“A gente precisa enfrentar de peito aberto”

Pesquisador defende soberania digital e alerta que plataformas lucram com a radicalização e a captura da democracia

Da Redação

As plataformas digitais deixaram de ser apenas espaços de comunicação para se tornarem ambientes de disputa política, econômica e cultural. O funcionamento de seus algoritmos, a circulação de discursos extremistas, a exploração de dados pessoais e a dependência tecnológica dos países foram os principais temas do programa Democracia no Ar, da TV Atitude Popular, que recebeu o pesquisador Ergon Cugler para discutir os desafios da soberania digital e o chamado “mercado do ódio”. A entrevista foi conduzida por Sara Goes.

Ao longo da conversa, Cugler argumentou que o modelo de negócios das grandes plataformas digitais favorece conteúdos capazes de gerar engajamento por meio da polarização, da desinformação e do conflito. Para ele, esse mecanismo cria incentivos econômicos para a produção sistemática de discursos de ódio e enfraquece o debate público.

Segundo o pesquisador, a mentira sempre existiu na política, mas a internet alterou profundamente sua capacidade de circulação.

“A internet não faz apenas a mentira alcançar mais pessoas. Ela torna a mentira muito mais específica.”

Na avaliação de Cugler, as plataformas conseguem identificar perfis de usuários e direcionar conteúdos falsos para públicos mais suscetíveis a acreditar neles. Em vez de espalhar a mesma desinformação para todos, os algoritmos entregam narrativas adaptadas aos interesses e vulnerabilidades de cada grupo.

O novo modelo da desinformação

Durante o programa, o pesquisador comentou denúncias sobre esquemas de disseminação coordenada de conteúdos políticos nas redes sociais. Segundo ele, práticas como os chamados “campeonatos de cortes”, popularizados durante campanhas eleitorais recentes, transformaram a produção de vídeos virais em uma atividade remunerada, mas com um detalhe importante.

“O pagamento normalmente não é feito para todo mundo. Recebe quem consegue viralizar.”

Esse formato cria uma lógica de competição em que milhares de pessoas produzem conteúdos na expectativa de serem recompensadas apenas se alcançarem grande repercussão, ampliando a circulação de material sensacionalista e desinformativo.

Para Cugler, trata-se de um novo estágio da precarização do trabalho digital, no qual pessoas disputam atenção em plataformas que lucram independentemente da qualidade das informações divulgadas.

Big Techs não são neutras

Questionado sobre a atuação das grandes empresas de tecnologia, o pesquisador afirmou que elas concentram um poder inédito sobre a circulação de informações e sobre o próprio funcionamento da democracia.

Ele citou casos de perfis progressistas que tiveram contas removidas ou alcance reduzido sem transparência suficiente sobre os critérios utilizados pelas plataformas.

Na avaliação do pesquisador, as empresas exercem simultaneamente os papéis de moderadoras, julgadoras e responsáveis pelos recursos apresentados pelos próprios usuários.

“Eles derrubam, julgam, recebem o recurso e tomam a decisão final.”

Mesmo quando conteúdos progressistas conseguem grande alcance, Cugler observa que o modelo continua favorecendo economicamente as plataformas.

“A quantidade de pessoas que assistiu ao meu vídeo também representa a quantidade de dinheiro que aquele vídeo deu para a plataforma.”

O debate sobre soberania digital

Grande parte da entrevista foi dedicada ao conceito de soberania digital.

Segundo o pesquisador, o tema vai muito além das redes sociais e envolve infraestrutura tecnológica, armazenamento de dados, softwares, legislação e autonomia científica.

Um dos exemplos citados foi o Cloud Act, legislação dos Estados Unidos que permite às autoridades norte-americanas requisitarem dados armazenados por empresas daquele país, mesmo quando esses dados pertencem a cidadãos estrangeiros e estejam fisicamente hospedados em outros países.

Para Cugler, isso significa que informações estratégicas podem ficar sujeitas à legislação norte-americana.

Ele lembrou ainda que serviços públicos brasileiros utilizam infraestrutura de empresas estrangeiras, incluindo sistemas relacionados à saúde e à administração pública.

O risco do solucionismo tecnológico

Outro conceito apresentado foi o chamado “solucionismo tecnológico”.

Segundo Cugler, existe uma tendência crescente entre gestores públicos de acreditar que qualquer problema pode ser resolvido simplesmente pela adoção de novas tecnologias ou de ferramentas de inteligência artificial.

Ele citou exemplos de órgãos públicos que pretendem utilizar inteligência artificial para resumir projetos de lei destinados aos parlamentares e criticou declarações favoráveis ao uso crescente dessas ferramentas na atividade jurisdicional.

Para o pesquisador, esse tipo de visão ignora que toda tecnologia incorpora interesses econômicos, políticos e ideológicos.

“Por trás de toda tecnologia existe um interesse.”

Inteligência artificial e democracia

A entrevista também abordou o uso de inteligência artificial na produção de conteúdos políticos.

Ao comentar vídeos gerados artificialmente durante campanhas eleitorais, Cugler afirmou que a simples identificação de que determinado conteúdo foi produzido por IA não elimina seus efeitos políticos.

Segundo ele, muitos usuários não procuram verificar se o conteúdo é verdadeiro, mas apenas reforçar suas convicções políticas.

O pesquisador relacionou esse comportamento ao conceito de polarização afetiva, desenvolvido pela cientista política Liliana Mason.

Segundo essa abordagem, grupos políticos passam a organizar sua identidade mais pela rejeição ao adversário do que pela defesa de propostas concretas.

Nesse contexto, a desinformação deixa de depender apenas do engano e passa a ser aceita por quem deseja fortalecer sua identidade política.

Um investimento que poderia mudar o país

Ao discutir alternativas, Cugler defendeu maior investimento em pesquisa nacional.

Ele apresentou um dado que considera simbólico.

Segundo seus levantamentos, os governos brasileiros destinam cerca de R$ 10,3 bilhões por ano para contratação de serviços de grandes empresas de tecnologia. Para ele, esse mesmo valor seria suficiente para financiar bolsas de todos os estudantes de mestrado e doutorado do país durante um ano.

Na avaliação do pesquisador, investir em ciência nacional permitiria desenvolver soluções próprias e reduzir a dependência tecnológica do Brasil.

Ele também defendeu políticas públicas capazes de manter pesquisadores brasileiros trabalhando em projetos estratégicos para o país, em vez de serem absorvidos por empresas estrangeiras.

Disputar espaço nas redes

Ao final da entrevista, Cugler explicou por que tem aceitado participar de debates promovidos por influenciadores e representantes da extrema direita.

Segundo ele, deixar esses espaços sem contraponto apenas fortalece narrativas baseadas na desinformação.

“A gente precisa enfrentar de peito aberto.”

Para o pesquisador, a presença de professores, pesquisadores, sindicalistas e comunicadores progressistas nesses ambientes é necessária para apresentar dados, confrontar informações falsas e disputar a atenção do público.

Ele concluiu afirmando que abandonar essas arenas significa permitir que apenas um lado construa a narrativa pública.

Assista à entrevista completa: