Professor Romero Venâncio relaciona o pedido de perdão do Papa Leão XIV pela participação da Igreja na escravidão ao debate sobre a redução da jornada de trabalho e critica a permanência de valores escravocratas na sociedade brasileira
Da Redação
Em entrevista ao programa Democracia no Ar, da TV Atitude Popular, o professor de Filosofia da Universidade Federal de Sergipe (UFS), Romero Venâncio, analisou o recente pedido de perdão do Papa Leão XIV pela participação histórica da Igreja Católica na legitimação da escravidão e estabeleceu conexões entre esse passado e os atuais debates sobre direitos trabalhistas no Brasil. A edição contou com apresentação de Sara Goes e comentários de Antônio Ibiapino.
Ao longo da conversa, o pesquisador destacou que a escravidão não foi apenas tolerada por setores da Igreja ao longo dos séculos, mas também integrada a estruturas econômicas que ajudaram a moldar o desenvolvimento do capitalismo ocidental. Para ele, compreender esse legado é fundamental para entender resistências contemporâneas a avanços sociais, como o fim da escala 6×1.
Segundo Venâncio, o pedido de perdão do Papa Leão XIV representa um marco importante porque reconhece oficialmente uma responsabilidade histórica da instituição. O professor citou a primeira encíclica do pontífice, divulgada em maio de 2026, na qual a escravidão é descrita como uma “ferida” na trajetória da Igreja.
“O Papa reconhece que foi uma chaga, uma ferida, uma tragédia. A Igreja apoiou a escravidão e não tem mais como esconder isso”, afirmou.
O filósofo lembrou que o sistema escravista esteve profundamente ligado à acumulação de riqueza nas Américas e que instituições religiosas também se beneficiaram dessa estrutura. Igrejas, conventos e propriedades eclesiásticas foram erguidos e mantidos com trabalho escravizado, enquanto a segregação racial era reproduzida inclusive dentro da prática religiosa.
Venâncio citou como exemplo as Igrejas do Rosário dos Pretos, presentes em diversas cidades brasileiras. Construídas por pessoas escravizadas e seus descendentes, elas surgiram em um contexto no qual a população negra frequentemente era impedida de frequentar os mesmos espaços religiosos destinados aos senhores de escravos.
Para o professor, a herança desse período permanece viva na cultura brasileira. Ele observou que o país acumulou mais de três séculos de escravidão e que essa experiência histórica deixou marcas profundas na forma como o trabalho é percebido socialmente.
“Nós temos mais tempo de escravidão do que de República. Temos mais tempo de escravidão do que de democracia”, destacou.
Durante o debate, a tramitação da proposta de redução da jornada de trabalho e do fim da escala 6×1 ocupou parte central da conversa. O tema ganhou destaque após novo adiamento da análise do relatório na Câmara dos Deputados, provocado por pedido de prazo adicional para avaliação do texto.
Para Venâncio, a reação de parte do empresariado e de setores políticos ao debate revela a permanência de uma mentalidade que naturaliza a exploração do trabalho.
“A escala 6×1 é nitidamente escravocrata”, afirmou.
Segundo ele, muitos dos argumentos utilizados contra a redução da jornada repetem raciocínios historicamente empregados para justificar relações de trabalho desiguais. O professor observou que a resistência não está baseada apenas em cálculos econômicos, mas também em valores culturais profundamente enraizados.
“O pobre não pode ter alívio algum. O trabalhador não pode ter alívio. É uma questão moral”, argumentou.
O entrevistado também associou a discussão à crise de perspectivas enfrentada pelas gerações mais jovens. Na avaliação dele, jornadas extensas, baixos salários e insegurança econômica contribuem para o aumento do sofrimento psíquico, do uso de medicamentos antidepressivos e da sensação de ausência de futuro.
Ele observou que o avanço tecnológico e a inteligência artificial poderiam ser utilizados para melhorar a qualidade de vida da população, reduzindo jornadas e ampliando o tempo livre. No entanto, segundo sua análise, a tecnologia frequentemente é incorporada apenas para ampliar produtividade e lucros, sem que os ganhos sejam distribuídos aos trabalhadores.
Ao comentar a coincidência entre a publicação da encíclica papal e a intensificação do debate sobre a escala 6×1 no Brasil, Venâncio afirmou que os dois temas dialogam diretamente porque tratam da dignidade humana e dos limites éticos da exploração do trabalho.
O comentarista Antônio Ibiapino também destacou que a luta pela redução da jornada acompanha a história dos movimentos trabalhistas desde o século XIX. Segundo ele, o avanço tecnológico já permitiria uma redução significativa das horas trabalhadas sem prejuízo à produção, mas interesses econômicos seguem dificultando mudanças estruturais.
Ao final da entrevista, Romero Venâncio defendeu que o debate sobre a escala 6×1 ultrapassa a discussão trabalhista e envolve um projeto mais amplo de sociedade.
“A luta contra a escala 6×1 é uma luta para melhorar as condições de trabalho neste país. É uma luta para melhorar o Brasil”, concluiu.
Referências
Rerum Novarum, Papa Leão XIII, 1891
História do negro brasileiro, Clóvis Moura, 1989
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