Candidato à reeleição, deputado defende continuidade do projeto político liderado por Elmano, Lula e Cid e aponta educação, saúde e combate à fome como demonstrações da capacidade do Estado de reduzir desigualdades
Da Redação
“A política é a principal ferramenta para transformar essa realidade extremamente desigual e injusta.” A afirmação do deputado estadual Salmito, candidato à reeleição pelo PSB, orientou a entrevista concedida ao programa Eleições 2026 em Debate.
Realizado pela Atitude Popular e pelo Coletivo das Estatais e do Serviço Público do Ceará, com apoio do Sindipetro CE/PI, o programa é apresentado por Sousa Júnior. A edição também contou com a participação do professor da Universidade Federal do Ceará Osmar de Sá Ponte, doutor em Sociologia, presidente do PSB em Fortaleza e comentarista da Atitude Popular.
Durante a conversa, Salmito relacionou sua trajetória familiar à defesa das políticas públicas e apresentou as eleições de 2026 como uma disputa pela continuidade de um projeto estadual baseado na educação, na saúde, no desenvolvimento econômico e no combate à fome.
O deputado também defendeu a candidatura do Presidente Lula, a reeleição do governador Elmano de Freitas e a permanência de Cid Gomes no Senado. Para ele, essa composição representa a continuidade de políticas iniciadas no Ceará e posteriormente ampliadas em âmbito nacional.
A fome como origem da formação política
Salmito começou a entrevista falando sobre a influência do pai em sua formação. Padre no município de Senador Pompeu, no Sertão Central, ele encontrou uma população submetida à fome e à falta de acesso a serviços públicos.
A experiência mostrou que a privação de alimentos não poderia ser explicada somente pelas dificuldades climáticas ou por uma eventual ausência de produção. Existia comida, mas parte da população não tinha renda nem condições de acessá-la.
“Não era fome porque faltava comida produzida. Era fome porque tinha comida produzida, mas as pessoas não tinham acesso àquela comida”, afirmou Salmito.
Segundo o deputado, seu pai inicialmente procurou atender as famílias por meio de doações. Com o tempo, percebeu que a assistência imediata não modificaria as condições responsáveis pela pobreza. A fome precisava ser compreendida como resultado de uma organização econômica e política desigual.
A atuação pastoral passou então a incorporar alfabetização, formação política e organização comunitária. Jovens voluntários ajudavam a formar núcleos nos bairros pobres, enquanto trabalhadores rurais e bordadeiras começaram a construir entidades próprias.
“Ele foi percebendo que aquilo fazia parte de um problema social. Era uma desigualdade brutal, uma injustiça”, contou.
A defesa da organização popular fez com que o padre fosse chamado de comunista por setores conservadores da cidade. Salmito relatou que o pai respondia às críticas afirmando que a justiça social fazia parte da própria fé cristã.
“O reino de Deus é o reino da justiça, da paz e do amor. Numa realidade extremamente desigual e injusta, aquilo não era cristão”, recordou.
A ligação com José Genoino
Entre os jovens que participaram das atividades em Senador Pompeu estava José Genoino, que mais tarde se tornaria deputado federal e presidente nacional do PT.
Nascido em uma comunidade rural de Quixeramobim, Genoino mudou-se para Senador Pompeu para continuar os estudos. Após a morte da tia com quem morava, foi acolhido na casa paroquial e recebeu apoio para frequentar uma escola mantida por religiosas.
De acordo com Salmito, a formação comunitária ajudou Genoino a compreender que a pobreza vivida por sua família não era um caso isolado.
“Ele percebeu que não era só a família dele que vivia numa situação de extrema injustiça. Existiam milhares, milhões de famílias no Brasil e no mundo vítimas de uma desigualdade brutal”, afirmou.
Ainda jovem, Genoino participou das atividades de alfabetização política e organização comunitária. Depois, mudou-se para Fortaleza, ingressou no movimento estudantil e iniciou a trajetória que o levaria à militância nacional.
Para Salmito, a convivência do pai com Genoino demonstrava como educação e organização política podiam modificar o percurso de uma pessoa e de sua comunidade.
Democracia aprendida dentro de casa
Após pedir licença das funções sacerdotais, o pai de Salmito mudou-se para Fortaleza, tornou-se professor universitário e constituiu família. O deputado disse que a democracia fazia parte das decisões cotidianas da casa.
Até a escolha de um restaurante para um almoço familiar era submetida à votação entre os pais e os filhos.
“Não era o que meu pai queria ou o que minha mãe queria. Era o que a maioria de nós cinco escolhia”, contou.
A experiência familiar foi posteriormente ampliada no Colégio Cearense, onde Salmito participou do grêmio estudantil. O envolvimento com a organização dos alunos o aproximou da militância secundarista e, depois, do movimento universitário.
Ele cursou Ciências Sociais e passou a estudar políticas públicas, Estado e desenvolvimento. Em 1993, filiou-se ao PT, partido no qual iniciou sua atuação eleitoral.
“Ingressei na militância política não para ser candidato, mas para dar a minha contribuição como cidadão e sujeito da história”, afirmou.
A experiência em Londres
Salmito também atribuiu sua decisão de disputar um mandato à temporada em que viveu e estudou em Londres. Na capital britânica, conheceu políticas públicas de moradia, educação, transporte e saúde desenvolvidas no contexto do Estado de bem-estar social.
A experiência mostrou que o poder público poderia garantir condições materiais para que jovens deixassem a casa dos pais, prosseguissem nos estudos e organizassem a própria vida.
“Eu vi como é possível outra realidade. Não é perfeita, está longe de ser, mas vi o papel do poder público e das políticas de educação, saúde, transporte coletivo e moradia”, declarou.
Ao retornar a Fortaleza em 2000, decidiu preparar uma candidatura à Câmara Municipal. Foi eleito vereador pela primeira vez em 2004.
Salmito cumpriu quatro mandatos como vereador e presidiu a Câmara Municipal de Fortaleza em três períodos. Também foi secretário municipal do Turismo, secretário do Desenvolvimento Econômico do Ceará e chegou à Assembleia Legislativa, onde exerce seu segundo mandato.
Agora filiado ao PSB, apresenta-se para uma nova disputa eleitoral. “Vamos prestar contas do nosso trabalho e apresentar a proposta de continuar essa luta”, disse.
“Utopia praticada”
Osmar de Sá Ponte definiu a trajetória de Salmito com a expressão “utopia praticada”. Para o professor, o deputado transformou a influência religiosa e familiar em compromisso concreto com a redução das desigualdades.
“O sentido da vida era a solidariedade. Se você observar a trajetória do Salmito, todos os projetos nos quais ele se envolveu tiveram uma finalidade social”, afirmou Osmar.
O professor citou a passagem de Salmito pela Secretaria do Desenvolvimento Econômico, na qual o desafio era gerar trabalho em um período de juros elevados e dificuldades na economia nacional.
Segundo Osmar, a democracia não pode ser reduzida à liberdade de manifestação ou à alternância eleitoral. Sua realização depende do enfrentamento das desigualdades que impedem milhões de pessoas de acessar direitos e oportunidades.
“Só pode existir democracia quando a gente diminui drasticamente as desigualdades sociais”, declarou.
As diferenças de pensamento, opção política e visão de mundo devem ser preservadas, acrescentou. O que não pode ser naturalizado é a desigualdade material que condena parte da sociedade à ausência de educação, saúde, moradia e trabalho.
Educação como transformação
Ao analisar as prioridades do Ceará, Salmito dedicou parte significativa da entrevista aos avanços educacionais iniciados em Sobral e ampliados para o estado durante os governos de Cid Gomes e Camilo Santana.
Para o deputado, a educação pública é a política com maior capacidade de modificar a vida de uma pessoa e de interromper a reprodução das desigualdades entre gerações.
“Existe algo mais libertador, transformador e redentor do que a educação na vida de uma pessoa e de uma comunidade?”, questionou.
Salmito destacou a decisão de Cid, quando prefeito de Sobral, de estabelecer metas, acompanhar resultados e organizar a cooperação entre gestores, professores e escolas. Ao assumir o governo estadual, Cid levou parte dessa experiência aos demais municípios, com a participação da então secretária da Educação, Izolda Cela.
O deputado ressaltou que os municípios possuem autonomia administrativa. Por isso, a expansão do modelo exigiu instrumentos de cooperação entre o governo estadual e as prefeituras, incluindo aquelas comandadas por adversários políticos.
“O governador não pode se intrometer e simplesmente determinar o que o prefeito deve fazer. Foi criada uma política de governança interfederativa para estimular os municípios a alcançar melhores resultados”, explicou.
Camilo Santana, segundo Salmito, assegurou a continuidade e a expansão dessas políticas. Como ministro da Educação, passou a utilizar a experiência cearense como referência para programas nacionais do terceiro governo do Presidente Lula.
Ceará celebra na educação o resultado esperado no futebol
Sousa Júnior lembrou que o Ceará passou a reunir as escolas públicas mais bem avaliadas do país. Salmito comparou o resultado a uma situação hipotética em que clubes cearenses ocupassem as primeiras posições do futebol nacional.
“Imagine se Ceará, Fortaleza, Ferroviário, Icasa e os demais times cearenses fossem os melhores do Brasil. As ruas estariam tomadas por comemorações. Ainda não temos isso no futebol profissional, mas temos na educação”, afirmou.
Para ele, a conquista educacional merece reconhecimento por atingir diretamente crianças que dependem da escola pública.
“Um pai e uma mãe não precisam ter estudo para compreender que a educação muda e transforma a vida do filho e da filha”, acrescentou.
O deputado evitou atribuir os resultados a uma única liderança. Embora tenha destacado o papel exercido por Cid, Camilo e Izolda, ressaltou que políticas públicas dependem do trabalho de professores, coordenadores, servidores e gestores municipais.
“Ninguém faz nada sozinho. Não é para endeusar uma figura nem criar personalismo”, disse.
Saúde e interiorização do atendimento
Salmito relacionou o avanço educacional à expansão da rede estadual de saúde. Ele lembrou que, durante décadas, moradores do interior precisavam viajar para Fortaleza em busca de procedimentos de alta complexidade.
Como exemplo, citou o próprio avô, que deixou Piquet Carneiro em uma ambulância para receber atendimento na capital por não existir um hospital de alta complexidade no Sertão Central.
“Quantos irmãos e irmãs cearenses morreram dentro de uma ambulância porque não havia um hospital de alta complexidade no Cariri, na região Norte, no Sertão Central ou nos Sertões de Crateús?”, questionou.
A implantação de hospitais regionais, iniciada durante a gestão de Cid e ampliada nos governos seguintes, reduziu a dependência da capital. Salmito destacou ainda o novo Hospital Universitário do Ceará, vinculado à Universidade Estadual do Ceará, como parte dessa ampliação da rede.
Na avaliação do deputado, a continuidade administrativa é indispensável para transformar programas de governo em políticas de Estado.
“Se chega um governante que desmonta, desmonta mesmo. Camilo garantiu essa conquista, que não pertence a uma pessoa. É uma conquista da população cearense, principalmente de quem mais precisa”, afirmou.
Combate à fome e dignidade
Salmito também tratou da fome como questão permanente na formação social do Ceará. Recordou a seca iniciada em 1877, período em que uma parcela expressiva da população cearense morreu ou foi obrigada a migrar.
O deputado relatou a história de uma família que deixou Barbalha em direção ao Maranhão durante uma estiagem. No caminho, uma mulher morreu e foi sepultada de maneira improvisada.
Essas experiências, segundo ele, mostram por que o combate à fome precisa ser entendido como dever do Estado, não como caridade ocasional.
“A política pública social que traz dignidade é ética na política”, declarou.
Salmito destacou o Bolsa Família e o Ceará sem Fome como instrumentos que protegem famílias submetidas à pobreza e à insegurança alimentar. Rejeitou a acusação de que beneficiários de programas de transferência de renda não querem trabalhar.
Para contestar o preconceito, contou a história de Benedito, morador de uma comunidade rural cuja família recebia o Bolsa Família. Mesmo beneficiado pelo programa, ele procurou Salmito para pedir ajuda na busca por um emprego.
“Às vezes, se a gente não tiver cuidado, repete a maldade de dizer que quem recebe o Bolsa Família não quer trabalhar. Pode existir um caso ou outro, mas isso é exceção”, afirmou.
Segundo o parlamentar, a transferência de renda garante condições mínimas de sobrevivência para famílias que perderam a produção agrícola ou não encontram trabalho. Ao mesmo tempo, preserva a frequência escolar e o acompanhamento da vacinação de crianças e adolescentes.
De Fortaleza para o Pronatec
Salmito recordou ainda uma iniciativa apresentada quando exercia mandato de vereador em Fortaleza. A proposta era oferecer formação profissional e apoio ao empreendedorismo para mulheres beneficiárias do Bolsa Família.
A então prefeita Luizianne Lins acolheu a sugestão e colocou o programa sob a responsabilidade da estrutura municipal de assistência social.
“Eu disse: ‘Prefeita, vamos oferecer capacitação profissional e estimular o empreendedorismo feminino entre as mães que recebem o Bolsa Família’. Ela achou a ideia muito boa”, contou.
Na avaliação do deputado, a experiência desenvolvida em Fortaleza contribuiu para as políticas de formação profissional posteriormente consolidadas em âmbito nacional pelo Pronatec.
O exemplo foi usado para sustentar que programas de transferência de renda e qualificação não são excludentes. A garantia de uma renda mínima pode criar condições para que as pessoas estudem, procurem trabalho e iniciem atividades produtivas.
O projeto político de 2026
No debate eleitoral, Salmito apresentou o campo liderado pelo Presidente Lula, Elmano de Freitas e Cid Gomes como responsável pela continuidade das políticas sociais implementadas no Ceará.
O deputado defendeu a reeleição do governador Elmano e do Presidente Lula, além da permanência de Cid no Senado. Para ele, os resultados alcançados pela educação pública mostram a diferença entre projetos políticos.
Salmito afirmou que ser de esquerda significa rejeitar a naturalização das desigualdades e colocar a vida humana no centro das decisões públicas.
“Ser de esquerda é não se contentar com o estado atual das coisas. É ser humanista, transformar e colocar em primeiro lugar o ser humano”, declarou.
O deputado diferenciou o conservadorismo democrático da extrema direita autoritária. Segundo ele, uma pessoa pode militar na direita e defender posições conservadoras sem recorrer à intolerância ou negar a legitimidade dos adversários.
“Ser conservador ou ser de direita não significa ser fascista, autoritário, antidemocrático ou estimular o ódio”, afirmou.
Para Salmito, o crescimento da extrema direita representa uma negação da política porque substitui o confronto entre projetos por ataques pessoais, desinformação e hostilidade às instituições democráticas.
Crítica à aproximação de Ciro com a direita
Ao final da entrevista, o deputado criticou a aproximação de Ciro Gomes com setores bolsonaristas no Ceará. Salmito disse lamentar a mudança de posição do ex-governador, que anteriormente reconhecia os resultados das gestões de Camilo Santana.
“Eu lamento muito o movimento que o Ciro fez e está fazendo”, declarou.
Salmito contestou o argumento de que Ciro não teria mudado de lado. Segundo ele, a política não pode ser organizada em torno da vontade individual de uma liderança.
“Não é como se o lado fosse ‘eu’. Não existe ‘o Estado sou eu’ ou ‘a política sou eu’. Nós temos que ter lado, temos que ter um campo”, disse.
O candidato à reeleição afirmou que permanecerá no campo progressista e defenderá a continuidade das políticas públicas construídas nos últimos anos.
Democratização da comunicação
No encerramento, Sousa Júnior entregou a Salmito uma plataforma elaborada pelo Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação. O documento reúne 20 propostas destinadas aos candidatos das eleições de 2026.
Entre os temas estão a desconcentração da radiodifusão, a regulação democrática das plataformas digitais e a criação de instrumentos de participação social nas políticas de comunicação.
Sousa pediu que o deputado analise as propostas e avalie quais iniciativas poderão ser apresentadas em um novo mandato.
Salmito recebeu o documento durante o programa. A entrega vinculou o debate sobre políticas públicas a outra desigualdade abordada pela edição: a concentração dos meios responsáveis por organizar a circulação de informações e a disputa eleitoral.
Referências
A política como vocação | Max Weber | 1919
O mito do desenvolvimento econômico | Celso Furtado | 1974
Segundo tratado sobre o governo civil | John Locke | 1689
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