Cantor, compositor e produtor cultural apresenta livro que reúne 150 frases inspiradas em três discos fundamentais da música cearense lançados em 1976 e revisita cinco décadas de produção artística no Ceará
Da Redação
A relação entre memória, música e resistência marcou a edição de 25 de setembro do programa Café com Democracia, da Rádio e TV Atitude Popular, que recebeu o cantor, compositor e produtor cultural Calé Alencar. Em conversa com o apresentador Luiz Regadas, o artista falou sobre o livro Um Raimundo. Um berro. Uma alucinação. 50 anos em 150 frases, projeto que reúne reflexões construídas a partir de três discos lançados em 1976 por Raimundo Fagner, Ednardo e Belchior, ao mesmo tempo em que recupera parte de uma trajetória que chega a cinco décadas de atuação na música.
Calé explicou que a origem do trabalho está ligada às comemorações de seus 50 anos de carreira e ao interesse que desenvolveu, ao longo desse período, pela produção musical do Ceará. Sua primeira participação em um festival com músicas autorais ocorreu em 1975, quando ainda era estudante da Escola Técnica, atual Instituto Federal do Ceará (IFCE). Naquele período, também atuava em grupos de baile, até que o trabalho coletivo começou a se transformar em uma experiência autoral.
“Eu tô agora completando as comemorações de 50 anos de estrada, da música desde 1975, quando eu comecei participando de um festival de música promovido pelos alunos da escola técnica, hoje é o IFCE”, relatou.
A partir daquela experiência, Calé passou a acompanhar de perto artistas que inicialmente admirava como referências e que posteriormente se tornaram parceiros de trajetória. Ele citou compositores como Fausto Nilo, Petrúcio Maia e Rodger Rogério, além de outros nomes ligados à música cearense. Essa passagem da condição de admirador para a de parceiro aparece como um dos elementos que orientam sua compreensão sobre a música produzida no Estado.
O novo livro nasce também de uma pesquisa realizada pelo artista sobre a produção dos três discos que completam 50 anos em 2026. Calé contou que já havia desenvolvido trabalho semelhante em torno da obra de Fausto Nilo, em 2024, quando o compositor completou 80 anos. Para o novo projeto, selecionou frases relacionadas às letras das canções e procurou dar destaque também aos poetas e letristas que participaram daqueles trabalhos.
A preocupação com os autores das letras ocupa espaço importante em sua pesquisa. Segundo Calé, observar apenas os intérpretes ou compositores principais pode deixar de lado uma parcela significativa da construção das canções. Por isso, o livro procura recuperar nomes como Abel Silva, Fausto Nilo, Climério Ferreira e outros letristas associados às obras analisadas.
A escolha dos três discos também está relacionada ao contexto político e cultural em que foram lançados. Calé lembrou que 1976 estava inserido no período da ditadura militar brasileira e defendeu que aquelas canções não podem ser compreendidas apenas como manifestações estéticas ou produtos fonográficos. Para ele, parte daquela produção artística expressava uma leitura crítica do momento vivido pelo país.
“Essas canções que fazem parte desses discos, elas falam muito mais do que apenas poemas musicados. Falam muito mais do que canções para se ouvir, para se deleitar. Elas falam também de uma realidade que se vivia nesse período”, afirmou.
O compositor também relacionou sua própria formação artística ao ambiente político daquele período. Em 1975, ainda no início da carreira, participou de apresentações com a banda Fira Som e chegou a abrir, no Ginásio do Sesc, um show de Antônio Marcos e Vanusa. A experiência antecedeu uma trajetória que, segundo ele, passou a incorporar cada vez mais a produção autoral e a participação em movimentos culturais e sociais.
Ao falar sobre a presença dos artistas no debate público, Calé defendeu que a participação política dos profissionais da cultura não deveria ser dissociada de sua própria trajetória. Ele afirmou que sua atuação em movimentos ligados à democracia, à liberdade de expressão e aos direitos sociais acompanha sua carreira desde as décadas de 1970 e 1980.
“Eu acho que os artistas brasileiros daquela época, que ainda estão hoje, permanecem ainda conscientes da sua posição política, de apoio, sobretudo à democracia, aos direitos sociais”, declarou.
Durante a entrevista, Calé também fez uma avaliação política do cenário contemporâneo e mencionou o governo Lula, a situação internacional e o debate sobre soberania nacional. Essas considerações foram apresentadas pelo próprio artista como parte de sua leitura política sobre o momento atual. Ao estabelecer uma relação entre diferentes períodos históricos, ele afirmou que a defesa da democracia permanece associada à atuação de parte dos artistas brasileiros.
A conversa voltou diversas vezes para a música cearense e para a necessidade de preservar sua memória. Calé destacou que os três discos escolhidos para a homenagem representam, em sua avaliação, um momento decisivo de projeção nacional da produção artística do Ceará. As obras de Fagner, Ednardo e Belchior, segundo ele, combinavam referências internacionais, elementos da cultura nordestina e uma elaboração poética própria.
A influência dos Beatles, por exemplo, aparece na leitura que Calé faz daqueles trabalhos, mas não como uma simples reprodução da música estrangeira. Ele destacou a convivência entre essas referências e elementos como a literatura de cordel, a poesia, a tradição nordestina e a produção de letristas cearenses.
Para o artista, essa mistura de referências é própria do processo criativo. Ele contou que sua própria formação foi marcada pela bossa nova, especialmente pela obra de João Gilberto, descoberta ainda na infância por influência de sua mãe. Posteriormente, essas referências passaram a integrar suas próprias experiências musicais.
“Eu entendo que a gente tem que se identificar como artistas cearenses, mas não é só do Ceará que a gente precisa falar. A gente tem que ter uma visão também de mundo”, afirmou.
Essa perspectiva aparece também em sua defesa de uma produção cultural que não se limite ao mercado local, mas que dialogue com diferentes experiências culturais e políticas. Calé afirmou que as referências externas podem alimentar a criação artística sem eliminar a identidade regional.
Outro ponto discutido foi a presença da música cearense nas rádios e nos espaços culturais. Questionado sobre a dificuldade de encontrar produção local na programação radiofônica, Calé relacionou o problema à transformação da música em mercadoria e à lógica de funcionamento da indústria cultural.
Segundo ele, a concentração da divulgação em produtos considerados mais fáceis de comercializar dificulta a circulação de trabalhos que exigem maior atenção do público. Nesse cenário, a atividade dos artistas passa a ser também uma forma de permanência e insistência.
“A nossa vida como artista é também uma questão de resistência, de insistência, de tá ali sempre atuando para trazer um trabalho de mais qualidade e com referências”, disse.
Calé apontou ainda a importância de equipamentos culturais que oferecem espaço para artistas locais. Entre os exemplos citados estão o BNB Cultural, a Estação das Artes e o Centro Cultural Belchior. Para ele, esses espaços ajudam a criar alternativas para uma produção que não depende exclusivamente da lógica comercial das emissoras e da indústria fonográfica.
A ocupação dos espaços públicos também apareceu na conversa. Calé citou o movimento Choruminho, realizado na Praça da Bandeira, como exemplo de iniciativa surgida da própria articulação entre músicos. Para o compositor, encontros desse tipo ultrapassam a apresentação musical porque também criam espaços de convivência, troca de experiências e formação de novos projetos.
Ele defendeu que iniciativas culturais espontâneas recebam apoio do poder público e de empresas privadas, destacando que a cultura também contribui para a recuperação e a utilização dos espaços públicos da cidade. Na avaliação apresentada durante a entrevista, encontros musicais como o da Praça da Bandeira ajudam a recuperar uma tradição de Fortaleza ligada ao choro e à convivência entre artistas.
O lançamento de Um Raimundo. Um berro. Uma alucinação. 50 anos em 150 frases está marcado para 1º de outubro, no BNB Cultural, no Centro de Fortaleza. A programação começa às 19h com uma roda de conversa com Calé Alencar, Edmar Gonçalves e Iane Caracas. Às 20h, será realizado o show que leva o mesmo nome do livro.
O projeto integra a chamada Ocupação 50, criada por Calé para marcar suas cinco décadas de trajetória musical. A apresentação reunirá ainda Allan Kardec, Ricardo Pinheiro, Romealdo Filho e Robson dos Teclados, em uma homenagem aos trabalhos de Fagner, Ednardo e Belchior lançados em 1976.
O artista explicou que a programação procura unir pesquisa, memória e apresentação musical. O livro, segundo ele, nasceu da investigação sobre as letras e os contextos dos três discos e procura recuperar não apenas as canções que se tornaram conhecidas, mas também os autores que contribuíram para sua construção.
“Eu vou ter a oportunidade também de estar lançando esse livro de pesquisa sobre textos incluídos nesses três discos que a gente tá homenageando”, afirmou ao final da entrevista.
O lançamento terá entrada gratuita, mas, conforme informado durante o programa, haverá limite de público no espaço do BNB Cultural. Calé encerrou sua participação convidando o público para acompanhar a programação e situando o lançamento como parte de um ciclo maior de celebração de seus 50 anos de música.
Referências
Um Raimundo. Um berro. Uma alucinação. 50 anos em 150 frases
Calé Alencar, 2026
Raimundo Fagner
Raimundo Fagner, 1976
Berro
Ednardo, 1976
Alucinação
Belchior, 1976
Artistas citados na entrevista: Calé Alencar, Raimundo Fagner, Ednardo, Belchior, Fausto Nilo, Petrúcio Maia, Rodger Rogério, Edmar Gonçalves, Iane Caracas, Abel Silva, Climério Ferreira, Roberto Aurélio, Capinã, João Gilberto, Antônio Marcos, Vanusa, Allan Kardec, Ricardo Pinheiro, Romealdo Filho, Robson dos Teclados, Luizinho Calisto e Luís José.
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