Historiador Evaldo Lima analisa como regimes autoritários avançam por dentro das instituições e afirma que defesa democrática precisa estar associada à soberania e à justiça social
Da Redação
“A democracia começa a morrer quando o autoritarismo deixa de causar indignação.” A advertência do historiador Evaldo Lima sintetizou o debate sobre a expansão da extrema direita, a contestação dos processos eleitorais e os métodos contemporâneos de enfraquecimento das instituições democráticas.
A análise foi apresentada no programa Café com Democracia, da TV Atitude Popular, exibido na quinta-feira, 13 de agosto, com apresentação do cientista político e radialista Luiz Regadas. Durante a entrevista, Evaldo percorreu experiências históricas na Alemanha, Espanha, Portugal, Chile, Brasil e Estados Unidos para discutir como ditaduras são construídas e quais lições permanecem válidas no século XXI.
Segundo o historiador, a imagem convencional de um golpe de Estado, com tanques ocupando as ruas, fechamento do Parlamento e suspensão da Constituição, já não explica sozinha as ameaças enfrentadas pelas democracias. Regimes autoritários também podem surgir por meio de um processo gradual de deterioração institucional, conduzido por dirigentes que chegaram ao poder pelo voto.
“Havia aquele modelo clássico de tanques nas ruas, de golpe de Estado e de fechamento do Congresso. Mas nem sempre os golpes acontecem assim”, afirmou. “No século XX, a gente teve muitos golpes clássicos, com militares ocupando as ruas, Congresso fechado, Constituição suspensa e prisões em massa. Mas a democracia hoje pode morrer lentamente.”
Quando o adversário passa a ser tratado como inimigo
Evaldo identificou um método recorrente na atuação de lideranças autocráticas. Esse processo começa com ataques sistemáticos à imprensa e avança pela deslegitimação do Poder Judiciário, pela transformação do adversário em inimigo e pela difusão antecipada de suspeitas sobre o sistema eleitoral.
“Primeiro eles desacreditam a imprensa. Depois transformam o adversário em inimigo. Dizem que os juízes estão conspirando e que, se perderem a eleição, é porque houve fraude. Procuram descredibilizar o processo eleitoral e começam a naturalizar soluções de exceção. É a partir daí que a democracia começa a ruir”, explicou.
Para o historiador, aceitar a democracia pressupõe reconhecer a possibilidade da vitória e também da derrota eleitoral. A recusa desse princípio abre espaço para movimentos que tentam permanecer no poder apesar do resultado das urnas.
Evaldo relacionou essa estratégia à conduta de Donald Trump após a derrota para Joe Biden nos Estados Unidos e à campanha promovida por Jair Bolsonaro contra as urnas eletrônicas. No caso brasileiro, lembrou que a contestação sem provas do sistema eleitoral precedeu os ataques de 8 de janeiro de 2023 contra as sedes dos Três Poderes, em Brasília.
“Quando você acredita na democracia, precisa aceitar que pode ganhar uma eleição e que pode perder. O que vimos foi uma estratégia para descredibilizar o sistema eleitoral”, declarou.
Extrema direita e interferência externa
No início da entrevista, o historiador comentou um artigo do jornalista Plínio Bortolotti sobre riscos de interferência dos Estados Unidos no processo político brasileiro. A partir do texto, Evaldo manifestou preocupação com a articulação entre setores da extrema direita brasileira e o governo norte-americano.
O professor avaliou que declarações de autoridades estrangeiras sobre eleições livres e liberdade de expressão precisam ser observadas à luz da atuação dos Estados Unidos na América Latina. Também citou contatos de representantes norte-americanos com influenciadores digitais brasileiros e alertou para o emprego das redes sociais em campanhas de desinformação.
Para Evaldo, operações desse tipo podem enfraquecer uma democracia sem que exista uma ruptura institucional imediata. A circulação massiva de informações falsas, a contestação permanente das autoridades eleitorais e a produção de desconfiança contra as instituições criam condições para que medidas autoritárias sejam apresentadas como respostas legítimas.
“Essa reunião do Departamento de Estado dos Estados Unidos com influenciadores digitais que têm extraordinário alcance nas redes sociais, por meio também de uma cadeia de desinformação, pode levar a minar a democracia por dentro”, disse.
O entrevistado ainda situou o Brasil em um cenário latino-americano marcado pelo crescimento de candidaturas e governos de direita radical. Conforme explicou, a democracia não constitui uma conquista irreversível. Direitos políticos e instituições podem sofrer retrocessos quando deixam de ser defendidos pela sociedade e passam a ser tratados apenas como procedimentos administrativos.
“A democracia não é uma conquista definitiva”, afirmou.
O exemplo da Alemanha nazista
Ao tratar da violência política, Evaldo chamou atenção para a desumanização de grupos sociais e adversários. Ele recordou que Adolf Hitler atribuiu a judeus, comunistas, ciganos e homossexuais a responsabilidade por crises enfrentadas pela Alemanha, transformando essas populações em alvos de perseguição estatal.
O historiador explicou que a construção de um inimigo interno costuma ser acompanhada por promessas de restauração nacional. A ideia de recuperar uma suposta grandeza perdida permite que dirigentes autoritários apresentem a perseguição política como uma medida necessária à reconstrução do país.
“Você identifica um suposto inimigo responsável pela crise econômica, desumaniza esse inimigo e faz promessas de retorno e de restauração de uma pátria grande”, resumiu.
Evaldo relacionou esse processo às manifestações que negam a humanidade da população palestina e legitimam a morte de civis. Em sua avaliação, quando crianças, idosos e famílias inteiras deixam de ser reconhecidos como sujeitos de direitos, cria-se uma autorização política e moral para a violência.
A mesma desumanização aparece, segundo ele, em celebrações públicas da doença ou da morte de adversários. O professor citou ataques dirigidos à ex-presidenta Dilma Rousseff durante o tratamento contra um câncer como exemplo da transformação da divergência política em desejo de eliminação do outro.
“Uma das características da extrema direita é a violência e a desumanização de quem está no outro polo da política”, declarou.
Espanha e a recusa do resultado político
A Guerra Civil Espanhola foi apresentada por Evaldo como um caso histórico da incapacidade de reconhecer o adversário e aceitar um resultado político desfavorável. Em 1936, uma parte das Forças Armadas espanholas, liderada pelo general Francisco Franco, rebelou-se contra a Segunda República.
A tentativa de golpe não alcançou uma vitória imediata e deu início a uma guerra civil que se estendeu até 1939. De um lado estavam forças republicanas, socialistas, comunistas, anarquistas e democratas. Do outro, os militares insurretos e setores conservadores e fascistas comandados por Franco.
Hitler e Benito Mussolini forneceram apoio militar aos franquistas. A União Soviética apoiou setores republicanos, enquanto voluntários de diversos países participaram das Brigadas Internacionais. O confronto permitiu que a Alemanha nazista testasse armamentos e métodos de ataque que seriam empregados durante a Segunda Guerra Mundial.
“A Guerra Civil Espanhola foi um ensaio geral para a Segunda Guerra Mundial”, afirmou Evaldo.
O historiador recordou o bombardeio da cidade basca de Guernica, em 1937, realizado pela aviação alemã com participação italiana. A destruição da cidade e a morte de civis foram retratadas por Pablo Picasso na obra Guernica, atualmente exposta no Museu Reina Sofía, em Madri.
“O Picasso transformou aquela tragédia numa denúncia universal”, destacou.
A vitória de Franco inaugurou uma ditadura que permaneceu até 1975. Para Evaldo, a duração do franquismo demonstra que grupos autoritários podem chegar ao governo anunciando uma intervenção temporária, mas construir regimes que atravessam gerações.
A Revolução dos Cravos e a reconstrução democrática
Portugal também apareceu na entrevista como uma referência para o estudo das ditaduras europeias. O Estado Novo português foi implantado durante o governo de António de Oliveira Salazar e continuou sob Marcelo Caetano. O regime terminou em 25 de abril de 1974, com a Revolução dos Cravos.
Evaldo destacou a participação dos militares na derrubada da ditadura e a adesão da população ao movimento. Os cravos colocados nos fuzis dos soldados se tornaram um dos símbolos da revolução.
O historiador comparou as celebrações cívicas portuguesas com o 7 de Setembro brasileiro. Em Portugal, ressaltou, sindicatos, associações e movimentos sociais ocupam as ruas no aniversário da Revolução dos Cravos. No Brasil, as comemorações da Independência permanecem fortemente associadas aos desfiles militares.
“Enquanto aqui no Brasil, em 1974, a gente vivia uma ditadura militar, em Portugal os militares derrubavam o regime fascista”, observou.
A revolução portuguesa também inspirou Chico Buarque na composição de Tanto Mar. Evaldo recomendou que os espectadores ouvissem a canção após o programa, lembrando que ela registra a distância entre um Portugal que celebrava a liberdade e um Brasil ainda submetido à ditadura.
O Chile e as marcas de uma ditadura prolongada
Outro exemplo analisado foi o golpe de 11 de setembro de 1973 contra o governo de Salvador Allende, no Chile. Sob o comando do general Augusto Pinochet, a ruptura instaurou uma ditadura responsável por prisões, torturas, execuções e desaparecimentos.
Evaldo lembrou que o Estádio Nacional de Santiago foi transformado em centro de detenção. Entre os presos estava o cantor e compositor Víctor Jara, torturado e assassinado poucos dias depois do golpe.
“A ditadura chilena se arrastou por décadas sob o comando de Pinochet”, afirmou.
Para o historiador, o caso chileno desmente a apresentação de golpes como intervenções breves destinadas a salvar as instituições. Governantes autoritários frequentemente afirmam agir em defesa da democracia, mas eliminam direitos, perseguem opositores e impedem a participação política.
“Esses aventureiros prometem salvar a democracia e acabam destruindo a própria democracia”, disse.
Democracia não pode existir apenas nas instituições
Ao final da entrevista, Evaldo sustentou que a defesa democrática não deve permanecer limitada a conceitos abstratos. Ele mencionou eleições livres, independência judicial, fortalecimento do Parlamento, liberdade universitária, direitos humanos, organização sindical e participação popular como componentes indispensáveis de um regime democrático.
O professor acrescentou, porém, que a estabilidade institucional depende da capacidade da democracia de melhorar as condições concretas de vida. Sociedades atravessadas pela fome, pelo desemprego e pela desigualdade ficam mais expostas a discursos que apresentam soluções autoritárias como respostas rápidas para problemas complexos.
“Democracia sem justiça social fica vulnerável”, afirmou. “Uma sociedade que convive com a fome, com a desigualdade, com o desemprego e com a falta de futuro produz ressentimento. E o ressentimento é matéria-prima para o autoritarismo.”
Nesse ambiente, explicou Evaldo, dirigentes oportunistas podem canalizar a frustração social contra determinados grupos, instituições ou direitos. O autoritarismo se apresenta como uma solução eficiente, acusa todos os representantes políticos de corrupção e responsabiliza direitos trabalhistas e sociais pelas dificuldades econômicas.
“Quando aparece um pretenso ditador dizendo que o sistema não funciona, que os políticos são todos corruptos, que os direitos trabalhistas atrapalham e que basta lhe dar o poder para que ele resolva tudo, é aí que mora o perigo”, advertiu.
Soberania no centro do debate
A defesa da soberania brasileira também ocupou parte da conversa. Evaldo criticou declarações atribuídas ao ministro da Defesa, José Múcio Monteiro, sobre a capacidade brasileira de reagir a uma eventual agressão militar dos Estados Unidos.
Para o historiador, ainda que exista uma diferença evidente entre o poderio bélico dos dois países, integrantes do governo não devem formular declarações que transmitam resignação diante de uma possível violação territorial.
“Uma questão fundamental, que acredito que estará na ordem do dia, é a defesa da soberania nacional”, declarou. Evaldo classificou a fala como “equivocada e lamentável” e defendeu uma manifestação do governo brasileiro sobre o episódio.
O professor também demonstrou preocupação com a segurança de candidatos e autoridades durante o período eleitoral. Em sua avaliação, a radicalização política exige atenção especial porque grupos extremistas tratam adversários como inimigos que precisam ser silenciados ou eliminados.
“A democracia é superior a todas as alternativas”
Nas considerações finais, Evaldo reconheceu as limitações dos regimes democráticos, mas rejeitou o autoritarismo como resposta às deficiências institucionais e sociais.
“A democracia tem muitos defeitos, mas é superior a todas as alternativas”, afirmou.
Para o historiador, a defesa das liberdades exige atenção, organização política e participação social permanente. A sobrevivência democrática não depende apenas da realização periódica de eleições, mas da preservação dos direitos e da reação coletiva diante da normalização de ameaças autoritárias.
“É preciso estar atento, forte e organizado para defender a liberdade e a democracia. O Brasil vai passar por essa provação”, concluiu.
Referências citadas no programa
Livro
- Medo: Trump na Casa Branca, de Bob Woodward. Publicado originalmente em 2018, o livro examina o primeiro governo de Donald Trump. Woodward, ao lado de Carl Bernstein, participou da investigação jornalística do caso Watergate, que contribuiu para a renúncia do presidente Richard Nixon.
Artes visuais
- Guernica, de Pablo Picasso. A pintura de 1937 foi produzida após o bombardeio da cidade basca de Guernica durante a Guerra Civil Espanhola. A obra integra o acervo do Museu Nacional Centro de Arte Reina Sofía, em Madri.
Música
- Tanto Mar, de Chico Buarque. Composta em 1975, a canção foi inspirada pela Revolução dos Cravos e pelo contraste entre a redemocratização portuguesa e a ditadura ainda vigente no Brasil.
- Víctor Jara, cantor, compositor, diretor teatral e militante chileno. Foi preso após o golpe contra Salvador Allende e assassinado no Estádio Chile, posteriormente rebatizado como Estádio Víctor Jara.
Conceito mencionado
- “Fim da história”, tese associada ao cientista político Francis Fukuyama e difundida após o encerramento da Guerra Fria. A formulação defendia a democracia liberal como estágio final da evolução política, interpretação contestada pelo avanço contemporâneo de governos autoritários.
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