Em entrevista ao Café com Democracia, Flávia Rodrigues e Freddy Meregote defendem soberania, criticam a presença militar dos EUA no Caribe e descrevem cotidiano que resiste ao bloqueio com produção interna e mobilização popular
A escalada de tensões no Caribe voltou ao centro do debate latino-americano. No programa Café com Democracia desta segunda (11/11), apresentado por Luiz Regadas, a professora e militante do PT Flávia Rodrigues e o analista político Freddy Meregote analisaram o momento venezuelano, a resposta regional articulada pela CELAC e os efeitos do bloqueio econômico no dia a dia da população. Esta reportagem se baseia na entrevista exibida pela TV Atitude Popular, a fonte original da notícia.
Os convidados destacaram o peso político da reunião da CELAC na Colômbia, com a presença ativa do Brasil. Para Flávia Rodrigues, o gesto de Lula foi decisivo ao “defender de maneira muito contundente que a América Latina e o Caribe são uma zona de paz” e ao dar centralidade à linguagem da soberania em meio à pressão norte-americana. “Não teria sentido uma reunião da CELAC nesse momento se não fosse para defender a América Latina e o Caribe”, lembrou, citando também a atuação do assessor especial Celso Amorim na defesa de uma saída diplomática regional.
Pressão externa, bloco regional e uma doutrina antiga com roupa nova
Freddy Meregote descreveu o movimento militar dos Estados Unidos no entorno caribenho como a reedição de velhas práticas. “Eles estão reavivando a Doutrina Monroe… querem simplesmente da Venezuela o petróleo; do Brasil, as terras raras; da Bolívia, o lítio”, disse. Para ele, o argumento de combate ao narcotráfico, usado para justificar ações de força no mar do Caribe, é “um processo totalmente violatório de direitos humanos”, já denunciado no sistema ONU.
Meregote resumiu o tabuleiro: “A afronta não é contra a Venezuela, é contra a América Latina”. Daí a importância de consolidar posições comuns na CELAC e de ampliar mecanismos de cooperação econômica e defensiva no subcontinente.
Vida cotidiana entre a “guerra psicológica” e as rotinas que persistem
Apesar das ameaças, Meregote afirmou que há normalidade social e esforço de recomposição econômica: “O povo venezuelano está vencendo a guerra psicológica”. Segundo ele, eventos esportivos lotam estádios, e as cidades “estão coloridas” com as festas de fim de ano, sem deixar de lado a preparação cívico-militar. “Estamos preparados para nos defender a qualquer momento, mas não deixamos de cumprir nossas tarefas diárias.”
Flávia reforçou o contraste entre a retórica de caos e a observação do cotidiano feita por redes de amigos e contatos no país. “Em que pese esse sentimento de que a qualquer hora pode haver um míssil, as pessoas seguem firmes defendendo a soberania e a vida normal.” Ela relatou ainda um movimento de mudança de tom em veículos brasileiros, que passaram a se referir a Nicolás Maduro como “presidente” — e não “ditador” — ao noticiar suas falas sobre paz e independência.
Bloqueio, preços e recomposição produtiva
Os convidados apontaram que o bloqueio financeiro e comercial segue sendo o principal vetor de sofrimento econômico, inclusive pelo impacto no fluxo de transações internacionais (Venezuela foi retirada do sistema SWIFT). Ainda assim, Meregote afirmou que o país “está produzindo cerca de 80% do que consome” e atravessa um ciclo de crescimento reconhecido em organismos multilaterais, embora a “guerra psicológica” e os ventos de confronto encareçam custos e pressionem preços.
Flávia sublinhou o efeito perverso das sanções sobre a população: “Quem padece com esse tipo de medidas é o povo”. Para ela, a unidade latino-americana é “vital” para desarmar a escalada e fortalecer circuitos de comércio e financiamento que não dependam de um único centro hegemônico.
Oposição, legitimidade e a disputa de narrativas
Questionados sobre a oposição venezuelana, os entrevistados foram críticos a María Corina Machado e às táticas que classificam como “internacionalização do conflito” por meio de pedidos de sanções e de intervenção. Meregote sustentou que a contestação dos resultados eleitorais se converteu em estratégia de desgaste e “guerra de narrativas”, lembrando que o sistema eleitoral venezuelano prevê auditorias e divulgação simultânea de atas aos comitês de situação e oposição.
Regadas trouxe ao debate a fala recente de Maduro — “Ninguém vai tirar a nossa liberdade, ninguém vai tirar a nossa paz e a independência do país” — como síntese da postura oficial diante de resoluções do Congresso norte-americano e da presença de meios navais na região.
“Zona de paz” como agenda comum
No plano diplomático, Flávia destacou a consistência da posição brasileira, com Lula verbalizando que a América do Sul não precisa de corrida armamentista nem de militarização extrarregional. “O Brasil tem tido uma posição muito contundente na defesa da paz”, afirmou. A leitura converge com a de Meregote sobre a urgência de repolitizar a integração: “Trabalhar todos pela inestimável bênção da união”, evocou, citando Simón Bolívar para defender que a discussão “tem que ir aos ônibus, aos locais de trabalho, ao cotidiano”.
Ao final, os dois convidados lamentaram a morte do jornalista Osvaldo Araújo, ex-superintendente do jornal O Povo e fundador de projetos independentes de mídia, e reforçaram o chamado à informação plural: “Saiam um pouco da mídia tradicional para conhecer o que passa na Venezuela”, pediu Flávia, sugerindo acompanhar as páginas do PSUV e canais locais.
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