Poetas e cordelistas discutem como a cultura popular registra experiências coletivas, gera renda e ajuda comunidades a reconhecer práticas de cooperação que já fazem parte de seu cotidiano
Da Redação
A poesia popular não ocupa uma posição secundária na economia solidária. Ela registra experiências comunitárias, preserva memórias familiares, acompanha processos de organização coletiva e oferece uma linguagem por meio da qual trabalhadores e trabalhadoras reconhecem práticas de cooperação presentes em suas próprias vidas.
Essa relação entre cultura, trabalho coletivo e transformação social foi discutida no programa Bancos da Democracia, apresentado por Sara Goes na Rádio e TV Atitude Popular. A edição reuniu os poetas e educadores populares Maria Santana Freire, Reginaldo Pereira de Figueiredo e Lindicássia Nascimento para a conversa “Economia Solidária em Versos: Poetas e Cordelistas Construindo Novos Mundos”.
A atividade foi promovida pela Rede Brasileira de Bancos Comunitários e Municipais e apresentou diferentes trajetórias nas quais a criação artística se confunde com a participação em associações, grupos produtivos, redes de educação popular, feiras agroecológicas e iniciativas territoriais.
Ao longo do programa, os convidados mostraram que a poesia não serve apenas para divulgar a economia solidária. Em muitos casos, é por meio do verso, do cordel, da música e da oralidade que as pessoas percebem que já praticam formas solidárias de produzir, compartilhar recursos e cuidar da comunidade.
“Quando não sei o que fazer, faço um poema”
Arte-educador e poeta do Templo da Poesia e da Vila de Poetas, em Maranguape, Reginaldo Pereira de Figueiredo afirmou que a poesia funciona como orientação para suas decisões e para sua compreensão do mundo.
“Quando eu não sei o que fazer da vida, eu faço um poema, e o poema diz o que eu devo fazer”, declarou.
Para Reginaldo, a economia solidária não é uma invenção recente nem uma prática restrita às organizações formalmente constituídas. Ela se manifesta na ajuda mútua, na produção comunitária e na disposição para crescer coletivamente.
“Ajudar-se mutuamente não é coisa do passado, nem moda do presente. É energia de todo sempre. Na economia solidária, a gente fortalece o grupo, não para ajudar ninguém, e sim para crescermos juntas e juntos”, recitou.
O poeta defendeu que as pessoas observem o que produzem, conheçam o trabalho existente em seus territórios e priorizem relações econômicas capazes de manter os recursos dentro da própria comunidade.
“Consumir na comunidade o que ela mesma produz” foi apresentado por ele como uma prática que fortalece vínculos, reduz dependências e cria condições para uma vida mais digna.
Reginaldo afirmou que esse modo de compreender a economia já fazia parte de sua trajetória antes mesmo de receber uma denominação específica.
“A economia solidária mora dentro de mim. Mesmo que você não esteja engajado em lugar nenhum, ela é inerente ao ser humano”, disse.
Cordel como memória da luta comunitária
Educadora popular, poeta, cirandeira e mestra da cultura, Lindicássia Nascimento iniciou sua participação com uma saudação em versos. Na composição, relacionou a palavra à memória, ao trabalho compartilhado e à construção de formas mais justas de organização econômica.
“Hoje o cordel faz morada na força da economia. Mostra que o bem repartido multiplica a alegria”, recitou.
Em outro trecho, definiu a economia solidária como uma prática que ultrapassa a produção e envolve cuidado ambiental, justiça e comunhão.
“A poesia não se cala, nem conhece solidão. Ela caminha com o povo de mãos dadas com o chão. Faz do sonho resistência, do trabalho consciência”, afirmou.
Lindicássia é articuladora do Grupo de Economia Solidária e Turismo Rural da Agricultura Familiar de Barbalha, fundado há cerca de 15 anos. Também desenvolve atividades de educação popular no Cariri e utiliza o cordel para registrar encontros, empreendimentos e processos organizativos.
A poeta contou que sua ligação com o verso começou durante a infância, nas noites em que fazia cafuné no pai e o ouvia cantar e recitar no terreiro de casa.
Ele não se apresentava como poeta, mas transmitiu à filha uma relação com a palavra que permaneceu como herança afetiva e cultural.
“Ele deixou como herança esse sentimento de pertencimento. Enquanto fazia as rimas cantadas, eu fui aprendendo”, relatou.
Na escola, Lindicássia escrevia bilhetes rimados. Muitos anos depois, produziu o cordel Caldas do meu amor, publicado em 2021, depois de insistir para participar de uma oficina de cordel em Barbalha.
A professora responsável pela atividade não conseguiu comparecer. Lindicássia procurou a Secretaria de Cultura e insistiu até conseguir conhecer a cordelista e pesquisadora Fanca, que seria responsável pela oficina.
Durante o encontro, apresentou os versos que havia escrito. A resposta mudou sua trajetória.
“Ela olhou para mim e disse: ‘Mulher, criatura de Deus, tu não precisa de uma oficina de cordel. Tu já é uma cordelista. Eu vou publicar esse seu cordel’”, lembrou.
Um cordel fora da métrica abriu um caminho
Lindicássia explicou que seu primeiro cordel não seguia todas as regras tradicionais de métrica. Algumas estrofes tinham quantidades diferentes de versos, característica que poderia ter sido usada para desencorajá-la.
Fanca, no entanto, escolheu reconhecer a potência da criação e publicar o trabalho.
“Ela não me diminuiu em nenhum momento. Sentiu a minha força e a vontade de me tornar uma cordelista”, afirmou.
A decisão permitiu que Lindicássia continuasse escrevendo e buscasse formação para aprimorar a técnica. Posteriormente, ela ajudou a fundar uma sociedade de poetas em Barbalha, formada inicialmente por dez homens e apenas uma mulher.
Mais tarde, tornou-se a primeira mulher a presidir a entidade e permaneceu na função durante o período da pandemia.
Sua trajetória também a levou à Academia Cearense de Literatura de Cordel, à Academia dos Cordelistas do Crato, à Academia Brasileira de Literatura de Cordel e à Academia de Letras do Brasil, seccional Ceará.
“Todo esse mundo que fui conquistando veio através do cordel e de um cordel desmetrificado que foi publicado”, declarou.
Para Lindicássia, a atitude de Fanca mostrou como o acolhimento pode modificar a vida de uma mulher que tenta ingressar em um espaço tradicionalmente masculino.
“Passei a estudar mais e a me aprimorar para responder à altura ao que ela fez comigo”, disse.
Economia solidária registrada em versos
A ligação entre cordel e economia solidária passou a ocupar parte importante da produção de Lindicássia.
Ela escreveu o cordel Economia solidária, trabalho, emprego e renda, que registra a trajetória do grupo de economia solidária de Barbalha. Também produziu Economia solidária: Barbalha de ponta a ponta, dedicado aos empreendimentos do município, e Rede de feiras agroecológicas e solidárias do Cariri.
Durante o programa, anunciou ainda o trabalho Raiz dos saberes: o cordel da pesquisação e economia popular e solidária.
Segundo a poeta, sua participação em associações, grupos comunitários e atividades educativas já constituía uma prática de economia solidária antes que ela reconhecesse essa relação.
“Em cada movimento associativo eu estava presente, levando a poesia, escrevendo aquele momento e fazendo memória com o cordel. Foi quando descobri que já fazia economia solidária há muito tempo”, explicou.
Os versos funcionam, nesse caso, como documentos culturais de processos que nem sempre chegam aos arquivos oficiais ou aos meios de comunicação convencionais. Eles preservam nomes, conflitos, celebrações e conquistas das comunidades.
Poesia herdada dos avós
Maria Santana Lago Freire participa há quase 20 anos do movimento de economia popular solidária e atua com mulheres de comunidades quilombolas no Maranhão. Educadora popular e integrante da Rede Autogestionária de Educação Popular em Economia Solidária, ela considera o movimento uma de suas principais bandeiras de luta.
Santana contou que sua relação com a poesia começou na família. O avô Vicente Pereira participava das tradições do bumba meu boi. A avó Mariazinha era rezadeira e organizava festejos de São Sebastião.
As cantorias, rezas e celebrações fizeram parte de sua formação muito antes de ela escrever os próprios versos.
“Isso está nas minhas veias. A inspiração vem dos meus ancestrais e também da economia popular e solidária”, afirmou.
Sua participação na Pastoral da Juventude e na Igreja Católica também contribuiu para a formação artística. Durante romarias, Santana era convidada para compor canções e hinos a partir dos temas propostos pelas comunidades.
Depois de ingressar no movimento de economia solidária, passou a escrever poemas para rodas de conversa, encontros formativos e atividades em diferentes estados.
“O movimento transforma, liberta e também nos ajuda a nos reconhecer. Eu me reconheci como poetisa e cordelista”, disse.
Santana afirmou que muitas de suas poesias circulam em relatórios, eventos e materiais produzidos por organizações de diferentes regiões, embora ainda não tenha publicado um livro.
“O material que tenho já dá para escrever um livro. Não quero escrever somente um, mas mais de um”, declarou.
“A poesia acontece”
Durante o programa, Santana descreveu a criação poética como algo ligado aos acontecimentos cotidianos e às experiências vividas nos espaços coletivos.
“A poesia é inspiração que acontece no dia a dia. Alegra as nossas rodas, tornando a vida mais vivida”, recitou.
Para ela, a economia solidária cria ambientes favoráveis à produção artística porque coloca o ser humano e suas relações no centro das atividades econômicas.
Nas reuniões, formações, celebrações e feiras, as pessoas encontram espaço para narrar a própria realidade e compartilhar conhecimentos que não se limitam à linguagem técnica.
“É um lugar onde a gente se reencontra e tem a oportunidade de se manifestar como pessoa e como poeta”, explicou.
Santana também destacou a presença da economia solidária nas manifestações culturais do Maranhão.
“Eu sou do Maranhão e me orgulho por isso. A cultura popular se manifesta e tem sentimento. O bumba meu boi é exemplo disso. O arroz de cuxá é referência da culinária. O cacuriá é uma dança refinada. A economia popular solidária está presente na nossa caminhada”, recitou.
Patativa do Assaré como referência
O poeta cearense Patativa do Assaré foi citado em diferentes momentos da conversa como uma das principais referências da poesia popular brasileira.
Lindicássia recuperou versos associados ao poeta ao afirmar que, para ser poeta, não é necessário possuir formação acadêmica. A sensibilidade para observar uma flor, uma árvore ou uma cena cotidiana já pode produzir matéria poética.
Reginaldo contou que, durante a infância e a juventude no Cariri, encontrava Patativa com frequência. Ele estudava no Crato e via o poeta saindo de um programa de rádio, conversando e brincando com os estudantes.
“Eu fui da infância para perto de Patativa. Ele falava com a gente, perguntava coisas. Só muito tempo depois a necessidade foi trazendo a poesia para mim”, relatou.
Para Reginaldo, Patativa não apenas descreveu a vida de trabalhadores rurais e comunidades nordestinas. Sua obra apresentou valores ligados à dignidade, à cooperação e à crítica às desigualdades.
“Patativa anunciou um novo tempo. Precisamos tomar suas palavras e dizer: aqui, juntos, podemos fazer”, afirmou.
Os participantes também discutiram o reconhecimento tardio do poeta por instituições nacionais. Foi mencionada sua inclusão no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria e o reconhecimento como Patrono da Cultura Popular do Ceará.
A poesia virou atividade econômica
Reginaldo afirmou que sua economia pessoal está inteiramente relacionada à poesia. Ele produz livros, realiza intervenções, participa de eventos e desenvolve projetos culturais.
O primeiro livro foi lançado em 2002, com uma tiragem de 500 exemplares, vendida ao longo de aproximadamente um ano e meio. A publicação contou com apoios vinculados a iniciativas comunitárias, entre elas o Banco Palmas e o Ceará Periferia.
A participação em bienais ajudou a ampliar a circulação de sua produção e contribuiu para a criação do Templo da Poesia, em Maranguape, espaço que passou a abrigar atividades culturais e uma residência artística.
“Eu vivo a poesia. A minha economia todinha está voltada para a poesia”, afirmou.
O poeta defendeu que famílias incentivem crianças e jovens a participar de atividades artísticas, inclusive porque a cultura pode gerar renda e condições de vida.
“Tenham coragem de colocar seus filhos na arte, porque a arte cura e gera renda. Renda para viver”, disse.
Reginaldo contou que recebeu um prêmio de R$ 100 mil com um poema sobre a possibilidade de viver plenamente e seguir em boa companhia.
“É fácil viver, mas poucas pessoas sabem disso. Muita gente somente existe, resistente à evolução, segue parada, desistente de seus próprios sonhos”, recitou.
Segundo ele, a premiação mostra que o trabalho artístico pode produzir sustento, embora essa possibilidade dependa da existência de políticas culturais, editais e espaços de circulação.
Oficinas e formação coletiva
Os convidados também falaram sobre as atividades de formação desenvolvidas em escolas, entidades e comunidades.
Reginaldo afirmou que realiza oficinas e intervenções poéticas onde estiver. Para ele, o aprendizado não ocorre apenas em cursos formais, mas também em encontros nos quais as pessoas descobrem capacidades que já possuíam.
“Eu não ensino nada a ninguém. As pessoas aprendem porque já têm condição de aprender”, declarou.
Ele destacou a criação da Escola de Literatura de Cordel e Xilogravura no Cariri, iniciativa ligada ao trabalho de Fanca e de outros artistas da região.
Reginaldo também lembrou que é neto de João Pereira da Silva, apontado por ele como um dos primeiros xilogravuristas do Cariri. Obras de João Pereira integraram uma exposição levada à Europa pelo Museu de Arte da Universidade Federal do Ceará.
Para o poeta, a xilogravura não pode ser separada da história do cordel e precisa permanecer presente nas iniciativas de formação.
Editais ajudam, mas não limitam a poesia
Lindicássia explicou que suas oficinas costumam ser realizadas por meio de editais, projetos em escolas, associações e atividades comunitárias.
Ela evita se definir apenas como oficineira porque considera o processo uma construção conjunta com os participantes.
“Se quer fazer cordel, vamos fazer. Vamos construir esse cordel juntos”, afirmou.
A poeta também utiliza projetos culturais para convidar outros artistas e distribuir oportunidades.
“Gosto de promover outros cordelistas e poetas. Convido duas, três ou quatro pessoas para ficar à frente, enquanto permaneço na coordenação. É uma forma de valorizar o poeta a partir do coletivo”, explicou.
Para Lindicássia, as academias de cordel e poesia também funcionam como espaços permanentes de aprendizado. Mesmo autores experientes continuam estudando métrica, rima, formas de publicação e modos de apresentação oral.
“Estamos sempre aprendendo. Não adianta apenas escrever. É preciso ter cuidado com a forma”, afirmou.
Projeto pretende levar oficinas à juventude
Maria Santana, que também trabalha como professora na educação de jovens e adultos, relatou que costuma utilizar poesia e arte em sala de aula.
Ela ainda não mantém uma agenda regular de apresentações, mas é frequentemente convidada a declamar durante encontros e atividades formativas.
Santana informou que participa da elaboração de um projeto para oferecer oficinas a jovens e adultos.
“Pretendo ajudar a juventude e também os adultos realizando oficinas. Estamos escrevendo um projeto para criar condições de proporcionar isso”, disse.
A proposta surge da compreensão de que poesia e cordel podem ser utilizados para desenvolver a escrita, fortalecer identidades e permitir que participantes registrem as próprias experiências.
“Através da poesia, você manifesta sentimento, inclusive sentimento de revolta. Você se declara para alguém e também conta uma história”, afirmou.
Cultura como parte da economia solidária
As trajetórias apresentadas no Bancos da Democracia mostram que a produção cultural não deve ser tratada apenas como ornamentação de feiras, encontros ou atividades políticas.
Poetas, cordelistas, músicos, xilogravuristas e educadores também produzem, comercializam obras, desenvolvem oficinas, organizam espaços culturais e movimentam recursos dentro dos territórios.
Ao mesmo tempo, registram práticas que compõem a economia solidária, como o associativismo, a autogestão, a agricultura familiar, o turismo comunitário e as redes de produção e consumo.
A poesia permite que essas experiências sejam narradas por quem participa delas, sem depender exclusivamente de relatórios institucionais ou linguagens especializadas.
Ao dizer que a economia solidária mora dentro de si, Reginaldo sintetizou uma compreensão compartilhada pelos convidados: antes de aparecer como conceito, legislação ou política pública, ela pode ser identificada em práticas antigas de ajuda mútua, criação comunitária e transmissão de conhecimentos.
Referências citadas
Patativa do Assaré
Poeta popular cearense, autor e artista citado como referência pelos convidados
Nascimento: 1909
Falecimento: 2002
Caldas do meu amor
Autora: Lindicássia Nascimento
Ano: 2021
Economia solidária, trabalho, emprego e renda
Autora: Lindicássia Nascimento
Ano não informado
Economia solidária: Barbalha de ponta a ponta
Autora: Lindicássia Nascimento
Ano não informado
Rede de feiras agroecológicas e solidárias do Cariri
Autora: Lindicássia Nascimento
Ano não informado
Raiz dos saberes: o cordel da pesquisação e economia popular e solidária
Autora: Lindicássia Nascimento
Ano não informado
Primeiro livro de Reginaldo Pereira de Figueiredo
Autor: Reginaldo Pereira de Figueiredo
Ano: 2002
Título não informado durante o programa
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