“A feira nunca é só uma feira”, diz Rejane Tavares ao defender circuitos solidários de comercialização

Especialistas apontam crescimento das feiras de agricultura familiar e economia solidária como alternativa de abastecimento, geração de renda e fortalecimento da soberania alimentar no Brasil

As feiras de agricultura familiar e economia solidária vêm consolidando um papel que ultrapassa a simples comercialização de produtos. Em debate realizado no programa “Bancos da Democracia”, da Rádio e TV Atitude Popular, representantes do governo federal, movimentos sociais e organizações populares defenderam que esses espaços se tornaram territórios de convivência, formação política, circulação cultural e fortalecimento dos circuitos locais de abastecimento.

A edição foi apresentada por Sara Goes e contou com a participação de Regilane Fernandes, diretora de Apoio à Aquisição e Comercialização dos Produtos da Agricultura Familiar da Secretaria de Abastecimento, Cooperativismo e Soberania Alimentar do Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar (SEAB/MDA); Francisco Santiago, da Cáritas Regional Ceará e do Fórum Brasileiro de Economia Solidária (FBES); e Rejane Tavares, secretária estadual da Agricultura Familiar do Piauí e coordenadora da Câmara Temática da Agricultura Familiar do Consórcio Nordeste.

Ao longo da conversa, os convidados defenderam que as feiras funcionam como porta de entrada para milhares de pessoas conhecerem práticas ligadas à economia solidária, à agroecologia e à soberania alimentar. Para Rejane Tavares, o ambiente das feiras carrega dimensões afetivas, culturais e políticas que ajudam a explicar sua força histórica no Nordeste.

“A feira nunca é só uma feira”, afirmou. Segundo ela, esses espaços funcionam como locais de troca de conhecimentos, circulação de culturas populares e fortalecimento comunitário. “É ali que você troca afetos, troca cultura, troca conhecimentos e troca mercadorias também”, declarou durante o programa.

A representante do Consórcio Nordeste destacou ainda a expansão das chamadas “quitandas da agricultura familiar”, iniciativas voltadas para aproximar produtores de consumidores em condomínios, repartições públicas e espaços urbanos. Segundo Rejane, a experiência tem criado vínculos permanentes entre agricultores e moradores das cidades, fortalecendo redes locais de abastecimento.

Ela também chamou atenção para o papel da agricultura familiar diante das desigualdades sociais e da concentração de renda no país. “Não pode um país com a capacidade produtiva que a gente tem ainda ter pessoas passando fome”, afirmou.

Durante o debate, Francisco Santiago ressaltou que as feiras ajudam a construir relações mais próximas entre produtores e consumidores. Ele citou experiências de comercialização direta no Ceará, incluindo iniciativas de produção de alimentos, produtos de higiene e itens de limpeza elaborados por grupos ligados à economia solidária.

“Você estreita essas relações. O consumidor conhece quem produz, conhece o território e entende de onde vem aquilo que está consumindo”, afirmou.

Santiago também destacou o protagonismo das mulheres nas feiras populares. Segundo ele, em várias experiências acompanhadas pela Cáritas no Ceará, mais de 80% dos participantes são mulheres. O dirigente observou ainda que esses espaços ajudam a envolver famílias inteiras, incluindo crianças e jovens, fortalecendo vínculos comunitários e culturais.

Outro ponto debatido foi a importância das feiras para dinamizar economias locais. Regilane Fernandes explicou que o apoio do Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar às feiras integra a estratégia do Plano Nacional de Abastecimento Alimentar e Nutricional, conhecido como “Plano Alimento no Prato”, lançado pelo governo do Presidente Lula.

Segundo ela, o plano reúne 16 ministérios e busca fortalecer a produção de alimentos saudáveis, os circuitos curtos de comercialização e as formas de abastecimento popular. As feiras aparecem como uma das ferramentas centrais dessa política.

“Uma feira possibilita muitos tipos de negócios diferentes dentro do espaço onde ela acontece e no seu entorno”, afirmou Regilane. Ela explicou que, além da comercialização direta, eventos desse tipo movimentam restaurantes, hotéis, pousadas, farmácias e pequenos comércios locais.

A diretora da SEAB/MDA revelou que a demanda por apoio federal às feiras cresceu rapidamente nos últimos anos. Em 2024, o ministério recebeu 125 solicitações de apoio e financiou 65 feiras. Já em 2025, o número de pedidos saltou para 823, com 179 feiras apoiadas e cerca de R$ 23 milhões investidos.

Para 2026, a expectativa é ampliar novamente os investimentos. O governo federal estima aplicar aproximadamente R$ 25 milhões em apoio às feiras de agricultura familiar e economia solidária em diferentes regiões do país.

A agricultura urbana e periurbana também apareceu como tema central da discussão. Regilane afirmou que o crescimento dessas iniciativas se intensificou após a pandemia e já mobiliza diferentes ministérios federais. Segundo ela, o governo prepara um edital específico para apoiar feiras e experiências ligadas à produção urbana de alimentos.

“Produzir alimento nas cidades já é uma realidade”, afirmou. Ela reconheceu, porém, que ainda não existe um mapeamento nacional consolidado dessas experiências, embora grupos de trabalho interministeriais estejam construindo instrumentos para identificar e localizar essas iniciativas em todo o país.

No encerramento do programa, os convidados reforçaram a importância das feiras como espaços de construção democrática e transformação social. Citando o economista Paul Singer, referência histórica da economia solidária no Brasil, Regilane afirmou que “a economia solidária é em si um ato pedagógico”.

A representante do MDA defendeu ainda que as feiras ajudam a apresentar “um outro Brasil possível”, baseado em relações econômicas mais sustentáveis, coletivas e democráticas.

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