“A compra coletiva fortalece o comércio, a comunidade e os moradores”

Da Redação

Experiências no Amazonas e no Espírito Santo mostram como compras coletivas fortalecem a economia solidária, ampliam o acesso a alimentos e mantêm a riqueza circulando nos territórios

As compras coletivas vêm se consolidando como uma das experiências mais inovadoras da economia solidária brasileira. Baseadas na autogestão, na cooperação e na articulação entre produtores, comerciantes e consumidores, essas iniciativas buscam garantir acesso a alimentos de qualidade, fortalecer pequenos negócios e manter a riqueza circulando dentro das próprias comunidades. O tema foi debatido no programa Bancos da Democracia, apresentado por Sara Goes, com a participação de Ronald Seixas, coordenador do Banco Comunitário Aruak e do Mercado Horizontal, em Manaus (AM), e Cosme Santos, da Central de Compras do Território do Bem, em Vitória (ES). As informações foram obtidas durante entrevista concedida ao programa.

Embora situadas em regiões muito diferentes do país, as duas experiências compartilham um mesmo objetivo: enfrentar as dificuldades de acesso a produtos básicos e criar mecanismos econômicos capazes de fortalecer os territórios populares. Em vez de depender exclusivamente das grandes redes varejistas, moradores e empreendedores organizam sistemas próprios de compra, distribuição e comercialização.

A experiência capixaba nasceu em 2013, no Território do Bem, conjunto de comunidades localizado em uma região de morros de Vitória. Segundo Cosme Santos, a iniciativa surgiu a partir de uma constatação simples: muitas famílias tinham acesso ao crédito oferecido pelo Banco Bem, mas encontravam dificuldades para adquirir alimentos de qualidade perto de casa.

“Apesar de as pessoas terem o dinheiro em mãos, tinham dificuldade de conseguir comprar alimentos”, relatou.

A solução encontrada foi organizar pequenos comerciantes locais em uma central de compras. Por meio de um fundo coletivo, os empreendedores passaram a realizar compras conjuntas, obtendo melhores preços e condições de negociação. O resultado foi a ampliação da oferta de produtos nas comunidades e o fortalecimento dos estabelecimentos locais.

Ao longo dos anos, a iniciativa produziu impactos que ultrapassaram a dimensão econômica. Projetos de arquitetura comunitária, turismo de base local e ações de qualificação passaram a integrar o processo de desenvolvimento do território, promovendo melhorias urbanas e fortalecendo a identidade comunitária.

No Amazonas, a experiência do Banco Comunitário Aruak seguiu um caminho distinto. Após desenvolver o projeto Regatão Solidário, voltado à comercialização de produtos da economia solidária, a organização criou o Mercado Horizontal, iniciativa que conecta produtores rurais, comerciantes de bairro, consumidores e investidores sociais.

“O produtor produz, o comerciante comercializa, o consumidor organiza sua demanda e o banco comunitário fomenta esse processo”, explicou Ronald Seixas.

Segundo ele, a proposta busca superar um dos principais desafios da economia solidária: a dificuldade de estruturar canais permanentes de comercialização. Enquanto feiras e eventos têm caráter eventual, o Mercado Horizontal procura criar uma rede contínua de circulação de produtos.

A iniciativa também opera com fundos rotativos solidários e moedas sociais, mecanismos que ampliam o acesso ao crédito e estimulam a circulação de riqueza dentro da própria comunidade. Ronald destacou que, apesar da popularização do Pix, a moeda social continua desempenhando papel relevante em territórios onde parte da população ainda enfrenta dificuldades de inclusão digital.

“Para nós, a moeda social continua sendo um elemento de inclusão social”, afirmou.

Durante o debate, os convidados ressaltaram que as compras coletivas não se limitam à busca por preços menores. Elas envolvem uma visão mais ampla de desenvolvimento local, baseada na cooperação, na soberania econômica dos territórios e na construção de relações comerciais mais equilibradas.

A discussão também abordou a diferença entre economia solidária e modelos convencionais de organização empresarial. Enquanto grandes redes varejistas frequentemente retiram recursos das comunidades para concentrá-los em grandes centros econômicos, as iniciativas solidárias procuram reinvestir localmente os resultados gerados.

“Tudo que a gente faz, tudo que a gente gera, fica mais aqui. Fortalece o comércio, a comunidade e os moradores”, afirmou Cosme Santos.

Outro tema recorrente foi o desafio de atrair a juventude para essas experiências. Tanto em Vitória quanto em Manaus, projetos voltados para formação de lideranças, cultura, comunicação e empreendedorismo comunitário têm buscado aproximar jovens das práticas da economia solidária.

Ao final da entrevista, os convidados defenderam a ampliação das políticas públicas para o setor e destacaram que, apesar das dificuldades, as experiências demonstram a capacidade das comunidades de construir alternativas econômicas sustentáveis.

“A luta é árdua, mas está melhorando a vida de muita gente”, resumiu Cosme Santos.

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