Convidados do Bancos da Democracia explicam como a pesquisa-ação do Programa Paul Singer ajuda a mapear territórios, fortalecer empreendimentos e formular políticas públicas para a economia popular e solidária
O programa Bancos da Democracia, da Rádio e TV Atitude Popular, debateu nesta segunda-feira, 6 de abril, a importância da pesquisa-ação dentro do Programa de Formação Paul Singer – Agentes de Economia Popular e Solidária, iniciativa do Ministério do Trabalho e Emprego, por meio da Secretaria Nacional de Economia Popular e Solidária. A entrevista reuniu Aldenise Coelho, coordenadora do programa em Pernambuco, André Mombach, coordenador no Rio Grande do Sul, e Eliane Martins, do Núcleo de Formação da SENAES/MTE, em uma conversa sobre formação territorial, leitura da realidade e construção de políticas públicas a partir da base.
Ao longo do debate, os convidados mostraram que o programa não se limita a oferecer capacitação técnica. Sua proposta combina formação e atuação concreta nos territórios, com agentes que dialogam diretamente com grupos, redes e empreendimentos para identificar problemas, reconhecer potencialidades e construir soluções coletivas. Em vez de uma política desenhada de cima para baixo, o objetivo é fazer com que a realidade dos trabalhadores organize a formulação das ações do Estado.
Eliane Martins explicou que o Programa Paul Singer surgiu em um contexto de reconstrução. Segundo ela, ao retomar a estrutura da economia solidária no governo Lula 3, a equipe encontrou um cenário de desmonte institucional e de forte fragilização social, depois de anos de descontinuidade e abandono das políticas públicas voltadas ao setor.
“A saída não é pelo capitalismo brutal, a saída é por uma outra lógica”, afirmou. Para Eliane, falar de economia solidária é disputar um projeto econômico alternativo ao modelo dominante. “Quando a gente fala de economia solidária, de retomar programas e políticas, nós estamos falando de fortalecer a organização econômica dos trabalhadores”, disse.
A representante da SENAES destacou que a pesquisa-ação foi escolhida justamente porque permite fazer uma leitura viva da realidade. Em vez de tratar os territórios apenas como fonte de dados, o método busca envolver os próprios sujeitos na análise crítica de sua situação. Nessa perspectiva, o levantamento de informações não é um fim em si mesmo, mas o ponto de partida para organizar respostas coletivas.
“A pesquisação é um método de leitura da realidade”, resumiu. Ela explicou que o programa traduziu esse método para o universo da economia popular e solidária, estruturando a observação em quatro grandes eixos: produção e relações de produção, comercialização e finanças solidárias, saúde dos trabalhadores e necessidades de formação e assessoramento técnico.
A partir desses eixos, os agentes territoriais são estimulados a acompanhar os grupos, registrar demandas, identificar desafios e construir, junto com os empreendimentos, planos de ação. Segundo Eliane, a intenção é fazer com que a política pública nasça daquilo que a realidade “grita”, e não de decisões burocráticas desconectadas do cotidiano.
“Toda essa energia, todo esse esforço é fazer esse movimento para dentro do governo, criando subsídio para essa elaboração e, no sentido da base, contribuir para rearticular e fortalecer o povo da economia solidária”, afirmou.
Aldenise Coelho, coordenadora do programa em Pernambuco, reforçou que a pesquisa-ação não pode ser confundida com uma simples coleta de dados. Para ela, o diferencial está justamente no caráter pedagógico e transformador do processo. Os agentes não chegam aos grupos apenas para preencher formulários: eles constroem uma relação de escuta, formação e organização.
“A gente não vai só pegar dados; a gente pega dados para fazer uma reflexão coletiva sobre essas questões e agir”, explicou. “Pesquisa, reflexão, ação”, resumiu.
Aldenise lembrou que sua própria trajetória vem da educação popular em economia solidária e que essa experiência anterior ajuda a compreender a potência do método. Em Pernambuco, disse ela, os agentes têm encontrado grupos desconfiados, marcados por anos de abandono institucional e descrédito em relação às políticas públicas. Nesse cenário, a presença continuada nos territórios e a construção coletiva de diagnósticos se tornam fundamentais para restabelecer laços e abrir perspectivas.
Ela observou que muitos empreendimentos inicialmente viam a ação apenas como mais uma tentativa de transformá-los em estatística. Mas, à medida que o trabalho avança, os grupos passam a perceber que o processo pode ajudá-los a reconhecer suas dificuldades, organizar prioridades e pensar caminhos concretos de fortalecimento.
“Não é apenas coleta de dados, é uma realidade de transformação, porque tem como mote a educação popular”, afirmou.
André Mombach, coordenador do programa no Rio Grande do Sul, trouxe para a conversa a experiência de um estado atravessado, além da precarização econômica geral, por um trauma climático recente. Ele relatou que a implementação do programa no território gaúcho exigiu um grande esforço de leitura da realidade, especialmente depois das enchentes de 2024, que afetaram comunidades, redes produtivas e vínculos coletivos.
Segundo André, o trabalho com os agentes começou por uma leitura das próprias forças disponíveis: a distribuição territorial da equipe, suas capacidades e a diversidade de experiências presentes na economia solidária. A partir daí, foram organizados núcleos territoriais, com o objetivo de estimular colaboração entre os agentes e aprofundar o conhecimento sobre os territórios.
“A gente partiu de um conceito de nucleação desses agentes para trabalhar centralmente a colaboração entre eles e não a individualização”, explicou.
No caso do Rio Grande do Sul, a pesquisa-ação permitiu incorporar ao campo da economia solidária experiências que muitas vezes permaneciam dispersas, como empreendimentos ligados à saúde mental, cooperativas de plataforma e novas formas de organização do trabalho a partir de aplicativos. Também ajudou a ampliar o debate sobre redes de cooperação, reciclagem, agricultura familiar, bancos comunitários e outras iniciativas.
“A economia solidária é uma base de organização da vida como um todo”, disse André.
Questionado sobre os impactos subjetivos e coletivos das enchentes, ele afirmou que o tema das mudanças climáticas passou a atravessar fortemente o trabalho do programa. Não apenas porque muitos empreendimentos ainda tentam reconstruir sua capacidade produtiva, mas porque o trauma permanece presente no cotidiano das pessoas, especialmente nas regiões mais pobres e periféricas, onde a economia solidária tem forte presença.
“Tem o tema todo da depressão, da angústia, dos medos, que estão muito presentes ainda na realidade da vida das trabalhadoras e trabalhadores da economia solidária”, afirmou.
Para ele, esse quadro exige mais do que ações emergenciais. É preciso pensar alternativas produtivas, fortalecer infraestruturas locais, aproximar a economia solidária da agroecologia e buscar inovações sociotécnicas que permitam respostas mais sustentáveis. Nesse sentido, a pesquisa-ação também ajuda a deslocar a discussão para o campo do planejamento, da reconstrução e da incidência política.
Ao tratar da transformação dos dados em política pública, Eliane Martins explicou que o programa possui uma estrutura tecnológica própria, baseada em software livre, para reunir e processar as informações geradas nos territórios. Mas ressaltou que o trabalho não se esgota na plataforma: há uma equipe de sistematização que interpreta os dados à luz de uma leitura política e pedagógica.
Segundo ela, o desafio não é apenas saber “como está” a realidade, mas também identificar “para onde” os grupos querem ir. Esse ponto é decisivo para que a pesquisa não vire um mero inventário da precariedade.
“Se nós não introduzir também o desejo, a perspectiva de enxergar o sonho, nós ficamos apenas no choro da realidade”, observou.
É desse esforço que surgem os planos de ação, que ajudam a separar demandas, identificar prioridades e distinguir aquilo que depende diretamente da organização dos trabalhadores do que exige políticas públicas de fomento, assessoramento técnico ou acesso a mercados. Para Eliane, essa dimensão é central porque recoloca nas mãos da classe trabalhadora algo que o neoliberalismo tenta sequestrar: a capacidade de planejar o futuro.
“A classe trabalhadora está sendo obrigada a viver um dia de cada vez, na sobrevivência. Essa lógica tira de nós a possibilidade de enxergar como queremos construir o nosso futuro”, afirmou.
Ao fim da entrevista, os convidados convergiram na avaliação de que o Programa Paul Singer é mais que uma política de formação. Trata-se de uma ferramenta de reconstrução de vínculos, rearticulação de redes, retomada da incidência política e fortalecimento de um campo econômico que resiste à precarização, à lógica da concorrência absoluta e à despolitização do trabalho.
A economia solidária aparece, assim, não como um nicho ou uma curiosidade local, mas como uma prática social que articula produção, cooperação, formação, cultura, alimentação, finanças solidárias e organização territorial. Nesse processo, a pesquisa-ação funciona como método e como horizonte: ajuda a compreender a realidade, mas também a transformá-la.
Referências mencionadas
- Paul Singer, economista e formulador histórico da economia solidária no Brasil
- Paulo Freire, educador e pensador da educação popular
- Karl Marx, autor citado como referência da leitura materialista da realidade
- Herbert de Souza (Betinho), sociólogo e ativista brasileiro
- Frei Betto, escritor e militante citado na discussão sobre organização popular
- Alzira Medeiros e José Nunes, autores mencionados por Aldenise Coelho em referência a textos sobre pesquisa-ação e pedagogia da autogestão no Nordeste
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