Responsável pela comunicação da campanha de Lula, Raul Rabelo concede entrevista defendendo a estratégia eleitoral e relativizando as críticas recebidas no primeiro turno. Mas reportagens publicadas durante a disputa revelam problemas de comunicação, divergências internas e mudanças significativas na reta final. A participação decisiva da mobilização popular merece um lugar próprio nessa história.
Da Redação
Toda eleição produz seus vencedores, seus derrotados e seus intérpretes. Depois da divulgação dos resultados, começa também uma disputa menos visível, mas politicamente importante: a disputa pela narrativa sobre quem foi responsável pelo resultado. Na campanha de reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva, encerrada em 25 de outubro, essa discussão ganhou um novo capítulo neste domingo (1º), quando o publicitário Raul Rabelo, responsável pela comunicação eleitoral, concedeu entrevista ao jornal O Globo defendendo as decisões tomadas por sua equipe. A conversa é reveladora não apenas pelo que o marqueteiro afirma, mas pela distância entre a segurança demonstrada agora e as críticas que atingiram o comando da comunicação durante a campanha.
Questionado sobre a insistência em apresentar o legado do governo, em vez de desenvolver com maior intensidade as propostas para o futuro, Rabelo rejeitou a avaliação de que tenha ocorrido um erro estratégico. Argumentou que uma campanha à reeleição necessariamente precisa prestar contas do mandato. A explicação tem fundamento: a apresentação de resultados administrativos constitui parte legítima de qualquer disputa eleitoral. Mas não responde integralmente à crítica formulada por integrantes do próprio campo governista, que questionavam a capacidade das mensagens de alcançar setores específicos do eleitorado e de enfrentar as preocupações presentes na vida cotidiana.
Essas críticas não surgiram depois da eleição, como uma tentativa de reescrever retrospectivamente a campanha. Em 6 de outubro, a agência Reuters informou que aliados de Lula reconheciam problemas na comunicação e cobravam mudanças. Segundo fontes ouvidas pela reportagem, o próprio presidente demonstrara insatisfação com a capacidade da campanha de dialogar com jovens e mulheres. A cobertura jornalística também registrou questionamentos sobre a escolha de temas e formatos utilizados nos programas eleitorais. Portanto, havia uma controvérsia concreta, documentada enquanto a disputa ainda estava em andamento, sobre a eficácia da estratégia conduzida pela equipe de publicidade.
O primeiro turno, no qual Flávio Bolsonaro terminou à frente de Lula, intensificou essa discussão. Rabelo atribuiu parte do resultado à crise do Banco Master e à desmobilização de eleitores que supostamente consideravam a vitória governista assegurada. Essa é uma interpretação apresentada pelo próprio marqueteiro, não uma explicação demonstrada de maneira definitiva. A compreensão do comportamento eleitoral exige considerar abstenção, transferência de votos, condições econômicas, desempenho dos candidatos, campanhas territoriais e inúmeros outros fatores. A comunicação é apenas uma das dimensões desse processo, embora seus responsáveis naturalmente precisem responder pelas escolhas que realizaram.
O aspecto mais interessante da entrevista aparece quando Rabelo descreve o segundo turno. Ele reconhece que a campanha ganhou intensidade, ampliou as comparações entre projetos, incorporou novas lideranças e passou a utilizar recursos de comunicação diferentes. Cita a participação de Camilo Santana, Rafael Fonteles e Rui Costa, além da presença de jovens lideranças políticas e movimentos estudantis. Também destaca a entrada mais intensa de Sidônio Palmeira, a colaboração de Otávio Antunes e a atuação digital do deputado André Janones. A própria enumeração demonstra que a fase final da disputa envolveu uma reorganização política e comunicacional, embora Rabelo sustente que não houve mudança fundamental na linha estratégica.
A chegada de Otávio Antunes foi acompanhada de controvérsia interna. Reportagem publicada pelo portal O Bastidor, em 15 de outubro, informou que sua incorporação à equipe havia encontrado resistência entre integrantes do comando da comunicação, incluindo Rabelo e Sidônio Palmeira. Na entrevista deste domingo, o publicitário preferiu enfatizar que eventuais divergências foram resolvidas pela coordenação política e que todas as contribuições foram bem-vindas. As duas informações podem coexistir: conflitos internos podem ocorrer e posteriormente ser administrados. Mas sua existência reforça que a reorganização não foi tão simples quanto uma narrativa retrospectiva de harmonia pode sugerir.
Há uma questão especialmente importante nessa história: a diferença entre a comunicação concebida por profissionais contratados e a mobilização política produzida pela própria sociedade. Campanhas eleitorais possuem estruturas profissionais, verbas, pesquisas e planejamento. Ao mesmo tempo, dependem de militantes, movimentos sociais, lideranças comunitárias, sindicatos, organizações estudantis e cidadãos que participam voluntariamente das atividades políticas. A atuação desses grupos não pode ser reduzida à execução de decisões tomadas por uma agência de publicidade. Muitos desenvolvem iniciativas próprias, organizam redes e produzem mensagens sem depender de comando centralizado.
O caso de André Janones ilustra essa relação. Rabelo reconheceu que o deputado criou o chamado Exército do Lula no WhatsApp e colocou a iniciativa à disposição da campanha. Segundo o marqueteiro, houve posteriormente articulação com a equipe digital e alinhamento sobre determinados temas. Ao mesmo tempo, afirmou que Janones mantinha autonomia sobre suas mensagens. Essa descrição revela uma experiência de mobilização que não nasceu integralmente dentro da estrutura profissional de comunicação, embora tenha passado a interagir com ela durante o segundo turno.
A iniciativa também enfrentou controvérsias. Na entrevista, o publicitário foi questionado sobre decisões do Tribunal Superior Eleitoral que determinaram a retirada de links difundidos pelo canal por conterem informações falsas. Rabelo negou que a campanha tenha trabalhado deliberadamente com desinformação e admitiu a possibilidade de erros. A resposta merece registro porque a autonomia de agentes políticos e a responsabilidade pelo conteúdo divulgado constituem questões distintas. A eficácia da mobilização digital não dispensa a observância das normas eleitorais nem o compromisso com a veracidade das informações.
Outro aspecto relevante foi a participação de jovens lideranças e movimentos estudantis. Rabelo reconheceu que esses setores passaram a impulsionar a campanha na segunda etapa da eleição. A incorporação de novos rostos, linguagens e formas de participação ampliou a presença de atores que não estavam necessariamente associados ao planejamento original dos programas eleitorais. A influência efetiva de cada iniciativa sobre o resultado final não pode ser medida apenas por declarações posteriores dos envolvidos. Ainda assim, sua participação documentada impede que a história da campanha seja contada como uma realização exclusiva de seus responsáveis profissionais.
A entrevista revela uma tensão recorrente na comunicação política: os especialistas trabalham para construir uma mensagem coerente, mas a sociedade não recebe essa mensagem passivamente. Eleitores interpretam, contestam, compartilham e transformam conteúdos de acordo com suas experiências e percepções. Organizações populares podem contribuir para ampliar o alcance de uma campanha, mas também estabelecer prioridades diferentes das imaginadas por seus coordenadores. Em períodos de intensa mobilização, a relação entre planejamento e participação espontânea torna-se particularmente complexa.
Por isso, atribuir a vitória exclusivamente ao marketing seria tão inadequado quanto afirmar, sem demonstração, que a campanha venceu apesar de toda a atuação dos profissionais responsáveis. As fontes disponíveis comprovam a existência de críticas internas, mudanças de estratégia, reforços na equipe e uma mobilização social significativa durante o segundo turno. Não permitem determinar, de maneira conclusiva, quanto cada componente contribuiu para a diferença final de votos. A história eleitoral exige mais do que depoimentos de participantes interessados em apresentar sua própria versão dos acontecimentos.
Rabelo também defendeu que o governo desenvolva uma comunicação permanente, sem reconstruir toda sua presença pública apenas durante os períodos eleitorais. A proposta aborda um problema relevante da administração pública: políticas governamentais precisam ser explicadas continuamente, em linguagem compreensível e por canais acessíveis à população. Mas a comunicação institucional não deve ser confundida com propaganda partidária permanente. Informar sobre serviços, direitos e decisões administrativas constitui responsabilidade do Estado; a disputa eleitoral possui regras próprias e deve preservar a distinção entre recursos públicos e atividades de campanha.
Há, portanto, uma ironia na entrevista. O publicitário que agora defende maior proximidade com a população precisou responder a perguntas sobre uma campanha criticada justamente por dificuldades de comunicação com determinados setores sociais. Seu argumento sobre a necessidade de presença contínua pode ser pertinente, mas não elimina a obrigação de examinar os problemas identificados durante a eleição. Aprender com uma experiência exige reconhecer seus acertos e suas limitações, em vez de transformar toda decisão anterior em escolha estrategicamente inevitável.
A análise da campanha também precisa recuperar a dimensão política de Lula, que não se resume ao material publicitário produzido em seu nome. Sua trajetória, as políticas de seu governo, a atuação partidária, as alianças eleitorais e as percepções acumuladas ao longo de décadas integraram o processo de formação das preferências dos eleitores. Nenhum marqueteiro cria isoladamente essas condições históricas. A comunicação pode apresentar, organizar e disputar interpretações sobre elas, mas não substitui a experiência concreta da população com governos, instituições e acontecimentos sociais.
Da mesma maneira, a contribuição dos movimentos populares não deve ser romantizada a ponto de desaparecerem suas diferenças, divergências e iniciativas independentes. Organizações estudantis, militantes digitais, lideranças locais e movimentos sociais não constituem um corpo homogêneo. Suas formas de participação variam, assim como suas prioridades políticas e suas relações com os partidos. Reconhecer essa diversidade é importante para compreender como uma campanha nacional mobiliza atores que possuem histórias e graus de autonomia distintos.
A entrevista de Raul Rabelo constitui, portanto, um documento importante para a compreensão da disputa eleitoral de 2026, mas não representa sua versão definitiva. É o testemunho de um dos responsáveis pela comunicação, que defende suas decisões e apresenta sua interpretação sobre os acontecimentos. Seu relato precisa ser colocado ao lado das reportagens contemporâneas, das críticas de aliados, das mudanças efetivamente realizadas e dos registros da participação social. Somente esse confronto permite construir uma explicação que não dependa exclusivamente da memória seletiva dos protagonistas.
A vitória de Lula pertence à história política e eleitoral brasileira, não ao portfólio exclusivo de uma agência de publicidade. Raul Rabelo tem o direito de defender seu trabalho, assim como jornalistas, militantes e pesquisadores têm o dever de examinar seus resultados e contradições. O segundo turno registrou uma ampliação concreta da mobilização, a incorporação de novos participantes e mudanças reconhecidas pela própria equipe. Reduzir essa experiência a uma narrativa de eficiência publicitária seria deixar fora da história justamente a participação política da sociedade.






