“O jogo está 2 a 1, mas pode virar rapidamente”

Cientista político João Paulo Bandeira analisa o cenário eleitoral, avalia a influência internacional sobre a disputa de 2026 e aponta que soberania deve se consolidar como um dos principais temas da campanha

A disputa presidencial de 2026 entrou em uma nova fase, marcada pelo fortalecimento do debate sobre soberania nacional, judicialização das campanhas nas redes sociais e crescente participação de atores internacionais na política brasileira. Esses foram alguns dos temas discutidos no programa Café com Democracia, apresentado por Luiz Regadas, que recebeu o cientista político e professor do Instituto Federal do Ceará (IFCE), João Paulo Bandeira.

Ao analisar os acontecimentos mais recentes da corrida eleitoral, o pesquisador afirmou que o cenário permanece aberto, apesar das pesquisas indicarem vantagem do presidente Lula sobre Flávio Bolsonaro. Para ele, o momento exige cautela.

“O jogo está 2 a 1, mas pode virar rapidamente.”

Segundo João Paulo, embora o campo bolsonarista tenha perdido parte do fôlego nos últimos meses, continua contando com uma base eleitoral consolidada e com apoio de forças políticas e econômicas capazes de alterar o rumo da campanha.

Judicialização deve marcar a eleição

Um dos primeiros assuntos debatidos foi a decisão do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) que determinou a remoção de publicações de aliados do governo que associavam o senador Flávio Bolsonaro a organizações criminosas.

Para João Paulo, a medida evidencia uma mudança de comportamento do próprio bolsonarismo, que durante anos criticou duramente a atuação da Justiça Eleitoral.

“É curioso ver o bolsonarismo recorrer ao TSE para retirar conteúdos das redes sociais depois de passar anos atacando o próprio tribunal.”

Na avaliação do cientista político, a judicialização da disputa digital será uma das principais características da eleição de 2026.

Ele observou que a Justiça Eleitoral deverá ser constantemente acionada para arbitrar conflitos envolvendo desinformação, campanhas digitais e liberdade de expressão.

“Não vale tudo na política. Um erro cometido por um campo não autoriza que o outro repita a mesma prática.”

Segurança pública entra no centro da campanha

O professor também comentou os resultados de uma pesquisa Datafolha que mostrou amplo apoio popular à classificação de facções criminosas como organizações terroristas, mas forte rejeição à interferência dos Estados Unidos sobre esse tema.

Segundo ele, a extrema direita pretende transformar a segurança pública no principal eixo da campanha eleitoral.

No entanto, acredita que existe um limite para esse discurso quando ele passa a ser associado à influência estrangeira.

“A população pode até defender medidas mais duras contra o crime, mas rejeita que outro país interfira nas decisões brasileiras.”

Para João Paulo, o sentimento de defesa da soberania permanece bastante forte entre os eleitores brasileiros.

A eleição brasileira ganha dimensão internacional

Durante a entrevista, Luiz Regadas levantou o debate sobre manifestações recentes de Donald Trump envolvendo o Brasil e questionou de que maneira temas internacionais podem interferir na campanha presidencial.

João Paulo argumentou que o fenômeno vai além da simples repercussão de acontecimentos internacionais.

Segundo ele, existe uma tentativa deliberada de internacionalizar a disputa eleitoral brasileira.

“Não são os temas internacionais que chegam ao Brasil. O que está acontecendo é uma tentativa de internacionalizar a nossa eleição.”

Na avaliação do cientista político, setores da extrema direita procuram importar lideranças, narrativas e estratégias políticas utilizadas em outros países.

Ele destacou que o Brasil ocupa posição estratégica na América Latina e que o resultado das eleições poderá influenciar o equilíbrio político da região.

“Eles querem trazer para o Brasil a força da extrema direita internacional.”

Lula amplia vantagem, mas disputa continua aberta

Ao comentar as pesquisas eleitorais mais recentes, João Paulo afirmou que o principal movimento observado é o aumento da distância entre Lula e Flávio Bolsonaro.

Segundo ele, parte do eleitorado bolsonarista permanece fiel, mas a direita enfrenta dificuldades para ampliar sua base.

Além disso, o professor avaliou que o debate sobre soberania nacional acabou fortalecendo politicamente o governo federal.

“O governo colheu os frutos de medidas recentes e também ganhou um tema que dialoga diretamente com a população: a defesa da soberania.”

Mesmo assim, ele descartou qualquer cenário de acomodação.

“Nada está ganho. É uma eleição extremamente disputada.”

Ceará também será influenciado pela disputa nacional

Ao analisar o cenário político cearense, João Paulo afirmou que a tentativa de estadualizar a eleição para o Governo do Ceará dificilmente prosperará.

Segundo ele, temas nacionais e internacionais acabarão dominando o debate local.

Na sua avaliação, a relação entre Ciro Gomes, Flávio Bolsonaro e setores da direita continuará sendo explorada pelos adversários.

“Essa eleição será nacionalizada e internacionalizada.”

O cientista político acredita que a polarização entre os projetos nacionais inevitavelmente influenciará a escolha do eleitor cearense.

Caso Jaques Wagner

Outro tema abordado foi a investigação envolvendo o senador Jaques Wagner.

João Paulo defendeu que o caso seja tratado dentro dos limites institucionais e rejeitou antecipar conclusões.

Segundo ele, é preciso confiar no trabalho dos órgãos de investigação.

Ao mesmo tempo, avaliou que adversários políticos tentam construir uma falsa equivalência entre diferentes episódios de corrupção para atingir o governo federal.

“O problema é criar uma falsa equivalência entre situações completamente diferentes.”

Na opinião do professor, eventuais responsabilidades individuais não devem ser confundidas com o projeto político representado pelo governo.

Eleição exigirá atenção permanente

Encerrando a entrevista, João Paulo voltou a comparar a disputa eleitoral a uma partida de futebol.

Embora reconheça um momento favorável ao campo governista, alertou que o cenário permanece altamente competitivo e sujeito a mudanças rápidas.

Segundo ele, além da disputa pelo voto, haverá uma intensa batalha pela definição da agenda pública, envolvendo soberania, segurança, economia e influência internacional.

Para o cientista político, compreender esses movimentos será decisivo para entender os rumos da eleição presidencial de 2026.


https://www.youtube.com/watch?v=n62493E3JyE

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