“A caatinga é nossa e nós somos caatinga”

Presidente da Fundação Cepema defende sanção da Lei da Caatinga, alerta para o avanço da desertificação e relaciona preservação ambiental à soberania alimentar no Nordeste

O presidente da Fundação Cepema, Adalberto Alencar, fez um alerta sobre os riscos da desertificação no Nordeste e defendeu a necessidade de políticas públicas voltadas à proteção da Caatinga, durante entrevista ao programa Café com Democracia, apresentado por Luiz Regadas, da Atitude Popular. Segundo ele, a preservação do único bioma exclusivamente brasileiro está diretamente ligada à produção de alimentos, à disponibilidade de água e à permanência das populações no semiárido.

Ao longo da conversa, Adalberto destacou a expectativa pela sanção do Projeto de Lei nº 1.990/2022, que cria instrumentos de proteção para a Caatinga. Para o dirigente da Cepema, a ausência histórica de uma legislação específica para o bioma revela um atraso institucional diante de sua importância econômica, cultural e ambiental.

“A Caatinga é o único bioma exclusivamente brasileiro. Mais de metade do território nordestino está inserida nela, e milhões de pessoas dependem diretamente de seus recursos para viver”, afirmou.

Segundo Adalberto, a Fundação Cepema, que completa 36 anos de atuação, tem ampliado parcerias com universidades, movimentos sociais e órgãos públicos para fortalecer práticas agroecológicas e sistemas agroflorestais no Ceará. Entre as iniciativas recentes está um acordo de cooperação com a Universidade Federal do Ceará (UFC), que resultou na implantação de um jardim agroflorestal no campus do Pici, destinado a atividades de pesquisa, ensino e extensão.

A entidade também atua por meio da Rede EcoCeará, responsável por uma certificação participativa de produtos orgânicos e agroecológicos. Atualmente, cerca de 90 agricultores familiares integram a rede, que realiza feiras e atividades de formação em diferentes territórios cearenses.

Durante a entrevista, o dirigente associou o avanço da desertificação a um conjunto de fatores históricos e econômicos. Entre eles, citou o sobrepastoreio, as queimadas, a exploração predatória da lenha, práticas inadequadas de irrigação e o avanço da monocultura.

“As queimadas talvez sejam o fator mais agressivo. Todo ano, no segundo semestre, vemos extensas áreas da Caatinga sendo consumidas pelo fogo. Isso acelera a degradação dos solos e compromete a capacidade de regeneração do bioma”, observou.

Adalberto também chamou atenção para os impactos da desertificação sobre a soberania alimentar. Segundo ele, o Ceará perdeu parte significativa de sua capacidade de produzir alimentos básicos, tornando-se dependente de produtos vindos de outras regiões do país.

“O Ceará importa feijão, importa milho e hoje produz menos de 1% da farinha de mandioca consumida no Brasil. De cada dez tapiocas consumidas aqui, nove vêm de fora. Estamos perdendo a capacidade de produzir aquilo que faz parte da nossa identidade alimentar”, afirmou.

Na avaliação do dirigente, a degradação ambiental afeta diretamente a economia regional e encarece o custo dos alimentos. Ele argumenta que a recuperação de áreas degradadas e o fortalecimento da agroecologia podem contribuir para reverter esse cenário.

Ao abordar a questão hídrica, Adalberto reconheceu a importância de obras como a transposição do Rio São Francisco e o Cinturão das Águas, mas ressaltou que a segurança hídrica depende da preservação das nascentes e da cobertura vegetal.

“Não adianta transportar água se as nascentes desaparecerem. Sem vegetação, sem proteção dos solos e sem recuperação ambiental, os reservatórios e os canais acabam perdendo sua função”, explicou.

Outro ponto enfatizado foi a biodiversidade da Caatinga. O entrevistado lembrou que diversas espécies vegetais possuem potencial econômico, medicinal e ambiental ainda pouco explorado. Citou como exemplo a aroeira, utilizada na produção de medicamentos naturais, e o sabiá, árvore nativa capaz de recuperar solos degradados e fornecer alimento para rebanhos.

“A Caatinga é uma farmácia viva. Ela guarda conhecimentos, espécies e recursos que não existem em nenhum outro lugar do planeta”, declarou.

Adalberto também destacou pesquisas que apontam a capacidade do bioma de capturar carbono atmosférico, contribuindo para o enfrentamento das mudanças climáticas. Para ele, esse potencial reforça a necessidade de reconhecer a Caatinga como patrimônio estratégico para o Brasil.

Ao final da entrevista, o presidente da Cepema defendeu a aprovação de políticas estaduais voltadas à agroecologia e reforçou o papel da população nordestina na valorização de seu patrimônio ambiental.

“A Caatinga é nossa e nós somos Caatinga. Precisamos ter orgulho do que somos, proteger nossos recursos naturais e recuperar a capacidade de produzir nossos próprios alimentos”, concluiu.

Assista à entrevista completa:
https://www.youtube.com/watch?v=wB7QiqURFoM

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