“A IA é complementar à atividade humana, ela não substitui a atividade humana”, afirma professor da UFC

Em entrevista ao Café com Democracia, Rafael Silva defende que a inteligência artificial deve estar a serviço das pessoas, alerta para os riscos da exclusão tecnológica e analisa os desafios éticos trazidos pela nova revolução digital

A inteligência artificial está transformando a forma como as pessoas trabalham, estudam, produzem conhecimento e se relacionam. Diante desse cenário, cresce também o debate sobre seus impactos na democracia, no mercado de trabalho, na educação e nos direitos humanos. Esses temas foram discutidos na edição do *Café com Democracia, da TV Atitude Popular, que recebeu o professor da Universidade Federal do Ceará (UFC) Rafael Silva para uma reflexão sobre a dignidade humana em tempos de inteligência artificial, a partir do documento *Magnífica Humanidade, publicado pelo Papa Leão XIV.

Durante a entrevista, o pesquisador defendeu que a inteligência artificial representa um importante avanço tecnológico, mas alertou que seu desenvolvimento precisa preservar a centralidade da pessoa humana. Segundo ele, a principal questão não é a tecnologia em si, mas quem está sendo colocado a serviço de quem.

“A IA é complementar à atividade humana, ela não substitui a atividade humana.”

Para Rafael Silva, toda discussão sobre inteligência artificial deve partir de uma pergunta fundamental: a tecnologia está servindo à humanidade ou são as pessoas que estão sendo subordinadas às decisões das máquinas?

A dignidade humana precisa permanecer no centro

O professor explicou que o documento Magnífica Humanidade aprofunda reflexões já iniciadas pelo Papa Francisco sobre o papel da tecnologia na sociedade contemporânea.

Segundo ele, o texto não propõe rejeitar os avanços tecnológicos nem defender um retorno ao passado, mas insiste que o desenvolvimento científico deve fortalecer a dignidade humana, a soberania dos povos e a proteção da vida.

Na avaliação do pesquisador, a inteligência artificial pode ampliar a produtividade, aumentar a precisão de diversas atividades e liberar tempo para tarefas mais complexas. No entanto, perde seu sentido quando passa a substituir a autonomia intelectual das pessoas.

O perigo de delegar decisões às máquinas

Durante a conversa, Rafael Silva afirmou que o principal risco da inteligência artificial surge quando os indivíduos deixam de pensar criticamente e transferem às máquinas decisões que pertencem aos seres humanos.

Segundo ele, utilizar ferramentas de IA para apoiar pesquisas, revisar textos ou organizar informações pode ser extremamente útil. O problema aparece quando a tecnologia deixa de ser um instrumento auxiliar e passa a ocupar o lugar da criatividade, da reflexão e da responsabilidade humana.

Para o professor, a autonomia depende da capacidade de formular boas perguntas, interpretar respostas e produzir conhecimento próprio.

Trabalho continua sendo fonte de dignidade

Um dos principais temas abordados durante a entrevista foi o impacto da inteligência artificial sobre o emprego.

Rafael Silva lembrou que transformações tecnológicas sempre alteraram o mercado de trabalho, mas destacou que a sociedade possui responsabilidade sobre as pessoas afetadas por essas mudanças.

Como exemplo, citou profissões que desapareceram nas últimas décadas em razão da automação, como a função de cobrador de ônibus.

Segundo ele, a discussão não deve se limitar ao aumento ou à redução das taxas de desemprego, mas considerar o destino das pessoas que perderam sua ocupação e precisam reconstruir sua vida profissional.

Tecnologia deve ampliar direitos, não criar barreiras

Outro ponto destacado pelo professor foi a exclusão digital.

Rafael Silva relatou situações em que cidadãos deixaram de acessar serviços públicos porque não possuíam e-mail ou conhecimentos básicos de informática.

Na avaliação dele, quando uma tecnologia impede o acesso a direitos fundamentais, como saúde ou atendimento público, ela deixa de cumprir sua função social.

Para o pesquisador, cabe ao Estado adaptar seus serviços às diferentes realidades da população, e não exigir que todos possuam o mesmo nível de letramento digital.

Inteligência artificial também exige educação

Segundo Rafael Silva, a educação desempenha papel decisivo nesse novo cenário.

Ele defendeu que escolas, universidades, famílias e instituições sociais desenvolvam competências que permitam às pessoas utilizar a inteligência artificial com autonomia e senso crítico.

Na sua avaliação, mais importante do que dominar ferramentas digitais é aprender a formular perguntas, interpretar informações e compreender os impactos sociais das tecnologias.

Voltar aos clássicos não significa rejeitar a inovação

Ao comentar a importância da formação humanística, o professor defendeu o estudo dos chamados clássicos do pensamento.

Segundo ele, retornar aos grandes autores não significa abandonar as novas tecnologias, mas aprender como diferentes sociedades enfrentaram grandes transformações ao longo da história.

Essa formação, afirmou, ajuda a construir pensamento crítico e evita que a inteligência artificial substitua completamente o processo de reflexão humana.

Liberdade e democracia também entram no debate

Na parte final da entrevista, Rafael Silva argumentou que a revolução tecnológica modifica profundamente a maneira como a sociedade compreende conceitos como liberdade, democracia e participação política.

Segundo ele, a expansão das plataformas digitais e das inteligências artificiais exige novas formas de proteger direitos coletivos e impedir a concentração de poder.

O pesquisador defendeu que a tecnologia esteja sempre subordinada aos valores democráticos e à promoção da dignidade humana, preservando a liberdade das pessoas sem abrir mão da responsabilidade social.

Referências

Magnífica Humanidade. Papa Leão XIV. 2025.
Laudato Si’. Papa Francisco. 2015.
Repensando a questão social (Rerum Novarum). Papa Leão XIII. 1891.


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