Em entrevista ao Democracia no Ar, Márcio Ayer apresenta dados do Atlas da Escala 6×1 no Brasil e defende a redução da jornada sem corte de salários como medida urgente de dignidade, saúde e justiça social
A jornada de seis dias de trabalho para apenas um de descanso voltou ao centro do debate público em mais uma edição do programa Democracia no Ar, da Rádio e TV Atitude Popular. O convidado foi Márcio Ayer, presidente do Sindicato dos Comerciários do Rio de Janeiro, coordenador da Rede Trama e diretor de Comércio e Serviços da CTB Nacional, que apresentou os dados do Atlas da Escala 6×1 no Brasil e detalhou os efeitos desse modelo sobre a vida da classe trabalhadora.
Ao longo da entrevista, exibida pela Atitude Popular, Ayer sustentou que a escala 6×1 não pode mais ser tratada como uma rotina normal do mercado de trabalho. Para ele, trata-se de uma engrenagem de exaustão cotidiana, especialmente nos setores de comércio e serviços, que compromete a saúde física e mental, desorganiza a vida familiar, dificulta o estudo, reduz o tempo de deslocamento a um suplício diário e impõe ao trabalhador uma existência quase integralmente consumida pelo labor.
Segundo Márcio, os números levantados pelo Atlas confirmam aquilo que milhões de brasileiros já conhecem na prática. A pesquisa ouviu mais de 4 mil trabalhadores em centenas de municípios e reuniu um retrato contundente da precarização. Entre os dados destacados por ele, aparecem o baixo rendimento, a longa duração dos deslocamentos, a pressão no ambiente profissional, a ampliação informal da jornada e o peso da escala sobre a vida pessoal.
O dirigente afirmou que 67% dos entrevistados recebem até um salário mínimo e meio, enquanto uma parcela expressiva gasta cerca de uma hora e meia em deslocamento. Mais da metade relata sofrer pressão ou assédio no trabalho. Além disso, 67% trabalham além da jornada contratada e 88% reconhecem impactos negativos diretos na vida pessoal. Para ele, não se trata de um desconforto pontual, mas de um sistema que sequestra o tempo e corrói a própria possibilidade de viver.
Ao definir esse processo, Ayer foi taxativo: “A escala 6×1 é o roubo do tempo de vida dos trabalhadores”. A frase resume a espinha dorsal do Atlas. O trabalho, explicou, não termina quando a jornada formal acaba. Ele continua no trânsito, no cansaço acumulado, na incapacidade de conviver com os filhos, na impossibilidade de estudar, no corpo que adoece e na mente que não descansa.
Essa realidade, segundo o convidado, pesa ainda mais sobre as mulheres, submetidas com frequência à dupla ou tripla jornada. Depois de horas no trabalho formal e no transporte, muitas ainda enfrentam o trabalho doméstico, o cuidado com filhos, idosos e a organização da casa. Nesse sentido, a escala 6×1 aprofunda desigualdades já existentes e torna ainda mais severa a sobrecarga cotidiana de trabalhadoras pobres.
Márcio Ayer também chamou atenção para o recorte racial e etário do problema. De acordo com sua leitura do Atlas, são os trabalhadores mais jovens, negros e de menor renda os mais concentrados nos postos submetidos a esse regime. A escala 6×1, portanto, não é neutra. Ela incide com mais força justamente sobre os segmentos historicamente mais explorados do mercado de trabalho brasileiro, reproduzindo desigualdades estruturais e estreitando horizontes de ascensão social.
Outro ponto enfatizado na entrevista foi o descompasso entre salário e custo de vida. O dirigente observou que, nas grandes cidades, os rendimentos pagos a boa parte dos trabalhadores não garantem sequer o básico. Para uma pessoa sozinha viver com alguma estabilidade em centros como Rio de Janeiro e São Paulo, seriam necessários valores muito superiores aos vencimentos médios encontrados pela pesquisa. Isso empurra parte dos trabalhadores para jornadas ainda mais extensas, bicos, horas extras, endividamento e desgaste permanente.
Ayer rebateu ainda a narrativa patronal segundo a qual o fim da escala 6×1 provocaria desemprego, queda de renda ou aumento da informalidade. Segundo ele, esse discurso repete velhas teses alarmistas usadas historicamente contra qualquer avanço trabalhista, como férias, 13º salário e redução de jornada. Para o dirigente, a experiência mostra o contrário: trabalhadores mais descansados produzem melhor, vivem melhor e movimentam mais a economia. A diminuição da jornada sem redução salarial, portanto, não deve ser vista como ameaça, mas como reorganização civilizatória do tempo social.
Na entrevista, ele criticou também a tentativa de parte do empresariado de apresentar a redução da jornada como um custo insuportável. Em sua avaliação, o setor patronal ignora deliberadamente os efeitos positivos de uma sociedade menos adoecida, mais produtiva e com mais tempo para consumo, qualificação e convivência. Ao mesmo tempo, lembrou que muitos dos mesmos grupos econômicos já receberam isenções e benefícios fiscais no passado sem que isso se revertesse em geração robusta de empregos ou melhoria das condições de trabalho.
Ao comentar a resistência conservadora no Congresso, o sindicalista ressaltou que a batalha pela revisão das jornadas de trabalho será também uma disputa política e ideológica. Para ele, não basta ter razão social e econômica. Será preciso mobilização. Nesse ponto, defendeu uma campanha nacional capaz de combinar sindicatos, mandatos populares, movimentos estudantis, comunicação alternativa e ação de rua para dialogar diretamente com os trabalhadores.
Márcio também avaliou que a luta contra a escala 6×1 pode se tornar um divisor de águas para a organização popular no país. Em sua leitura, uma vitória nessa pauta abriria caminho para novas conquistas trabalhistas e recolocaria o tema do tempo, da dignidade e da valorização da vida no centro do debate nacional. “Essa é a principal luta desses últimos 50 anos”, afirmou, ao defender maior engajamento do movimento sindical.
A participação da vereadora Mariana Lacerda, comentarista da edição, reforçou esse argumento ao associar a pauta da jornada à agenda do cuidado e da qualidade de vida. Ela defendeu que o debate sobre o fim da escala 6×1 precisa caminhar junto com a discussão sobre políticas públicas de cuidado, sobretudo para as mulheres trabalhadoras. Também destacou a necessidade de ampliar a disputa nas redes e nos territórios, enfrentando o discurso que romantiza a precarização e naturaliza o excesso de trabalho.
Ao final da conversa, ficou evidente que o Atlas da Escala 6×1 no Brasil é mais que um levantamento estatístico. Ele funciona como um espelho duro do país real. Um país em que milhões saem de casa de madrugada, passam horas em ônibus, trens e metrôs, enfrentam pressão, baixos salários e pouco descanso, e ainda assim são convocados a aceitar tudo isso como se fosse inevitável.
A entrevista com Márcio Ayer recoloca esse tema no lugar que merece: não como detalhe de legislação trabalhista, mas como questão central de democracia, saúde pública, distribuição de tempo e justiça social. O debate sobre o fim da escala 6×1, afinal, não fala apenas sobre horas de trabalho. Fala sobre que tipo de vida o Brasil considera aceitável para quem move o país todos os dias.
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