A juventude volta às ruas: uma geração decide que a democracia também é responsabilidade sua

De universidades a avenidas, estudantes organizam manifestações em dezenas de cidades, defendem a democracia, a educação pública e os direitos sociais e entram de corpo inteiro no segundo turno de 2026. Em meio a símbolos neonazistas encontrados numa universidade e a episódios de intimidação política, uma geração que não viveu a ditadura começa a escrever sua própria memória nas ruas.

Da Redação

Em Fortaleza, a tarde caiu sobre a Avenida 13 de Maio com milhares de jovens caminhando entre bandeiras, cartazes, mochilas e palavras de ordem. A concentração havia começado na Universidade Federal do Ceará e, pouco a pouco, o que era uma atividade estudantil ganhou as ruas. Havia alunos que tinham acabado de sair de uma aula, outros que chegaram de ônibus de diferentes bairros, jovens que carregavam cartazes improvisados e grupos inteiros de escolas e universidades. Defendiam a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, rejeitavam a candidatura de Flávio Bolsonaro e repetiam bandeiras que foram se tornando comuns nas manifestações desta semana: democracia, educação pública, direitos trabalhistas, soberania nacional e combate ao que classificam como avanço autoritário no país.

A mesma imagem, com diferenças de sotaque, tamanho e paisagem, começou a aparecer em vários pontos do Brasil depois do primeiro turno. Estudantes ocuparam ruas no Rio de Janeiro, Curitiba, Niterói, Salvador, Porto Alegre, Recife, Goiânia e outras cidades. Organizações do movimento estudantil contabilizam mobilizações em mais de 40 universidades, distribuídas por pelo menos 14 estados e pelo Distrito Federal. Não se trata de uma única passeata comandada de Brasília nem de um movimento perfeitamente uniforme. Em muitos lugares, tudo começou com uma assembleia pequena, convocada dentro de um campus, que cresceu à medida que alunos de outros cursos, professores, trabalhadores e moradores da região decidiram participar.

Em Niterói, por exemplo, uma reunião de estudantes da Universidade Federal Fluminense terminou nas ruas. No Rio, jovens de diferentes universidades e escolas caminharam pelo centro da cidade. Em Curitiba, estudantes saíram da Praça Santos Andrade, diante da Universidade Federal do Paraná, em direção à Boca Maldita, levando cartazes em defesa da CLT, contra a escala 6×1 e com mensagens antifascistas. Em Fortaleza, a mobilização percorreu algumas das avenidas que atravessam a região universitária da capital cearense. Em cada cidade, havia uma pauta local, mas a eleição presidencial funcionava como ponto de encontro.

Esses jovens querem interferir no resultado de 25 de outubro. Não escondem isso. Querem conversar com quem se absteve no primeiro turno, disputar os votos de quem escolheu outros candidatos, convencer parentes, colegas e desconhecidos. Parte considerável das entidades envolvidas apoia Lula e se coloca diretamente contra Flávio Bolsonaro. A movimentação é eleitoral, mas não é apenas eleitoral. Ao sair dos campi e ocupar a cidade, esses estudantes estão dizendo também que a política não pertence exclusivamente aos partidos, aos profissionais de campanha, aos influenciadores digitais ou aos ocupantes dos gabinetes.

Há algo profundamente diferente entre assistir a uma eleição pela tela de um telefone e decidir atravessar uma avenida para participar dela. A primeira atitude transforma a política em conteúdo. A segunda transforma o cidadão em personagem.

Uma geração encontra sua própria razão para ir à rua

Toda geração brasileira parece encontrar, em algum momento, uma razão para descobrir que a democracia não é uma paisagem permanente.

Os jovens que estão nas manifestações de 2026 não estavam nas passeatas pelas Diretas Já. Não viveram a repressão às entidades estudantis durante a ditadura militar. A maioria sequer tinha nascido quando os caras-pintadas tomaram as ruas em 1992. Muitos eram crianças em 2013. Sua experiência política foi construída em outro mundo: redes sociais, pandemia, guerra cultural, desinformação em escala industrial, universidades atravessadas por conflitos ideológicos e uma política que frequentemente chega ao celular antes de chegar à praça.

Talvez por isso exista alguma coisa de especial no retorno físico às ruas. Depois de anos em que grande parte da disputa política pareceu confinada aos aplicativos, estudantes voltaram a experimentar uma forma de organização muito mais antiga: encontrar pessoas, fazer assembleias, produzir cartazes, decidir trajetos, ocupar praças, distribuir panfletos, pegar um megafone e tentar convencer alguém que não pensa igual.

É desorganizado por natureza. Às vezes uma passeata começa atrasada, o carro de som falha, o cartaz molha, a faixa fica torta, a palavra de ordem não pega. Justamente por isso é tão diferente das peças cuidadosamente editadas das campanhas digitais. Uma manifestação não passa por filtro antes de existir. Ela é composta por pessoas reais, com divergências, hesitações e contradições.

Nas imagens desta semana, há jovens com camisetas vermelhas e outros vestidos de verde e amarelo. Há bandeiras partidárias, mas também bandeiras de centros acadêmicos, sindicatos, entidades estudantis e movimentos de bairro. Há estudantes que se identificam como socialistas, progressistas ou de esquerda e outros que simplesmente dizem estar ali porque consideram que determinados direitos precisam ser defendidos.

A defesa da educação aparece de maneira insistente porque, para muitos deles, política não é uma abstração. É o preço do bandejão, a bolsa de permanência, a condição do laboratório, a existência de um instituto federal no interior, o salário de um professor, o financiamento de uma pesquisa, a possibilidade de um filho de trabalhador permanecer numa universidade depois de conseguir entrar nela.

A discussão sobre a escala 6×1 também entrou nos atos. Para uma geração que começa a chegar ao mercado de trabalho em empregos precários, terceirizados, por aplicativo ou com jornadas extensas, o debate sobre tempo livre deixou de parecer assunto de outra época. Quando estudantes carregam cartazes pela redução da jornada, estão discutindo também qual será o tipo de vida adulta que os espera.

É nesse encontro entre eleição e cotidiano que a mobilização cresce.

Quando “antifascismo” deixa de ser apenas uma palavra em uma faixa

Entre as palavras mais repetidas nos atos está “antifascismo”. Ela precisa ser tratada com precisão. Manifestantes utilizam o termo para expressar sua oposição ao que consideram tendências autoritárias, ataques às instituições democráticas, racismo, supremacismo e intolerância política. Isso não autoriza classificar automaticamente todo eleitor conservador, toda pessoa de direita ou toda candidatura adversária como fascista ou neonazista.

Mas acontecimentos desta própria semana mostram que a preocupação com grupos neonazistas não pertence apenas ao vocabulário eleitoral.

Na Universidade Federal de Santa Maria, no Rio Grande do Sul, estudantes encontraram em diferentes banheiros inscrições com a runa Odal, símbolo apropriado pelo nazismo e posteriormente utilizado por organizações neonazistas e supremacistas brancas. Junto ao desenho aparecia a frase “Você não está só”. Outros registros foram encontrados e, segundo relatos divulgados pela comunidade universitária, símbolos semelhantes apareceram em seis locais.

A resposta dos estudantes não foi silenciosa. O Diretório Central e entidades acadêmicas organizaram uma manifestação com a frase “UFSM, território antifascista”. Alunos se reuniram diante do Centro de Ciências Naturais e Exatas e caminharam pelo campus. As ocorrências foram encaminhadas às autoridades e passaram a ser tratadas como caso de segurança.

Existe uma diferença enorme entre um cartaz chamando uma política de fascista e uma inscrição utilizada historicamente por grupos neonazistas. No segundo caso, há um fato objetivo que precisa ser investigado.

E é exatamente por isso que os jovens de Santa Maria merecem ser vistos dentro da história mais ampla desta semana. Quando uma comunidade universitária encontra um símbolo dessa natureza numa parede e decide responder coletivamente, ela está realizando um gesto simples: recusando a naturalização.

Democracias não deixam de existir apenas quando tanques aparecem nas ruas. Elas também se enfraquecem quando sociedades começam a tratar a violência política, o racismo e a intimidação como elementos normais da convivência.

O gesto de apagar um símbolo neonazista e colocar cem estudantes diante da parede onde ele apareceu pode parecer pequeno diante de uma eleição presidencial. Não é.

É uma maneira de dizer que determinados limites continuam existindo.

Em Sergipe, a política encontra uma arma

Na noite de quinta-feira, nas proximidades da Universidade Federal de Sergipe, um episódio mostrou como esse ambiente pode se tornar mais perigoso.

Estudantes participavam de uma manifestação em apoio a Lula quando um policial militar que estava de folga chegou ao local de carro e apareceu armado entre os manifestantes. Imagens registraram o homem com a arma e o tumulto provocado pela situação. Testemunhas afirmaram que houve disparos para o alto, embora as imagens disponíveis inicialmente não mostrassem o momento dos tiros. Ninguém ficou ferido.

A Secretaria de Segurança Pública determinou o recolhimento da arma, o afastamento do policial das atividades de rua e a abertura de investigação. A perícia passou a examinar o episódio.

Não é necessário antecipar o resultado da apuração para compreender a gravidade da cena.

Um grupo de estudantes exercia seu direito de manifestação e, de repente, havia uma arma naquele espaço.

É exatamente nessas situações que a palavra democracia deixa de ser abstrata. Ela passa a significar algo muito concreto: uma pessoa precisa poder usar uma faixa favorável a Lula sem correr risco de ser atacada. Outra precisa poder usar uma camisa de Flávio Bolsonaro sem ser agredida. Um jovem precisa poder dizer que considera uma decisão do Supremo errada. Outro precisa poder dizer que considera determinada liderança uma ameaça democrática.

Enquanto todos continuam falando, discutindo, votando e voltando para casa, a democracia ainda está funcionando.

Quando a arma substitui o argumento, alguma coisa essencial começa a desaparecer.

Por isso a reação institucional ao episódio de Sergipe é tão importante quanto o próprio ato. Uma sociedade democrática precisa demonstrar rapidamente que divergência política não concede licença para intimidação armada, venha de onde vier.

O país cabe dentro de uma mochila

Há uma tentação permanente de olhar para jovens politizados com condescendência. Dizer que são ingênuos, que não conhecem a vida, que estão sendo manipulados, que vão mudar de opinião quando envelhecerem.

Talvez mudem.

Muitas pessoas que caminharam em passeatas aos 18 anos pensavam de maneira completamente diferente aos 40. Isso também faz parte da liberdade.

O valor daquela caminhada, porém, não depende de o jovem conservar exatamente a mesma opinião durante toda a vida.

Depende do fato de ele ter compreendido cedo que existe uma esfera coletiva da vida pela qual precisa assumir alguma responsabilidade.

Não há democracia sem esse aprendizado.

Uma urna eletrônica não sustenta sozinha uma sociedade democrática. Constituição, Supremo, Congresso, imprensa e partidos também não. As instituições dependem de uma cultura política que convença sucessivas gerações de que vale a pena protegê-las, criticá-las, reformá-las e, quando necessário, ocupar as ruas para cobrar que funcionem.

Talvez por isso seja tão forte a imagem de estudantes atravessando cidades com mochilas nas costas.

Dentro delas há cadernos, livros, carregadores, uma garrafa de água, às vezes um jaleco amassado, um sanduíche e uma bandeira.

É pouca coisa.

Mas países inteiros foram transformados por gerações que começaram carregando pouca coisa.

A juventude brasileira tem uma história longa de participação política. Estudantes estiveram nas mobilizações contra o Estado Novo, enfrentaram a repressão durante a ditadura, ocuparam as ruas pelas eleições diretas, apareceram no movimento dos caras-pintadas, organizaram ocupações de escolas, lutaram por universidades, cotas, bolsas, assistência estudantil e financiamento da ciência.

Esses movimentos nunca foram perfeitos. Alguns cometeram erros graves. Houve radicalismos, sectarismos, decisões equivocadas e momentos em que organizações estudantis estiveram muito distantes do sentimento da maioria dos próprios estudantes.

Nenhuma história real é feita apenas de heroísmo.

Mas também é impossível contar a história democrática do Brasil sem encontrar, repetidas vezes, estudantes no meio dela.

Em 2026, uma nova geração começa a ocupar esse lugar.

Ela chega com outra linguagem, outros celulares, outros medos e outras referências culturais. Não precisa repetir exatamente as gerações anteriores para pertencer à mesma tradição.

Virar uma eleição e aprender a ser cidadão

As entidades que organizam as mobilizações dizem que querem “virar o jogo” no segundo turno. É uma meta legítima numa eleição: convencer pessoas e tentar produzir maioria.

Mas o resultado mais duradouro dessa movimentação talvez não possa ser medido na noite de 25 de outubro.

Uma eleição tem vencedor e derrotado. No dia seguinte, o país continua.

O estudante que aprendeu a organizar uma assembleia poderá amanhã cobrar um prefeito. A jovem que pegou um megafone pela primeira vez poderá participar de um conselho municipal, fundar uma associação, entrar num sindicato, disputar uma eleição ou simplesmente nunca mais aceitar que decisões públicas sejam tratadas como assunto dos outros.

É dessa matéria que se forma uma cultura democrática.

Não é necessário concordar com Lula para reconhecer o valor de um jovem que vai às ruas pacificamente defender Lula. Da mesma maneira, não é necessário concordar com Flávio Bolsonaro para defender integralmente o direito de um jovem que queira fazer campanha por ele.

A homenagem à juventude que se mobiliza precisa começar justamente por essa diferença.

Democracia não existe porque todos chegam à mesma conclusão.

Existe porque aprendemos a viver juntos apesar de não chegarmos.

Os jovens que tomaram as ruas nesta semana escolheram um lado na eleição e não escondem essa escolha. Defendem Lula, criticam Flávio, falam em antifascismo e dizem acreditar que existe um risco democrático em jogo.

Outros brasileiros discordam profundamente dessa leitura.

Em 25 de outubro, todos terão exatamente o mesmo instrumento para resolver essa divergência: um voto.

Até lá, haverá ruas, debates, panfletos, vídeos, bandeiras e discussões.

Que existam.

Que sejam barulhentos.

Que sejam livres.

E que permaneçam sem violência.

Porque talvez a imagem mais importante desta eleição não seja a de um candidato num palanque nem a de um gráfico de pesquisa.

Talvez seja a de milhares de jovens descobrindo, ao mesmo tempo, uma verdade antiga: o país onde viverão pelos próximos cinquenta anos também depende daquilo que decidirem fazer com ele agora.

Eles podem ganhar ou perder a eleição que desejam virar.

Mas, no instante em que deixam de assistir à democracia de longe e passam a participar dela, alguma coisa já mudou.

Uma geração entrou na rua.

E a rua, mais uma vez, entrou para a história.