Da Redação
Projeto Rassvet busca reduzir dependência tecnológica de sistemas ocidentais e mostra como as constelações de baixa órbita se tornaram infraestrutura estratégica em guerras, comunicações e soberania digital
A Rússia avança no desenvolvimento de uma constelação própria de satélites de baixa órbita para disputar espaço com a Starlink, rede de internet via satélite da SpaceX, controlada por Elon Musk. O projeto russo, chamado Rassvet, é conduzido pelo Bureau 1440, ligado ao grupo Iks Holding, e pretende oferecer serviços comerciais a partir de 2027, em uma escala menor do que a rede norte-americana, mas com forte significado estratégico.
A iniciativa ocorre em um momento em que a internet por satélite deixou de ser apenas uma solução para regiões remotas e passou a ocupar papel central em conflitos militares, comunicações críticas, monitoramento territorial e autonomia tecnológica. A guerra na Ucrânia demonstrou a importância desse tipo de infraestrutura. A Starlink tornou-se fundamental para comunicações militares ucranianas, coordenação de drones, transmissão de dados e manutenção de conectividade em áreas atingidas por ataques.
Essa experiência acelerou a percepção, em Moscou, Pequim e outros centros de poder, de que depender de uma rede privada controlada por uma empresa norte-americana representa vulnerabilidade estratégica. Em um cenário de sanções, bloqueios tecnológicos e disputas militares de alta intensidade, o controle sobre satélites, dados e conectividade tornou-se parte da soberania nacional.
Rassvet começa com 16 satélites
A Rússia lançou em março os primeiros 16 satélites operacionais do sistema Rassvet, em um passo inicial para construir uma rede de internet de baixa órbita. O plano divulgado por executivos do setor prevê início de operação comercial em 2027 e expansão gradual da constelação ao longo da próxima década.
Segundo informações publicadas pela Reuters, a Rússia trabalha com a meta de alcançar centenas de satélites até 2030 e aproximadamente 900 unidades até 2035. A escala ainda é muito inferior à Starlink, que já opera com milhares de satélites em órbita e domina o mercado global de internet espacial. Ainda assim, o projeto russo não precisa igualar imediatamente a rede de Musk para cumprir seu objetivo principal: garantir cobertura própria em território nacional, áreas remotas, zonas de interesse militar e regiões estratégicas.
A proposta russa combina uso civil e potencial aplicação militar. Em um país de dimensões continentais, com vastas áreas de baixa densidade populacional, conectividade por satélite pode atender comunidades isoladas, infraestrutura energética, transporte, mineração, comunicações governamentais e operações de defesa. Ao mesmo tempo, em contexto de guerra, a mesma rede pode sustentar comando, controle, vigilância, navegação e comunicações de emergência.
Starlink virou infraestrutura de guerra
A expansão da Starlink mudou a geopolítica das comunicações. Ao criar uma rede global de satélites de baixa órbita capaz de oferecer conexão em locais sem infraestrutura terrestre, a SpaceX produziu uma tecnologia com grande valor comercial, mas também com enorme peso militar. A experiência ucraniana revelou que uma empresa privada pode, na prática, influenciar o funcionamento de operações militares e a capacidade de resistência de um Estado.
Isso abriu um debate internacional sobre a privatização de infraestruturas estratégicas. Quando redes de comunicação, satélites, cabos submarinos, nuvens digitais e sistemas de dados pertencem a poucas corporações, governos passam a depender de decisões empresariais tomadas fora de seu território. Essa dependência é ainda mais sensível quando a empresa está sediada em uma potência envolvida diretamente nas disputas geopolíticas globais.
A resposta russa deve ser entendida dentro desse quadro. O Rassvet não é apenas uma tentativa de competir no mercado de internet via satélite. É também uma iniciativa de soberania tecnológica, orientada pela necessidade de reduzir vulnerabilidades diante do domínio ocidental sobre infraestrutura digital e espacial.
China também corre para disputar o espaço
A Rússia não está sozinha nessa corrida. A China acelera projetos próprios de constelações de baixa órbita, como a SpaceSail, também conhecida como Qianfan, apresentada como uma das principais concorrentes futuras da Starlink. Com forte apoio estatal, o projeto chinês pretende oferecer conectividade global e disputar mercados onde a presença da Starlink enfrenta barreiras políticas ou regulatórias.
Essa movimentação indica que a próxima fase da disputa tecnológica internacional será travada também no espaço próximo à Terra. Satélites de baixa órbita oferecem menor latência e maior capacidade de transmissão do que sistemas tradicionais geoestacionários, tornando-se fundamentais para internet de alta velocidade, veículos autônomos, sensores, operações militares, agricultura de precisão, monitoramento ambiental e redes de emergência.
A multiplicação dessas constelações, porém, também traz riscos: congestionamento orbital, lixo espacial, interferência em observações astronômicas, militarização do espaço e aumento da dependência de infraestruturas digitais controladas por poucos atores.
Soberania digital ganha dimensão espacial
O avanço russo reforça uma tendência mais ampla: soberania digital não se limita mais a cabos, datacenters, semicondutores, softwares e plataformas. Ela agora inclui satélites, órbitas, frequências, terminais terrestres, sistemas de criptografia e capacidade de lançamento.
Para países do Sul Global, essa mudança tem implicações diretas. A conectividade por satélite pode ser decisiva para inclusão digital em regiões remotas, monitoramento ambiental, defesa civil, agricultura, educação e integração territorial. Mas, se essa infraestrutura for controlada apenas por empresas estrangeiras, a dependência tecnológica tende a se aprofundar.
O caso russo mostra que grandes potências estão tratando a internet espacial como infraestrutura de Estado. A China faz o mesmo. Os Estados Unidos já contam com a Starlink e com a força de sua indústria aeroespacial privada. A disputa, portanto, não é apenas comercial: é geopolítica, militar e tecnológica.
Uma nova corrida espacial
A primeira corrida espacial foi marcada pela disputa entre Estados Unidos e União Soviética por foguetes, satélites, sondas e presença humana fora da Terra. A nova corrida espacial tem outro formato. Ela envolve redes de comunicação, domínio de dados, vigilância, inteligência artificial, sistemas autônomos, armas de precisão e capacidade de manter conectividade em situações de guerra.
Nesse cenário, o Rassvet representa mais do que a tentativa russa de construir uma alternativa à Starlink. Ele simboliza a entrada definitiva das comunicações espaciais na disputa por soberania tecnológica. Quem controlar as redes que conectam territórios, exércitos, empresas e cidadãos terá vantagem estratégica em tempos de paz e em tempos de guerra.
A Rússia ainda está muito atrás da Starlink em escala, capacidade de lançamento e presença global. Mas o simples avanço de projetos nacionais e regionais indica que o monopólio ocidental da internet espacial começa a ser questionado. O espaço, mais uma vez, tornou-se fronteira da política mundial.






