“A palma da mão é só uma armadilha para trazer as pessoas para a economia solidária”

Tecnologia desenvolvida pelo Banco Palmas e pelo Instituto E-dinheiro permite pagamentos por biometria vascular, amplia a inclusão financeira e deve chegar aos bancos comunitários de todo o país

Da Redação

A economia solidária brasileira deu mais um passo na incorporação de tecnologias voltadas à inclusão financeira. Durante o programa Bancos da Democracia, representantes do Banco Palmas, do Instituto E-dinheiro Brasil e do Projeto Promover apresentaram uma nova solução de pagamento baseada na biometria da palma da mão, tecnologia que dispensa cartões, senhas e aparelhos celulares e já foi testada com sucesso durante a 32ª Feira Internacional do Cooperativismo (FEICOOP), em Santa Maria (RS).

A inovação foi desenvolvida pelo Banco Palmas em parceria com a plataforma E-dinheiro e busca facilitar o uso das moedas sociais, ampliar a acessibilidade aos serviços financeiros e reduzir custos operacionais dos bancos comunitários. O debate reuniu Raphael Dantas, integrante da equipe de Tecnologia da Informação do Instituto E-dinheiro Brasil, Homero Boucinha, do Projeto Promover da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), e Fabiana Saccol Pinto, feirante da Cooesperança.

Raphael Dantas explicou que a tecnologia nasceu da observação de problemas enfrentados diariamente pelos usuários das moedas sociais.

“Desde que entrei no Instituto E-dinheiro, a gente vem tentando melhorar essa tecnologia que está por trás das moedas sociais.”

Segundo ele, um dos principais desafios era eliminar dificuldades provocadas pelo uso de cartões físicos, que podem ser perdidos, clonados ou gerar elevados custos de emissão e reposição.

A solução encontrada utiliza uma câmera capaz de fotografar a palma da mão e registrar não apenas sua aparência externa, mas principalmente o padrão dos vasos sanguíneos por meio de um sensor infravermelho.

“A câmera tira uma foto da palma da mão e outra da vida da mão.”

O sistema identifica a circulação sanguínea e constrói uma matriz biométrica única para cada pessoa. Como o reconhecimento depende da circulação da hemoglobina, o equipamento também impede fraudes utilizando moldes, próteses ou reproduções artificiais.

Raphael destacou que o método supera limitações presentes em outras formas de biometria.

“A digital atende, mas não atende a todas as pessoas.”

Ele lembrou que muitos trabalhadores perdem parcialmente suas impressões digitais em razão da atividade profissional ou de doenças, enquanto sistemas de reconhecimento facial ainda apresentam dificuldades em determinados grupos populacionais.

A escolha da palma da mão surgiu justamente da busca por uma tecnologia mais inclusiva.

Além da segurança, outro diferencial apontado pelo desenvolvedor é a simplicidade do processo de pagamento. Basta aproximar a mão do equipamento para que a autenticação seja realizada em poucos segundos, sem necessidade de digitar senhas ou portar documentos.

Segundo Raphael, a tecnologia pode ser especialmente útil em situações de emergência.

“Ela só precisaria da mão dela. Nem a senha é necessária.”

Ele citou, como exemplo, famílias atingidas por enchentes ou desastres naturais que perdem documentos, cartões e celulares, mas continuam aptas a acessar benefícios sociais utilizando apenas a biometria da palma da mão.

Durante a entrevista, Raphael também explicou que o sistema foi desenvolvido com software próprio do Instituto E-dinheiro e que todos os dados biométricos permanecem criptografados.

Atualmente, parte do equipamento ainda é produzida no exterior, mas a equipe trabalha para nacionalizar a fabricação, reduzindo significativamente os custos.

Hoje, segundo ele, cada dispositivo custa entre R$ 1 mil e R$ 2 mil, valor que poderá cair praticamente pela metade quando toda a produção passar a ocorrer no Brasil.

O desenvolvedor ressaltou que a proposta não pretende apenas inovar tecnologicamente.

“A palma da mão é só uma armadilha para trazer as pessoas para a economia solidária.”

Segundo Raphael, a curiosidade despertada pela tecnologia funciona como porta de entrada para que mais pessoas conheçam as moedas sociais, os bancos comunitários e os princípios da economia solidária.

Ele afirmou que o objetivo não é substituir as relações humanas por equipamentos, mas justamente fortalecer o contato entre as pessoas.

“Quando a gente não está com o celular na mão, a gente tem oportunidade de olhar no olho das pessoas.”

A experiência prática foi relatada por Fabiana Saccol Pinto, participante da FEICOOP. Segundo ela, aproximadamente 20% das vendas realizadas em seu estande foram pagas utilizando a nova tecnologia.

Ela destacou a rapidez da autenticação e contou que até sua filha passou a incentivar os visitantes da feira a realizarem o cadastro para experimentar o sistema.

“A leitura é muito rápida.”

Fabiana afirmou que a aceitação do público superou as expectativas e acredita que a tecnologia deverá estar presente nas próximas edições da feira.

Homero Boucinha também avaliou positivamente a experiência e afirmou que o equipamento representa um avanço importante para os bancos comunitários.

Segundo ele, trata-se de uma tecnologia sofisticada, mas construída com foco na simplicidade e na inclusão.

“A alta tecnologia é exatamente isso: pegar uma parte do corpo humano e transformá-la na própria tecnologia.”

Para Homero, o diferencial não está apenas na inovação técnica, mas na forma como ela é apropriada pela economia solidária, utilizando software livre, reduzindo custos e colocando o ser humano no centro do processo.

Ele explicou que a experiência realizada durante a FEICOOP faz parte da preparação para a implantação da moeda social Promover em Santa Maria, prevista para 2027.

Raphael Dantas informou ainda que a tecnologia já está em operação em empreendimentos vinculados ao Banco Palmas e pode ser disponibilizada para qualquer banco comunitário integrante da Rede Brasileira de Bancos Comunitários.

Segundo ele, a expansão ocorrerá de maneira gradual e colaborativa.

“Qualquer banco comunitário pode ter acesso a essa tecnologia.”

O desenvolvedor destacou que a plataforma E-dinheiro atua como organização sem fins lucrativos e busca investimentos para ampliar o acesso aos equipamentos, especialmente entre os bancos comunitários de menor porte.

Ao encerrar o debate, os participantes defenderam que inovação tecnológica e inclusão social não precisam caminhar em direções opostas. Pelo contrário, afirmaram que a tecnologia pode fortalecer a economia solidária quando é construída para resolver problemas concretos da população e ampliar o acesso aos serviços financeiros.

Referências

Nenhum livro, filme, série ou obra artística foi citado durante a entrevista.


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