Agroecologia é urgente: “não é mais futuro, é agora”

Professora e geógrafa Iara Gomes alerta que a transição agroecológica já é uma necessidade imediata diante das crises climáticas e sociais, e defende políticas públicas permanentes, educação integrada e valorização dos saberes populares

Agroecologia é urgente: “não é mais futuro, é agora”

Em entrevista concedida ao programa Café com Democracia, apresentado por Luiz Regadas e transmitido pela TV Atitude Popular, a professora e doutora em Geografia Iara Gomes fez um chamado firme e sensível sobre a necessidade de recolocar a agroecologia no centro das políticas públicas, da educação e da vida cotidiana.
Durante a conversa, a pesquisadora ressaltou que a crise ambiental já atravessa o presente, não o futuro. “Não é mais futuro, sabe, Luiz? É agora”, afirmou, ao relatar casos concretos de impactos climáticos e sociais vividos por comunidades e famílias vulneráveis.

A entrevista, que abordou educação, juventude, sustentabilidade urbana e práticas agrícolas, foi também um convite a repensar a relação entre território, alimentação e justiça ambiental.

Educação como porta de entrada para plantar futuros

Iara abriu a conversa reforçando que a agroecologia vai muito além da ideia restrita ao cultivo de hortaliças. Para ela, trata-se de reconstruir vínculos, recuperar saberes ancestrais e compreender o território como um espaço vivo.

“Trabalhamos a agroecologia na perspectiva do cultivo de vínculos, não só de plantas”, explicou.

Segundo a pesquisadora, escolas, universidades e coletivos juvenis têm papel decisivo na construção de práticas agroecológicas. Mas isso só é possível quando o ensino deixa de ser vertical, imposto, e passa a ser colaborativo:

“Pensar agroecologicamente é não chegar com o projeto pronto. É construir em conjunto.”

Apesar do interesse crescente das instituições, Iara lembrou que a falta de orçamento dificulta a continuidade das iniciativas. As pró-reitorias e editais têm sido fundamentais, mas ainda insuficientes para o volume de demandas vindas das periferias de Fortaleza e da Região Metropolitana.

A juventude como força de mudança

Para a pesquisadora, jovens têm desempenhado papel estratégico, especialmente ao trazer criatividade e energia para os projetos:

“A juventude nos ajuda a ampliar a conexão e movimentar cenários onde precisamos atuar.”

Ela relata que, muitas vezes, chega a territórios onde a comunidade já plantou as primeiras sementes — em sentido literal e simbólico. Em vez de iniciar projetos do zero, o papel da universidade tem sido fortalecer o que já existe.

Práticas urbanas e justiça ambiental

Ao discutir iniciativas como a agrofloresta urbana no Maranguapinho, conduzida pelo Fórum de Políticas Ambientais do Grande Bom Jardim, Iara elogiou os esforços comunitários que, apesar das dificuldades, conseguem aprovar editais e revitalizar áreas degradadas.

Mas a pesquisadora foi categórica ao apontar que políticas municipais precisam ir além da elaboração de diagnósticos:

“Agora precisamos dos planos de manejo. A comunidade está pedindo que eles se tornem efetivos.”

Crises climáticas: a urgência já chegou

Com a COP 30 em andamento, a geógrafa situou a agroecologia como um dos caminhos mais concretos para enfrentar eventos climáticos extremos:

“Precisamos fazer uma leitura urgente do presente. Não é mais acenar para o futuro. Já está acontecendo.”

Ela citou episódios recentes, como enchentes no Sul do país, e destacou que o impacto é desigual:

“Existe um racismo ambiental que faz algumas políticas parecerem aceitáveis. Quem dá a canetada nem sempre sente as consequências.”

Cidades, resíduos e o desafio da sustentabilidade

Questionada sobre a coleta de resíduos sólidos em Fortaleza, Iara foi direta: a situação ainda é “dramática”. Segundo ela, há conhecimento suficiente acumulado — científico e comunitário — para avançar em políticas de compostagem e reciclagem, mas o poder público ainda investe pouco e aplica mal a legislação.

Ela citou o exemplo da “revolução dos baldinhos”, no Sul do Brasil, para ilustrar como mudanças simples esbarram em obstáculos maiores:

“Às vezes falta coisa simples. A comunidade pergunta: ‘Quem vai comprar os baldinhos?’”

Piso intertravado, ilhas de calor e as escolhas urbanas

A professora também abordou a lógica equivocada da pavimentação excessiva:

“Não é coisa pequena. A tecnologia do piso que permite infiltração deveria ser ampliada.”

Ela relacionou o asfaltamento indiscriminado com aumento de enchentes, destruição dos lençóis freáticos e intensificação das ilhas de calor — problemas que estruturam as crises urbanas.

Saberes populares: o conhecimento que sustenta

Para Iara, a desconexão entre população e alimentação é um dos sintomas mais graves do modelo urbano atual:

“O setor varejista vai dizendo do que a gente tem que comer. As crianças não sabem de onde vem a comida.”

Ela defendeu a valorização dos saberes ancestrais e das trocas intergeracionais:

“O conhecimento científico só se completa com os saberes populares.”

Mudanças necessárias na educação e nas políticas públicas

Indagada sobre que mudanças gostaria de ver nas políticas educacionais agrícolas, ela insistiu numa abordagem integrada:

“Educação não pode estar desconectada de meio ambiente, assistência social e saúde.”

A falta de recursos para transporte, para atividades de campo e para continuidade dos projetos é, para ela, um gargalo que precisa ser resolvido.

Ao mesmo tempo, reconhece avanços:

“Cada vez mais secretarias, coletivos e universidades estão se articulando.”

Convite ao engajamento

Ao final, Iara anunciou o Primeiro Seminário do Fórum Popular de Agroecologia Urbana de Fortaleza, a ser realizado no dia 9 de dezembro, com participação de ministérios, Fiocruz, prefeitura e parlamentares. As inscrições são gratuitas, com alimentação garantida.

“É um espaço fundamental para reunir poder público, academia e sociedade civil.”

O recado final da professora

Em sua síntese, Iara reforçou que pequenas ações, quando valorizadas e sustentadas por políticas públicas permanentes, podem transformar territórios inteiros. E que esse caminho passa por priorizar o pequeno produtor, fortalecer vínculos comunitários e integrar educação, saúde e meio ambiente.

Assista à entrevista completa:

https://www.youtube.com/watch?v=CEAwajZcqcg

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