Adolescente denuncia violência doméstica, abusos e omissão institucional em Tianguá

Da Redação

Uma adolescente cearense publicou um vídeo denunciando supostos episódios de violência doméstica, abuso psicológico e negligência institucional envolvendo o próprio pai. O caso ocorre em Tianguá, na Serra da Ibiapaba, e mobilizou forte repercussão nas redes sociais durante o fim de semana.

Por se tratar de menor de idade, a Atitude Popular não divulgará o nome da jovem.

A adolescente é conhecida na internet por um canal voltado principalmente ao público infantil, com quase 5 milhões de inscritos. O conteúdo era baseado em games e animações, e utilizava personagens inspirados em integrantes da própria família, incluindo a mãe e o pai.

Nos últimos meses, seguidores passaram a demonstrar preocupação com o desaparecimento repentino da criadora de conteúdo das redes sociais. A jovem permaneceu cerca de um ano sem publicar vídeos regularmente, o que gerou comentários recorrentes de fãs tentando entender o motivo do afastamento. Antes mesmo do vídeo publicado neste fim de semana, ela já havia mencionado em outras gravações que enfrentava problemas emocionais e que tanto ela quanto a mãe estariam passando por quadros de depressão. Agora, com o novo relato, muitos seguidores afirmam ter compreendido a dimensão do sofrimento psicológico vivido pela adolescente durante o período de afastamento das redes.

Na gravação, a jovem afirma que ela e a mãe vivem sob medo constante há anos e acusa órgãos públicos de ignorarem seus relatos. Segundo ela, o pai teria cometido agressões psicológicas, intimidações e abusos ao longo da infância e adolescência, além da violência doméstica e tentativa de feminicídio contra a mãe. A adolescente também relata crises de pânico, internações psiquiátricas e ideação suicida decorrentes do ambiente familiar que descreve como violento.

“Eu tenho crise de pânico, eu não consigo sair de casa, eu não consigo ir pra escola”, afirmou a adolescente no vídeo publicado em suas redes sociais.

A jovem declarou ainda que existem medidas protetivas em vigor contra o pai, incluindo monitoramento por tornozeleira eletrônica, mas sustenta que ele continuaria circulando nas proximidades da residência da família. Segundo ela, isso seria utilizado como forma de intimidação psicológica.

No relato, a adolescente afirma ter sido desacreditada durante escutas oficiais e acusa instituições locais de favorecerem o pai. Segundo a denúncia, o homem teria trabalhado anteriormente como motorista do Conselho Tutelar de Tianguá e manteria vínculos pessoais com integrantes do órgão. A adolescente afirma suspeitar que informações do processo estariam chegando ao pai por meio dessas relações

Após a repercussão do caso e a mobilização nas redes sociais, autoridades do município de Tianguá passaram a acompanhar a situação mais de perto. A Procuradoria Especial da Mulher de Tianguá informou que já está prestando apoio à família. Segundo a procuradora e vereadora Zélia Costa (PDT-CE), será formada uma comissão para acompanhar o caso ao lado dos vereadores Betão (PL-CE) e Natan Portela (PP-CE). A mãe da adolescente também foi orientada a procurar oficialmente a Procuradoria para formalizar o acompanhamento institucional da situação.

“Eu vou te enlouquecer”

A repercussão também aumentou após o vazamento de áudios atribuídos ao pai da adolescente. Nas gravações, divulgadas nas redes sociais, um homem ameaça perseguir a mãe da jovem e afirma que ela “vai perder tudo”.

“Eu vou te perseguir, ***. Eu vou te perseguir aonde você for”, diz um trecho do áudio compartilhado online. Em outro momento, afirma: “Você não deveria ter mexido comigo” e “você vai pagar pelo que você fez”. Os áudios passaram a circular amplamente entre internautas que acompanham o caso e intensificaram a pressão pública por uma apuração rigorosa das denúncias apresentadas pela adolescente e pela mãe.

O Conselho Tutelar de Tianguá divulgou nota pública afirmando que o caso tramita sob segredo de Justiça e é acompanhado por diversos órgãos da rede de proteção, incluindo Ministério Público, Judiciário e Defensoria Pública. O órgão negou favorecimento ou vazamento de informações sigilosas e declarou que atua “com responsabilidade, ética, legalidade e absoluto compromisso com a proteção integral prevista no Estatuto da Criança e do Adolescente”.

Já o Ministério Público do Estado do Ceará informou que acompanha o caso por meio de medidas judiciais e extrajudiciais. Segundo o MPCE, as medidas protetivas permanecem em vigor e o procedimento segue sob sigilo para preservar a adolescente.

O que diz o genitor: “briga de casal”

O advogado do genitor da adolescente, Dr. Muriel Aguiar, afirmou que as acusações feitas pela jovem precisam ser analisadas dentro do que chamou de “contexto da separação” do casal e negou que o cliente tenha violado deliberadamente as medidas protetivas. Segundo ele, os alertas da tornozeleira eletrônica poderiam ocorrer por aproximações casuais em locais públicos, sem intenção direta de contato. “Para que haja descumprimento da medida protetiva, ele tem que ter se aproximado dolosamente, com vontade de se aproximar dela. E não foi o que aconteceu”, declarou.

Sobre as acusações de abuso feitas pela adolescente, Muriel Aguiar sustentou que o genitor já não convivia com a filha no período citado por ela. “No período que ela disse que isso aconteceu, ele já estava separado. Nós temos contrato de aluguel, conta de água e luz que comprovam que ele não estava mais convivendo com ela”, afirmou. O advogado também minimizou os áudios divulgados nas redes sociais, nos quais o genitor aparece xingando e ameaçando a mãe da adolescente. Segundo ele, o material teria sido “cortado e editado” e corresponderia apenas a “uma discussão entre casal”. “Se ouvirem os áudios na íntegra vão entender todo o contexto da situação”, declarou. O advogado insistiu que os áudios divulgados nas redes sociais teriam sido “cortados e editados” e alegou que, se fossem apresentados integralmente, “as pessoas entenderiam todo o contexto da situação, de uma briga de casal”.

Ao comentar o estado psicológico da adolescente, o advogado afirmou que o genitor estaria “preocupado com a saúde dela” e sugeriu que parte da repercussão pública teria sido influenciada pela mãe. “Se ela está surtando, está passando por problemas psicológicos, ela está sob cuidado da mãe, não do pai”, disse. A menina teve uma crise de ansiedade no dia 19 de maio e, segundo a mãe, está sob cuidados médicos. A defesa da adolescente afirma que ela enfrenta crises de ansiedade grave, medo constante e já precisou de internação psiquiátrica.

Disputa pelo canal

A disputa em torno do canal da adolescente também envolve a estrutura empresarial criada para administrar a atividade digital ligada à personagem infantil. A empresa foi fundada em 8 de janeiro de 2020 e possui como razão social da mãe da adolescente. A existência da pessoa jurídica reforça que a gestão administrativa e financeira do projeto digital está formalmente vinculada à mãe da jovem. O tema apareceu durante entrevista do advogado do genitor, Dr. Muriel Aguiar, que afirmou que a disputa familiar teria relação direta com o controle e os rendimentos do canal, que soma milhões de inscritos nas plataformas digitais. “Essa confusão toda envolvendo a adolescente é tudo por conta de um canal no YouTube que tem 5 milhões de seguidores e dá muito dinheiro”, declarou.

O relatório da plataforma Social Blade indica que o canal passou anos praticamente sem publicar vídeos, o que fez o engajamento cair e reduziu bastante o alcance no algoritmo do YouTube. Mesmo tendo mais de 5 milhões de inscritos, o canal estava em um período de baixa atividade e audiência instável. Segundo estimativas baseadas nos dados atuais da plataforma, o canal provavelmente gerava algo em torno de R$ 1 mil por mês nesse período de inatividade. Isso acontece porque canais infantis e de gameplay brasileiros costumam ter remuneração baixa quando há poucas visualizações consistentes e pouca frequência de postagem.

O relatório também registrou oscilações incomuns, incluindo milhões de visualizações negativas, algo que geralmente ocorre quando vídeos são apagados, colocados no privado ou recalculados pela plataforma. A nota “C-” atribuída ao canal mostra justamente esse desequilíbrio: uma base enorme de inscritos, mas um volume de audiência ainda muito abaixo do esperado para um canal desse tamanho. O cenário sugere um canal em processo de reativação, após um longo período parado.

Segundo a defesa da adolescente a prioridade deveria ser a preservação da saúde mental da jovem e de seu ambiente familiar, que enfrenta crises de ansiedade, medo constante e está sob acompanhamento médico após agravamento do quadro psicológico.

O vídeo da jovem abriu amplo debate nas redes sobre violência doméstica, escuta especializada de crianças e adolescentes e a dificuldade enfrentada por vítimas para terem seus relatos reconhecidos pelas instituições responsáveis pela proteção infantojuvenil. Casos envolvendo denúncias de violência contra crianças e adolescentes podem ser comunicados ao Disque 100, aos Conselhos Tutelares, ao Ministério Público e às delegacias especializadas.

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