Por Cleiton Estevão*
Vendem a universidade como um templo da razão, da igualdade intelectual e da meritocracia. Na teoria, vence quem produz mais, quem estuda mais, quem apresenta melhores ideias. Na prática, porém, o meio acadêmico frequentemente reproduz as mesmas estruturas de poder, exclusão e privilégio presentes no restante da sociedade. O discurso meritocrático serve, muitas vezes, apenas como uma máscara elegante para esconder relações de influência, favoritismo e desigualdade racial.
É impossível ignorar que o ambiente acadêmico ainda é profundamente marcado por hierarquias sociais e raciais. O acesso às oportunidades não acontece de maneira igual. Enquanto alguns precisam lutar anos para conseguir reconhecimento mínimo, outros entram pelas portas já abertas por sobrenomes, redes de contato e alianças estratégicas. A figura do “protegido do rei” continua viva: aquele que cresce não necessariamente por genialidade, mas por proximidade com grupos influentes, orientadores poderosos ou círculos dominantes dentro dos departamentos. Em muitos casos, o talento vira detalhe; o que importa é quem indica, quem apadrinha e quem legitima.
Além disso, existe um componente racial evidente que raramente é discutido com honestidade dentro da própria academia. O homem branco, especialmente quando estrangeiro, costuma ser automaticamente associado à competência, sofisticação intelectual e autoridade científica. Sua fala recebe mais atenção, seus erros são relativizados e suas portas se abrem com mais facilidade. Já pesquisadores negros, periféricos ou fora do padrão dominante frequentemente precisam provar repetidamente sua capacidade para receber o mesmo reconhecimento básico. O esforço exigido nunca é proporcional. Alguns atravessam a carreira carregando o peso constante da suspeita e da necessidade de validação.
A contradição é ainda mais cruel porque a universidade gosta de se apresentar como espaço progressista e iluminado. Faz seminários sobre inclusão, publica manifestos e promove debates sobre diversidade, mas muitas vezes mantém internamente práticas elitistas e relações profundamente excludentes. O racismo acadêmico raramente aparece de forma explícita; ele opera de maneira sofisticada, através do silenciamento, das oportunidades negadas, das indicações seletivas, da invisibilização intelectual e da manutenção dos mesmos grupos ocupando os espaços de prestígio.
Dessa forma, a ideia de meritocracia acadêmica torna-se frágil quando confrontada com a realidade concreta. Não se trata de negar a existência de pesquisadores brilhantes ou de esforço individual, mas de reconhecer que o ponto de partida nunca foi igual. Há quem precise sobreviver emocionalmente, financeiramente e socialmente enquanto tenta produzir ciência. Outros jamais precisaram lutar pela própria legitimidade: nasceram próximos do poder e cresceram sustentados por redes de proteção invisíveis.
Criticar essa estrutura não significa atacar a ciência ou o conhecimento. Pelo contrário. Significa exigir que a universidade esteja à altura dos valores que afirma defender. Enquanto prestígio continuar dependendo mais de alianças e privilégios do que de competência real, a academia seguirá distante da meritocracia que tanto proclama.
* Doutor em Física pela UFC e Pesquisador FAPESP no Centro de Matemática, Computação e Cognição da Universidade Federal do ABC












