Da Redação
Durante grande parte das últimas três décadas, a América Latina ocupou uma posição secundária na geopolítica internacional. As atenções das grandes potências estavam voltadas para o Oriente Médio, para a expansão da OTAN em direção ao Leste Europeu, para a Guerra ao Terror e, mais recentemente, para a ascensão da China. A região parecia condenada a um papel periférico no sistema internacional.
Essa percepção está mudando rapidamente.
Os acontecimentos dos últimos meses, da crise envolvendo Irã e Estados Unidos às disputas comerciais entre Washington e Pequim, passando pelas pressões sobre o Brasil, pelas tensões em torno dos BRICS e pela corrida global por inteligência artificial, revelam uma transformação silenciosa, mas profunda: a América Latina voltou a ser considerada um território estratégico para a disputa pela hegemonia mundial.
Não se trata de uma volta ao passado nem de uma repetição da Guerra Fria. O que está em curso é uma nova etapa da competição internacional, marcada pela disputa por minerais críticos, energia, alimentos, dados, inteligência artificial, infraestrutura digital e sistemas financeiros.
E poucos lugares do planeta concentram tantos recursos estratégicos quanto a América Latina.
O declínio da ilusão unipolar
O século XXI começou sob a impressão de que os Estados Unidos haviam alcançado uma posição de supremacia incontestável.
Após o colapso da União Soviética, consolidou-se a ideia de que Washington havia se tornado a única superpotência global. Seu poder militar, financeiro, tecnológico e diplomático parecia não encontrar rivais.
Mas a história recente mostrou limites importantes.
O Vietnã já havia demonstrado que superioridade militar não garante vitória política. O Iraque revelou a dificuldade de transformar ocupações militares em estabilidade duradoura. O Afeganistão terminou com o retorno do Talibã ao poder após vinte anos de intervenção. A guerra na Ucrânia transformou-se em um conflito prolongado e muito distante das expectativas formuladas nos primeiros meses da crise.
A recente escalada entre Estados Unidos e Irã expôs novamente essa contradição.
Apesar da enorme superioridade militar norte-americana, Washington acabou aceitando negociações após meses de tensão regional, ataques cruzados e riscos para o mercado global de energia.
O episódio revelou algo maior do que a própria crise iraniana.
Mostrou que o desafio contemporâneo dos Estados Unidos não é derrotar adversários. O desafio é administrar os custos crescentes da manutenção de sua posição hegemônica em um mundo cada vez mais multipolar.
A nova guerra não é apenas militar
Durante o século XX, poder significava petróleo, aço, exércitos e navios.
No século XXI, o centro da disputa mudou.
Hoje, as grandes potências competem por semicondutores, inteligência artificial, minerais críticos, capacidade computacional, energia, cabos submarinos, plataformas digitais e sistemas financeiros.
A ascensão da China tornou essa transformação ainda mais evidente.
Pequim tornou-se a maior potência industrial do planeta, líder em painéis solares, baterias, veículos elétricos e processamento de terras raras.
Ao mesmo tempo, os Estados Unidos passaram a tratar tecnologia, minerais estratégicos e infraestrutura digital como temas de segurança nacional.
A disputa pelos chips avançados produzidos por empresas como TSMC, Nvidia, Intel e Samsung tornou-se tão estratégica quanto as disputas por petróleo durante o século passado.
É nesse contexto que a América Latina reaparece no radar global.
O continente dos recursos estratégicos
O retorno da América Latina ao centro da geopolítica não é resultado de ideologia.
É resultado da geografia.
A região reúne alguns dos recursos mais importantes para sustentar a economia do século XXI.
O chamado Triângulo do Lítio, formado por Bolívia, Argentina e Chile, concentra mais da metade das reservas conhecidas desse mineral fundamental para baterias e veículos elétricos.
Chile e Peru figuram entre os principais produtores mundiais de cobre, elemento indispensável para redes elétricas, telecomunicações, data centers e infraestrutura digital.
A Venezuela continua possuindo algumas das maiores reservas de petróleo do mundo.
A Guiana transformou-se em uma das novas fronteiras energéticas globais.
O Brasil consolidou-se como potência petrolífera com o pré-sal.
Mas a importância regional vai muito além do petróleo e dos minerais.
Água, alimentos e Amazônia
Em um planeta pressionado pelas mudanças climáticas, poucos ativos são tão estratégicos quanto água e alimentos.
A América Latina abriga algumas das maiores reservas hídricas do mundo.
O Aquífero Guarani é uma das maiores reservas subterrâneas de água doce do planeta.
A Amazônia concentra enorme parte dos recursos hídricos superficiais globais e exerce papel decisivo na regulação climática.
Ao mesmo tempo, Brasil, Argentina e Paraguai figuram entre os maiores exportadores mundiais de alimentos.
Em um cenário de guerras, crises logísticas e instabilidade climática, a capacidade de garantir abastecimento alimentar tornou-se um ativo geopolítico de primeira grandeza.
A nova corrida pelos dados
A disputa atual não ocorre apenas sobre recursos físicos.
Ela acontece também sobre dados.
Empresas como Google, Meta, Microsoft, Amazon, OpenAI, Anthropic e Nvidia deixaram de ser simples corporações tecnológicas.
Elas passaram a controlar partes essenciais da infraestrutura econômica contemporânea.
Redes sociais, sistemas de busca, computação em nuvem, inteligência artificial e publicidade digital tornaram-se componentes estratégicos da economia global.
Nesse cenário, a América Latina não é apenas um mercado consumidor.
É também uma enorme fonte de dados.
Milhões de brasileiros, argentinos, colombianos e mexicanos produzem diariamente informações que alimentam sistemas de inteligência artificial, plataformas digitais e mercados globais de publicidade.
Por isso, o debate sobre soberania digital deixou de ser uma questão técnica.
Tornou-se uma questão geopolítica.
O caso brasileiro
Nenhum país da região ocupa posição comparável à do Brasil.
O país reúne simultaneamente:
- Pré-sal e grande capacidade energética;
- Amazônia e recursos hídricos estratégicos;
- Reservas minerais de relevância global;
- Liderança agrícola;
- Mercado consumidor de grande escala;
- Infraestrutura financeira própria;
- Protagonismo diplomático.
Nos últimos anos, o Brasil também passou a ocupar posição relevante no debate sobre soberania digital.
O exemplo mais conhecido é o Pix.
Criado pelo Banco Central, o sistema tornou-se uma das maiores infraestruturas públicas de pagamentos instantâneos do mundo.
Mais do que uma inovação tecnológica, o Pix demonstrou que um país do Sul Global pode desenvolver soluções digitais próprias sem depender integralmente de grandes plataformas privadas estrangeiras.
Esse tipo de autonomia passou a chamar atenção internacional.
BRICS e a busca por autonomia
A ampliação dos BRICS acelerou essa tendência.
O bloco reúne países responsáveis por parcela crescente da população mundial, da produção industrial, da energia e dos recursos naturais do planeta.
O fortalecimento do comércio em moedas locais, os debates sobre sistemas alternativos de pagamento e a expansão do Novo Banco de Desenvolvimento indicam uma busca gradual por maior autonomia diante da arquitetura financeira construída sob liderança norte-americana após a Segunda Guerra Mundial.
Não se trata do fim do dólar.
Mas trata-se da tentativa de reduzir dependências históricas.
E o Brasil ocupa posição central nesse processo.
Por que os ataques ao Brasil aumentaram
A crescente relevância estratégica da América Latina ajuda a compreender fenômenos que, à primeira vista, parecem desconectados.
As pressões sobre o Brasil em temas ambientais.
As disputas envolvendo regulação das plataformas digitais.
As tensões em torno dos BRICS.
As críticas à política externa brasileira.
Os conflitos comerciais.
As discussões sobre data centers, inteligência artificial e minerais críticos.
Nada disso ocorre isoladamente.
Todos esses temas fazem parte de uma disputa maior.
Uma disputa pelo controle dos recursos, das infraestruturas e das tecnologias que sustentarão a economia das próximas décadas.
O século XXI passa pelo Sul
A pergunta central da geopolítica contemporânea já não é apenas quem possui mais tanques, mais navios ou mais bases militares.
A pergunta é quem controla os minerais necessários para a inteligência artificial.
Quem controla os dados.
Quem controla a energia.
Quem controla os alimentos.
Quem controla os sistemas financeiros.
Quem controla as infraestruturas digitais.
Sob essa perspectiva, a América Latina deixou de ser periferia.
Tornou-se um dos espaços mais disputados do planeta.
E o Brasil, pela combinação singular de território, recursos naturais, população, capacidade produtiva e peso diplomático, ocupa posição central nesse processo.
Os canhões da disputa mundial não apontam mais apenas para o Oriente Médio, para a Europa Oriental ou para o Indo-Pacífico.
Eles voltam a apontar para o Sul.
E compreender essa transformação será fundamental para entender os conflitos, alianças e disputas que marcarão as próximas décadas.



