Aristides Braga Neto analisa como concentração econômica, publicidade, seleção de fontes e algoritmos interferem na percepção da realidade e favorecem a extrema direita
Da Redação
A influência exercida pelos grandes grupos de comunicação sobre a opinião pública não depende apenas da publicação de informações falsas ou da censura explícita. Ela começa antes, na propriedade dos meios, na definição das pautas, na seleção das fontes e na dependência financeira de anunciantes e patrocinadores.
Essa foi uma das principais questões discutidas no programa Democracia no Ar, da Rádio e TV Atitude Popular, em conversa conduzida pelo jornalista Reynaldo Aragon com o historiador Aristides Braga Neto e o comentarista Osmar de Sá Ponte Júnior.
Mestre em História e Culturas pela Universidade Estadual do Ceará, Aristides analisou a formação histórica da imprensa empresarial e os mecanismos usados para limitar a circulação de perspectivas contrárias aos interesses das classes economicamente dominantes.
Ao apresentar o tema, o pesquisador partiu das mobilizações operárias ocorridas na Europa durante o século XIX. Naquele período, jornais ligados aos trabalhadores passaram a divulgar reivindicações por melhores condições de vida, restrições ao trabalho infantil, redução da jornada e proteção às mulheres submetidas ao trabalho noturno.
Segundo Aristides, essas publicações despertaram a reação de proprietários de indústrias, banqueiros e grandes detentores de terras. As tentativas de conter a imprensa operária envolveram impostos elevados sobre o papel, processos judiciais, censura, prisões e ataques contra jornalistas e militantes.
“Nas palavras de Chomsky, a ordem passou a ser esmagar a imprensa operária”, afirmou.
Para o historiador, a pressão não ficou restrita à repressão estatal. O desenvolvimento tecnológico também alterou profundamente o mercado de comunicação. A adoção de máquinas de impressão mais caras, a necessidade de grandes estoques de papel, a distribuição nacional e a contratação de equipes numerosas elevaram os custos da produção jornalística.
Publicações locais, sindicais ou vinculadas a movimentos sociais passaram a enfrentar dificuldades para competir com empresas capazes de imprimir centenas de milhares de exemplares e reduzir o preço de cada unidade.
A transformação ajudou a consolidar um modelo de imprensa baseado em grandes investimentos privados e dependente da publicidade. Nesse sistema, observou Aristides, a possibilidade de participar da disputa pública passou a estar diretamente relacionada ao acesso ao capital.
O tamanho das empresas como primeiro filtro
Aristides apresentou cinco filtros que, segundo sua análise, ajudam a compreender como as informações são selecionadas antes de chegar ao público.
O primeiro deles é o tamanho das empresas de comunicação. Grandes redes mantêm sucursais, correspondentes, contratos com agências internacionais, equipamentos de alto custo e equipes permanentes em locais como parlamentos, tribunais e delegacias.
Veículos populares e sindicais não contam com a mesma estrutura. Em muitos casos, produzem conteúdos com equipes pequenas, recursos limitados e dificuldades para manter uma programação diária.
Essa desigualdade interfere na capacidade de pautar o debate público. Uma emissora presente durante todo o dia consegue repetir temas, personagens e enquadramentos até que eles passem a ocupar grande parte da atenção social.
Para Aristides, esse domínio não exige que informações divergentes sejam totalmente proibidas. Opiniões críticas podem aparecer de forma ocasional, inclusive para preservar a imagem de pluralidade do veículo.
“A censura tira a credibilidade do jornal se for escancarada. O jornal precisa parecer que está passando a verdade o tempo todo”, explicou.
Em seguida, sintetizou um dos pontos centrais de sua exposição:
“A mentira só é mentira porque se faz de verdade.”
Publicidade interfere na definição das pautas
O segundo filtro apresentado foi a propaganda. Empresas de comunicação dependem de anunciantes e patrocinadores para financiar sua produção. Essa relação econômica interfere na escolha dos programas, das abordagens e dos assuntos considerados aceitáveis.
Aristides afirmou que grandes anunciantes dificilmente financiam veículos dedicados a questionar as práticas econômicas e políticas das próprias empresas patrocinadoras. O controle não precisa ocorrer por meio de uma ordem direta enviada ao jornalista.
A seleção pode começar ainda na contratação dos profissionais, na formação das equipes e na definição prévia da linha editorial. Repórteres, apresentadores e comentaristas que se afastam dos interesses dos proprietários ou anunciantes encontram menos espaço para atuar.
“Não precisa chegar para o jornalista e proibir. O próprio contrato já faz essa seleção”, disse.
O pesquisador citou programas de grande audiência nos quais produtos e marcas aparecem integrados ao conteúdo. Nesse modelo, o público não acompanha apenas um programa de entretenimento. Também é inserido em uma operação comercial planejada para estimular compras durante a transmissão.
A publicidade, portanto, não aparece somente nos intervalos. Ela participa do conteúdo, influencia o formato dos programas e interfere na escolha das pautas que terão maior visibilidade.
A escolha das fontes determina o que será conhecido
O terceiro filtro discutido foi a seleção das fontes. Grandes veículos recorrem com frequência a governos, empresas, forças de segurança, instituições financeiras e organizações que dispõem de equipes especializadas em fornecer informações.
Comunidades indígenas, movimentos camponeses, trabalhadores organizados e populações atingidas por conflitos possuem menos condições de produzir dados e manter assessorias disponíveis para atender diariamente às redações.
Como consequência, algumas situações recebem cobertura apenas quando ocorre uma tragédia de grande repercussão. Resistências locais, conflitos territoriais e formas cotidianas de organização permanecem fora da cobertura regular.
Aristides mencionou os assassinatos do jornalista britânico Dom Phillips e do indigenista Bruno Pereira como exemplos de acontecimentos que levaram parte da imprensa a voltar temporariamente sua atenção para a Amazônia. Sem episódios dessa dimensão, argumentou, as ações realizadas diariamente por povos indígenas e defensores da floresta recebem pouco espaço.
A mesma lógica aparece na cobertura internacional. Guerras e conflitos costumam ser apresentados a partir das fontes oficiais das potências envolvidas, com destaque para as perdas de determinados países e pouca atenção às vítimas que vivem nos territórios atacados.
O historiador lembrou que a Guerra do Vietnã costuma ser recordada, no Ocidente, pela morte de cerca de 58 mil militares norte-americanos, enquanto a dimensão das mortes vietnamitas recebe menor atenção.
A questão, segundo ele, não é apenas o conteúdo publicado, mas quais vidas são transformadas em notícia, quais fontes recebem credibilidade e quais experiências permanecem quase invisíveis.
Ataques contra veículos e jornalistas
O quarto filtro é o contra-ataque dirigido a veículos, jornalistas ou organizações que publicam conteúdos contrários a determinados interesses políticos e econômicos.
Esse contra-ataque pode ocorrer por meio de processos judiciais, ameaças, campanhas coordenadas, retirada de patrocínio, pressão sobre anunciantes e ataques pessoais contra profissionais da comunicação.
As redes sociais ampliaram a velocidade e o alcance dessas ações. Perfis organizados conseguem enviar milhares de mensagens, promover boicotes e pressionar empresas a retirar publicidade de um programa ou veículo.
Aristides destacou que esse tipo de reação não surgiu com as plataformas digitais. A tecnologia tornou mais rápida uma prática existente há décadas.
No Brasil, ele citou a atuação do Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais e do Instituto Brasileiro de Ação Democrática no período anterior ao golpe de 1964. As duas organizações participaram da produção de materiais contra o governo João Goulart e do financiamento de campanhas políticas alinhadas aos interesses empresariais da época.
O pesquisador relacionou esse processo às atuais empresas de análise de dados e inteligência digital, contratadas por governos e corporações para reunir informações sobre indivíduos, territórios e grupos políticos.
O anticomunismo como instrumento de mobilização
O quinto filtro apresentado foi o anticomunismo. Aristides afirmou que o termo continua sendo utilizado para provocar medo e justificar perseguições políticas, mesmo quando não existe uma ameaça concreta de implantação de um sistema comunista.
“A palavra comunismo ainda hoje tem o poder de ameaçar proprietários de terras e empresários”, afirmou.
O discurso anticomunista também aparece em setores religiosos, campanhas eleitorais e conteúdos publicados nas redes sociais. Direitos trabalhistas, programas habitacionais, políticas de transferência de renda e serviços públicos são apresentados como ameaças à propriedade privada ou sinais de uma suposta transformação autoritária.
Aristides relatou uma lembrança transmitida por seu pai. Em comunidades do interior, padres colocavam objetos religiosos no chão e afirmavam que comunistas os desrespeitariam. A encenação servia para criar medo entre moradores que tinham pouco acesso a informações sobre o assunto.
Para ele, a estratégia permanece atual. Conceitos políticos complexos são reduzidos a imagens ameaçadoras, usadas para impedir o debate sobre desigualdade, concentração de renda e direitos sociais.
Algoritmos ampliam a segmentação
Reynaldo Aragon destacou que as grandes empresas de tecnologia passaram a exercer um papel decisivo na disputa pela percepção social. Plataformas controladas por corporações sediadas nos Estados Unidos utilizam algoritmos para selecionar os conteúdos exibidos a cada usuário.
Em vez de apresentar as mesmas informações para todas as pessoas, essas empresas conseguem organizar mensagens conforme idade, localização, hábitos de consumo, preferências políticas e comportamento registrado durante o uso das plataformas.
“São milhares de cálculos matemáticos numa microssegmentação da sociedade. Você consegue direcionar a sua notícia, a sua informação e o seu discurso para onde quer”, afirmou Aragon durante o programa.
O resultado é uma disputa desigual. Movimentos sociais, sindicatos e veículos independentes dependem de plataformas cujas regras são definidas por empresas privadas e podem ser alteradas sem debate público.
Mesmo quando um conteúdo alcança grande repercussão, a distribuição permanece condicionada aos critérios comerciais da plataforma. Publicações que geram medo, conflito ou indignação tendem a provocar mais reações e podem receber maior circulação.
Aristides avaliou que o domínio dos algoritmos continua relacionado ao dinheiro. Quem possui mais recursos consegue contratar profissionais especializados, desenvolver campanhas segmentadas e comprar publicidade em larga escala.
Extrema direita ocupa o debate cotidiano
Um dos pontos levantados pelo historiador foi a presença diária de dirigentes e influenciadores da extrema direita no noticiário. Declarações, conflitos internos, vídeos e provocações são reproduzidos continuamente por emissoras, portais e perfis nas redes sociais.
A repetição contribui para normalizar discursos autoritários. Declarações que inicialmente causariam rejeição passam a integrar a rotina informativa e deixam de provocar a mesma reação.
Aristides também criticou veículos progressistas que organizam sua programação a partir das pautas definidas por grandes empresas de comunicação. Ao reproduzir continuamente os assuntos escolhidos por emissoras comerciais, esses veículos acabam mantendo os mesmos personagens no centro da atenção pública.
“Os canais de esquerda também reproduzem a pauta da Globo e ficam debatendo as questões da extrema direita. É uma coisa imposta sem a gente perceber”, disse.
Para ele, a comunicação popular precisa construir pautas próprias, apresentar candidatos e lideranças progressistas e acompanhar de forma permanente as organizações que atuam nos territórios.
A ausência de sindicatos, movimentos sociais e representantes da esquerda no noticiário diário contribui para a impressão de que apenas a direita possui iniciativa política. Enquanto seus dirigentes aparecem durante todo o dia, lideranças progressistas costumam surgir em falas curtas ou em momentos de conflito.
Crise das instituições e avanço autoritário
Osmar de Sá Ponte Júnior acrescentou que a formação da opinião pública não pode ser compreendida apenas pela estrutura econômica dos veículos. Também precisa considerar as mudanças ocorridas nas relações sociais e na forma como os indivíduos interpretam a realidade.
Segundo ele, sindicatos, partidos políticos, governos e instituições públicas enfrentam uma crise de confiança. Muitas pessoas deixaram de acreditar em soluções coletivas e passaram a considerar a experiência individual como principal referência para interpretar o mundo.
Esse enfraquecimento dos vínculos facilita a expansão de grupos fechados, organizados por identidade política, religiosa ou cultural. Nesses espaços, as informações são aceitas conforme sua compatibilidade com as crenças do grupo, e não pela qualidade das evidências apresentadas.
“A narrativa do outro sempre aparece como irracional, desumana e ameaçadora”, afirmou Osmar.
Para o comentarista, a extrema direita se aproveita desse cenário ao apresentar instituições democráticas como corruptas, inúteis ou incapazes de resolver problemas sociais.
“A extrema direita precisa do caos e de uma desordem para impor sua própria perspectiva de ordem”, declarou.
Esse método esteve presente em experiências fascistas na Itália, na Alemanha e na Espanha. O enfraquecimento da confiança nas instituições foi utilizado para abrir espaço a lideranças que prometiam resolver rapidamente problemas complexos.
O medo também ocupa posição central nesse processo. Pessoas inseguras tornam-se mais vulneráveis a discursos que oferecem culpados definidos e soluções autoritárias.
A insegurança como experiência social
Osmar observou que a preocupação com a segurança pública não está relacionada apenas à presença de crimes ou à atuação policial. Ela também expressa uma sensação mais ampla de instabilidade.
Mudanças no mundo do trabalho, avanço da inteligência artificial, redução de postos de emprego e enfraquecimento das organizações coletivas contribuem para ampliar a insegurança.
Profissionais que antes se consideravam protegidos por sua formação passam a temer a substituição por sistemas automatizados. Trabalhadores submetidos a relações precárias encontram dificuldades para planejar o futuro.
Nesse ambiente, igrejas e comunidades religiosas podem oferecer pertencimento e respostas para questões que as instituições políticas não conseguem enfrentar.
Osmar citou uma reflexão de Karl Marx sobre a religião como “o coração de um mundo sem coração”. A frase foi usada para explicar por que pessoas expostas ao medo e ao abandono buscam espaços capazes de oferecer segurança emocional.
O comentarista ponderou que essa busca pode ser explorada por lideranças religiosas interessadas em transformar sofrimento social em apoio político ou vantagem financeira.
Comunicação popular enfrenta desigualdade estrutural
Durante a conversa, os participantes ressaltaram que os veículos populares disputam audiência com empresas que possuem recursos muito superiores.
Grandes emissoras mantêm programação durante todo o dia e nos fins de semana. Veículos independentes precisam conciliar produção jornalística, transmissão, edição, administração e busca por financiamento com equipes reduzidas.
A limitação interfere na capacidade de acompanhar acontecimentos, verificar informações e produzir conteúdos próprios. Sem correspondentes, sucursais ou equipes especializadas, o acesso a fontes internacionais também fica restrito.
Aristides citou a Atitude Popular, o Brasil 247 e o Instituto Conhecimento Liberta como experiências que procuram oferecer abordagens diferentes das grandes empresas de comunicação. Ainda assim, esses veículos enfrentam dificuldades para manter cobertura contínua e disputar a mesma quantidade de atenção.
A saída defendida pelo pesquisador passa pela diversificação das pautas. Em vez de organizar toda a programação a partir de conflitos produzidos pela extrema direita, a comunicação popular precisa acompanhar iniciativas comunitárias, sindicatos, movimentos sociais, cultura, educação e políticas públicas.
Tecnologia também pode ampliar o acesso ao conhecimento
Apesar das críticas aos algoritmos e às grandes plataformas, Aristides encerrou sua participação com uma avaliação otimista sobre algumas possibilidades abertas pelas novas tecnologias.
Ele mencionou a expansão dos audiolivros e das ferramentas capazes de transformar textos em áudio. Para o historiador, esses recursos podem aproximar jovens, adultos e idosos de obras literárias que antes exigiam tempo e condições específicas de leitura.
“Eu acho que nós vamos viver uma explosão de jovens, adultos e velhos lendo, ou escutando, as obras literárias atuais e clássicas”, afirmou.
A tecnologia, portanto, não possui um sentido político único. Pode ser utilizada para vigiar, segmentar e manipular, mas também pode ampliar o acesso à informação e ao conhecimento.
A disputa central está no controle das plataformas, nos interesses econômicos que orientam sua utilização e na capacidade das organizações sociais de construir meios próprios de comunicação.
O debate realizado no Democracia no Ar mostrou que a manipulação da opinião pública não ocorre por meio de uma única decisão ou de uma ordem centralizada. Ela se desenvolve na concentração empresarial, na dependência da publicidade, na seleção das fontes, nos ataques contra vozes críticas e na circulação de medos políticos.
Nas plataformas digitais, esses mecanismos encontram ferramentas capazes de analisar comportamentos individuais e entregar mensagens diferentes para cada pessoa. O desafio da comunicação popular envolve compreender esse funcionamento sem abandonar a produção cotidiana de informação, a formação crítica e a construção de pautas que não sejam determinadas pelos interesses das grandes corporações.
Referências
Manufacturing Consent: The Political Economy of the Mass Media, Edward S. Herman e Noam Chomsky, 1988
Manifesto do Partido Comunista, Karl Marx e Friedrich Engels, 1848
A ideologia alemã, Karl Marx e Friedrich Engels, escrita entre 1845 e 1846
Odisseia, Homero, data estimada entre os séculos VIII e VII a.C.
Ilíada, Homero, data estimada entre os séculos VIII e VII a.C.
Confissões, Santo Agostinho, aproximadamente 397 a 400
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