Professor da UFRJ afirma que o desmonte da universidade pública interessa a projetos de dominação econômica e denuncia perseguições judiciais contra gestores e pesquisadores ligados ao fortalecimento do Estado brasileiro
Da Redação
Em mais uma edição do programa Trilhas da Soberania, parceria entre Código Aberto e a Rede Lawfare Nunca Mais, o professor Daniel Negreiros Conceição defendeu o papel estratégico da universidade pública, da pesquisa científica e do planejamento estatal para a construção da soberania nacional brasileira. A conversa reuniu ainda comentários de Ludmila Cindra e do jornalista e advogado Luís Delcides.
Ao longo da entrevista, Daniel associou a fragilidade educacional da população ao avanço de projetos autoritários e criticou a utilização de campanhas morais e desinformação como ferramentas de mobilização política. Para ele, a educação de qualidade funciona como barreira contra mecanismos de manipulação social.
“A educação em si atrapalha projetos manipuladores que se utilizam de mensagens muito rasteiras”, afirmou. Segundo o economista, uma população com maior capacidade crítica tende a ser menos vulnerável a discursos baseados em medo, factoides e ameaças inexistentes.
Daniel sustentou que parte da ofensiva contra universidades públicas e investimentos em ciência está ligada a interesses econômicos incompatíveis com um projeto nacional de desenvolvimento. Em sua avaliação, economias que crescem com distribuição de renda reduzem o poder político e financeiro do rentismo.
“O problema maior é daquele grupo que não participa da produção de bens e serviços, mas quer encontrar um jeito de se beneficiar disso. Estou falando da classe rentista”, declarou.
Durante a entrevista, o professor explicou que o crescimento econômico acompanhado de distribuição de renda fortalece o mercado interno, reduz o endividamento das famílias e limita mecanismos de transferência de riqueza para setores financeiros. Segundo ele, isso gera resistência de grupos que lucram com juros altos, instabilidade econômica e especulação financeira.
Daniel também criticou a comparação frequente entre orçamento público e orçamento doméstico. Segundo ele, governos soberanos possuem instrumentos próprios de emissão monetária e política fiscal, o que desmontaria a narrativa de dependência permanente do mercado financeiro.
“O governo é o único agente criador de dinheiro na economia. A relação é invertida: primeiro ele gasta, depois arrecada”, afirmou.
Ao comentar os desafios brasileiros para ampliar investimentos em educação e pesquisa, o economista destacou que o país possui hoje reservas internacionais robustas e condições mais favoráveis do que em décadas anteriores para sustentar políticas públicas voltadas ao desenvolvimento nacional.
A entrevista avançou então para uma discussão sobre lawfare, perseguição judicial e criminalização de gestores públicos ligados ao fortalecimento das universidades federais. Daniel relatou o caso envolvendo seu pai, o ex-reitor da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Aloísio Teixeira, alvo de processos judiciais relacionados à gestão de contratos entre a universidade e a Fundação José Bonifácio.
Segundo o professor, houve uma construção narrativa baseada em acusações de corrupção posteriormente desmontadas por órgãos de controle, mas amplificadas pela grande imprensa. Ele relacionou o caso ao ambiente político criado durante a operação Operação Lava Jato e às revelações posteriores da chamada Vaza Jato.
Daniel citou ainda o caso do ex-reitor Luiz Carlos Cancellier, que morreu após sofrer forte exposição pública em meio a investigações. Para ele, existe um padrão de criminalização direcionado a projetos de fortalecimento institucional do Estado e das universidades públicas.
“O que a gente vê é um projeto de destruição, de desmonte do Estado”, afirmou.
O economista detalhou o funcionamento do contrato entre a UFRJ e o Banco do Brasil, firmado para utilização da folha de pagamento da universidade e destinado a financiar obras, eventos acadêmicos e melhorias estruturais na instituição. Segundo ele, os recursos permitiram a realização de cerca de mil eventos acadêmicos, centenas de obras e a construção do restaurante universitário central da universidade.
De acordo com Daniel, a condenação judicial posterior teria se baseado numa interpretação equivocada de decisões do Tribunal de Contas da União, confundindo taxas administrativas da fundação gestora com valores que deveriam ser devolvidos à universidade.
“Meu pai foi condenado por uma confusão inacreditável de leitura de um acórdão do TCU”, declarou.
Durante o debate, Ludmila Cindra afirmou que a criminalização de pesquisadores, gestores e professores integra um mecanismo de manutenção de estruturas de dependência econômica e política. Para ela, qualquer tentativa de romper o papel subordinado historicamente imposto ao Brasil enfrenta reações violentas.
“Quando você luta contra esse projeto de poder excludente, as pessoas não vão gostar de você”, disse.
O jornalista Luís Delcides também criticou o comportamento da mídia corporativa em casos envolvendo universidades e lawfare. Segundo ele, denúncias recebem ampla cobertura espetacularizada, enquanto absolvições ou desmontagem das acusações acabam reduzidas a notas breves.
Daniel retomou então a importância da democratização da comunicação e denunciou o silêncio da mídia tradicional diante dos abusos cometidos durante a Lava Jato e em processos relacionados às universidades públicas.
“O Fantástico deu 15 minutos para a denúncia. Quando saiu a decisão mostrando que não havia desvio de recursos, virou uma nota de 30 segundos”, afirmou.
A edição reforçou a defesa da pesquisa científica, da autonomia universitária e do investimento público como instrumentos centrais para que o Brasil deixe a condição de exportador subordinado de commodities e avance na produção de tecnologia, inovação e soberania econômica.
Ao final do programa, Daniel agradeceu o apoio recebido de pesquisadores, comunicadores e integrantes da Rede Lawfare Nunca Mais, destacando que a solidariedade política e intelectual tem sido fundamental para enfrentar processos judiciais e disputas narrativas.
Referências
- Pedagogia do Oprimido, de Paulo Freire
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