Ferramenta do MST organiza dados, orienta a produção e disputa o uso da inteligência artificial no campo a partir da agroecologia e da soberania popular
A inteligência artificial deixou de ser uma promessa distante para se tornar uma infraestrutura concreta de poder. No Brasil, essa disputa já chega ao campo. Em debate realizado no dia 20 de abril no programa Bancos da Democracia, da TV Atitude Popular, foi apresentada a IAraa — Inteligência Artificial da Reforma Agrária e Agroecologia — uma iniciativa do MST em parceria com organizações populares que busca construir uma alternativa às plataformas dominadas pelas grandes corporações de tecnologia.
A apresentação ocorreu durante o programa conduzido por Sara Goes, com participação do engenheiro florestal Matheus Mendes, integrante da equipe técnica da IAraa, e do extensionista Ricardo Cassundé, da EMATERCE e do coletivo da plataforma. A partir das falas dos convidados, o debate se concentrou no funcionamento da ferramenta, seus princípios técnicos e políticos, e nos desafios de construir uma inteligência artificial voltada à classe trabalhadora.
Mais do que um software, a IAraa foi definida como uma estratégia de disputa. “A IAraa surge de uma necessidade global mesmo da gente tomar para si, enquanto classe trabalhadora, essa tecnologia”, afirmou Matheus Mendes. A declaração sintetiza o ponto de partida da iniciativa: a recusa em delegar às big techs o controle sobre o conhecimento relacionado à produção de alimentos, à reforma agrária e à agroecologia.
Uma IA construída a partir de dados próprios
Um dos elementos centrais do funcionamento da IAraa é o controle sobre sua base de dados. Diferentemente das inteligências artificiais comerciais, que operam com grandes volumes de dados coletados de forma difusa e muitas vezes opaca, a IAraa é alimentada por conteúdos selecionados pelos próprios movimentos sociais.
Isso significa que cartilhas, experiências de campo, pesquisas acadêmicas alinhadas à agroecologia e práticas concretas de agricultores são incorporadas de forma intencional. O objetivo é evitar a reprodução automática de modelos dominantes.
Durante o debate, foi destacado que, ao testar ferramentas comerciais, a equipe identificou um padrão recorrente: mesmo quando a resposta inicial parecia neutra, havia uma tendência de conduzir o usuário a soluções alinhadas ao agronegócio, como o uso de insumos químicos. Essa constatação levou à decisão de construir uma base própria.
A IAraa, portanto, não apenas responde perguntas — ela responde a partir de um projeto político. Como foi explicado, trata-se de uma tecnologia que assume posicionamento, ao invés de simular neutralidade.
Perfis de uso e respostas contextualizadas
Outro diferencial técnico da IAraa está na segmentação por perfis. Ao acessar a ferramenta, o usuário pode se identificar como agricultor, técnico ou educador. A partir dessa escolha, o sistema ajusta a forma e o conteúdo das respostas.
Na prática, isso significa que uma mesma pergunta pode gerar orientações distintas dependendo de quem a faz. Um agricultor recebe instruções diretas e aplicáveis ao cotidiano da produção. Um técnico pode obter referências mais detalhadas. Já um educador pode acessar conteúdos estruturados para formação.
Além disso, as respostas não se limitam a orientações técnicas. A IAraa incorpora elementos organizativos, sugerindo práticas coletivas, como mutirões, trocas de sementes e articulação comunitária. Esse aspecto foi destacado como um avanço em relação às inteligências artificiais convencionais, que operam de forma individualizada.
Monitoramento constante e disputa de conteúdo
O funcionamento da IAraa exige um processo contínuo de revisão. Segundo os participantes, a ferramenta não é autônoma no sentido pleno: ela depende de acompanhamento humano constante.
A equipe técnica monitora as respostas, identifica desvios e corrige a base de dados. Um exemplo citado foi a identificação de recomendações de insumos químicos — consideradas incompatíveis com a agroecologia — que foram posteriormente removidas e substituídas por alternativas coerentes com o projeto da plataforma.
Esse processo revela que a disputa não termina na criação da ferramenta. Ela continua no uso cotidiano, na atualização dos dados e na vigilância sobre os resultados gerados.
Limitações técnicas e expansão em construção
Apesar dos avanços, a IAraa ainda enfrenta limitações. Uma das principais é a infraestrutura tecnológica. A ferramenta depende de servidores, o que envolve custos elevados e restrições operacionais.
Atualmente, por exemplo, não há suporte para análise de imagens, o que permitiria, como desejam os agricultores, enviar fotos de plantas para diagnóstico. Esse tipo de funcionalidade depende de maior capacidade computacional e investimento.
Ainda assim, a IAraa já opera com modelos de linguagem integrados e adaptados à sua base de dados, com diferentes configurações para cada perfil de usuário. O sistema também coleta informações sobre o uso para aprimorar suas respostas ao longo do tempo.
Integração com políticas públicas e extensão rural
Outro eixo importante do funcionamento da IAraa é sua relação com a assistência técnica e a extensão rural. A ferramenta não substitui esses serviços, mas atua como suporte.
Ela pode, por exemplo, auxiliar na elaboração de projetos, na organização de dados para políticas públicas e na sistematização de práticas agroecológicas. Também pode contribuir para a formação de técnicos e agricultores, funcionando como instrumento pedagógico.
A intenção, segundo os participantes, é que a IAraa fortaleça a capacidade de organização dos territórios, ao mesmo tempo em que amplia o acesso ao conhecimento técnico.
Uma disputa tecnológica em curso
O desenvolvimento da IAraa ocorre em um contexto de forte concentração tecnológica global. Durante o debate, foi ressaltado que países e corporações investem trilhões em inteligência artificial, com objetivos estratégicos que vão desde a indústria até a guerra.
Nesse cenário, iniciativas como a IAraa surgem como experiências de resistência e construção alternativa. Ao se apropriar da tecnologia, os movimentos sociais buscam evitar que ela seja usada apenas como instrumento de dominação.
A IAraa ainda está em fase de expansão e construção coletiva, com previsão de ampliação de parcerias, integração com universidades e fortalecimento de sua base de dados. A perspectiva é que a ferramenta se consolide como um instrumento de organização da produção agroecológica e de fortalecimento da soberania popular no campo.
Mais do que uma inovação tecnológica, trata-se de uma tentativa de redefinir quem produz conhecimento e para quem ele serve.
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