores após investigadores passarem a trabalhar com a hipótese de possível financiamento cruzado entre recursos públicos recebidos pelo instituto e atividades ligadas à produção cinematográfica. A investigação não concluiu qualquer irregularidade até o momento, mas os indícios levantados pelas autoridades já provocaram forte repercussão política e institucional.
No centro da controvérsia está um contrato firmado entre a Prefeitura de São Paulo e o Instituto Conhecer Brasil para implantação e manutenção de pontos de Wi-Fi em comunidades periféricas da capital paulista. Segundo a Polícia Civil e o Ministério Público, existem suspeitas relacionadas ao processo de seleção da entidade, aos valores contratados e à execução efetiva dos serviços previstos.
Um dos elementos que mais chamou atenção dos investigadores foi o fato de apenas uma entidade ter participado do chamamento público que resultou na contratação. Além disso, a polícia sustenta que o instituto não possuía histórico técnico compatível com a execução de um projeto dessa magnitude na área de conectividade digital. O histórico da organização estaria mais associado à realização de feiras culturais, eventos literários e iniciativas religiosas do que a projetos de infraestrutura tecnológica.
Outro ponto considerado sensível envolve os custos apresentados no contrato. A investigação aponta que os valores cobrados pelo Instituto Conhecer Brasil seriam significativamente superiores aos praticados por estruturas públicas já existentes. Segundo a apuração, o custo mensal por ponto de internet contratado chegaria a ser mais de três vezes superior ao valor praticado por empresas públicas municipais de tecnologia.
As suspeitas aumentaram quando auditorias e vistorias preliminares passaram a indicar possíveis problemas na execução do projeto. De acordo com a Polícia Civil, o cronograma original previa milhares de pontos de acesso funcionando em diferentes regiões da cidade, mas parte significativa das metas não teria sido alcançada dentro dos prazos previstos. A investigação também questiona pagamentos antecipados realizados pela administração municipal antes da comprovação integral dos serviços contratados.
Foi nesse contexto que surgiu a conexão com Dark Horse.
Karina Ferreira da Gama ocupa posição central tanto no Instituto Conhecer Brasil quanto na Go Up Entertainment. A coincidência entre os dois papéis levou investigadores a analisar se recursos públicos recebidos pela ONG poderiam ter sido utilizados de forma indireta para financiar atividades relacionadas à produção do longa-metragem. A hipótese está sendo investigada, mas ainda não há conclusão definitiva sobre a existência de desvio de recursos.
A Polícia Civil chegou a solicitar acesso a dados financeiros sigilosos relacionados às empresas e organizações ligadas à produtora. O pedido foi encaminhado à Justiça dentro do inquérito que corre sob sigilo. Os investigadores buscam rastrear movimentações financeiras, contratos e fluxos de recursos que possam esclarecer a relação entre as estruturas envolvidas.
A crise se tornou ainda mais delicada porque a própria produção de Dark Horse já vinha acumulando polêmicas antes mesmo das investigações atuais.
O filme, estrelado pelo ator norte-americano Jim Caviezel e escrito por Mário Frias, apresenta Bolsonaro como protagonista de uma narrativa épica de ascensão política. Desde o anúncio do projeto, críticos apontaram forte caráter ideológico na construção do roteiro, que busca transformar episódios centrais da trajetória bolsonarista em uma narrativa heroica voltada ao público internacional.
Além disso, surgiram denúncias envolvendo condições de trabalho durante as filmagens. Figurantes relataram atrasos de pagamento, condições consideradas degradantes, restrições abusivas e episódios de constrangimento nos bastidores da produção. Entidades sindicais afirmaram ter recebido diversas reclamações relacionadas ao set de filmagem.
Agora, com a ampliação das investigações sobre os contratos ligados ao Instituto Conhecer Brasil, o debate deixou de ser apenas cultural ou cinematográfico e passou a envolver possíveis questões de administração pública, transparência e uso de recursos estatais.
A gestão do prefeito Ricardo Nunes nega irregularidades e afirma que colaborou integralmente com as autoridades. A prefeitura sustenta que o contrato seguiu os trâmites legais, que os serviços estão em funcionamento e que as prestações de contas permanecem disponíveis para fiscalização pública.
Já os investigadores argumentam que a apuração precisa avançar justamente para esclarecer se os procedimentos administrativos foram suficientes para garantir economicidade, capacidade técnica e correta aplicação dos recursos públicos envolvidos.
O caso também reacendeu um debate recorrente na política brasileira: a relação entre estruturas privadas, organizações sociais, contratos públicos e projetos ideológicos financiados direta ou indiretamente por recursos provenientes do Estado.
Independentemente dos desdobramentos judiciais futuros, a investigação já produziu um enorme desgaste político porque conecta três temas altamente sensíveis ao debate público atual: dinheiro público, bolsonarismo e transparência institucional.
E é justamente essa combinação que ajuda a explicar por que Dark Horse deixou de ser apenas um filme e passou a ocupar espaço no centro de uma das investigações mais delicadas da política paulista neste momento.



