Da Redação
Com taxa de desemprego em 5,4%, o mais baixo desde 2012, e queda expressiva dos desalentos, o governo celebra, mas economistas alertam para desafios de informalidade e subocupação.
O governo federal comemora um novo marco no mercado de trabalho: segundo dados mais recentes da IBGE, a taxa de desemprego no Brasil caiu para 5,4% no trimestre encerrado em outubro de 2025 — a menor patamar desde o início da série histórica da pesquisa. Ao mesmo tempo, o número de pessoas desalentadas — aquelas que gostavam de trabalhar, mas desistiram de procurar emprego — caiu para cerca de 2,65 milhões, um recuo significativo em relação aos picos recentes da crise social.
Em discurso público, o vice-presidente Geraldo Alckmin destacou que os dados “são animadores” e atribuíram o resultado à combinação de políticas de geração de emprego e ao fortalecimento da presença do Estado para os brasileiros mais vulneráveis. A declaração reforça a narrativa do governo de que o país estaria em fase robusta de recuperação do mercado de trabalho e da economia.
Indicadores que sustentam a comemoração
Além da queda da taxa de desocupação, outros indicadores corroboram o otimismo oficial. A população ocupada se manteve em níveis elevados, com mais de 102 milhões de trabalhadores ativos, e o emprego formal no setor privado bateu novo recorde — com mais de 39 milhões de pessoas com carteira assinada. A subutilização da força de trabalho (que envolve desempregados, subocupados e aqueles disponíveis para trabalhar, mas não procurando emprego) também recuou, atingindo seu menor nível histórico.
No quadro dos trabalhadores por hora insuficiente (subocupados), os números recuaram para patamares não vistos desde 2016, o que indica não apenas mais vagas, mas também uma melhora relativa na qualidade dos empregos gerados, quando comparado aos anos mais agudos da crise.
Rendimentos e massa de renda também deram sinais positivos: a massa de rendimento real habitual dos trabalhadores atingiu recorde, e o rendimento médio real vem crescendo de forma sustentada. Setores como agricultura, construção civil, serviços, informação e comunicação registraram aumentos significativos na remuneração.
O que motivou a melhora — e o contexto histórico
A trajetória recente de redução do desemprego e geração de emprego formal ocorre num contexto de retomada econômica pós-pandemia, combinada a políticas estruturais adotadas pelo governo desde 2023. A recomposição da renda mínima, a preservação de programas sociais e incentivos à formalização — inclusive com expansão do crédito consignado para trabalhadores com carteira assinada — aparecem como fatores de sustentação da recuperação.
Tais resultados ganham relevo quando se considera o histórico recente: após a crise econômica de meados da década passada e o impacto da pandemia, o desemprego nacional chegou a atingir patamares próximos a 14–15%, e a informalidade cresceu significativamente — refletindo perdas profundas de renda e de trabalho formal. A reversão dessa dinâmica, portanto, representa uma recuperação estrutural do mercado de trabalho.
Limites e alertas: informalidade, qualidade do emprego e subutilização ainda preocupam
Apesar dos avanços, analistas entrevistados alertam que a melhora estatística não deve ser celebrada sem reservas. A taxa de informalidade — proporção de trabalhadores sem carteira assinada ou em ocupações instáveis — permanece alta, afetando cerca de 37,8% da população ocupada. Isso significa que, mesmo com o emprego formal em alta, uma parcela significativa dos trabalhadores continua vulnerável.
Além disso, embora o número de subocupados e desalentados tenha recuado, o tamanho absoluto desses contingentes ainda é relevante: milhões de pessoas seguem trabalhando em condições precárias ou desistiram de buscar emprego. A subutilização da força de trabalho, embora no menor nível da série histórica, revela que há ainda folgas estruturais no mercado de trabalho — não basta apenas gerar vagas, é preciso garantir qualidade, estabilidade e renda digna.
Outro ponto de atenção é a manutenção do equilíbrio macroeconômico: com renda e massa salarial em elevação, o consumo cresce, o que favorece a retomada econômica. Mas esse movimento também pressiona a inflação e pode criar tensões para a política econômica — algo que exige coordenação afinada entre o Executivo, o banco central e o mercado.
O que a queda recorde representa para o governo e para a economia brasileira
Para o governo, os dados do mercado de trabalho funcionam como alavanca política e discursiva. A redução expressiva do desemprego e desalento ajuda a reforçar a narrativa de recuperação econômica, aumento da renda e melhora das condições sociais — elementos que têm impacto direto sobre a popularidade e a legitimidade da gestão. Especialmente considerando o contexto de desafios estruturais, crise de custo de vida e pressões por reformas, o emprego formal e o crescimento da renda são ativos valiosos para o Executivo.
No plano macroeconômico, a melhora do mercado de trabalho favorece o consumo das famílias, o que pode sustentar o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) e dar fôlego às políticas sociais. A formalização crescente e a estabilidade relativa do emprego também ajudam a recompor arrecadação tributária, o que amplia a capacidade de investimento público — importante para programas sociais, infraestrutura e para expandir o Estado de Bem-Estar.
Contudo, a agenda não pode se limitar à celebração dos números. A persistente informalidade, a vulnerabilidade de amplos setores da classe trabalhadora e os desafios de renda digna exigem políticas estruturais. Qualificação profissional, reestruturação do mercado de trabalho, fortalecimento dos direitos laborais e estímulos à economia formal são precondições para uma recuperação sustentável.
Conclusão: entre o otimismo e a cautela
O recorde histórico de 5,4% de desemprego e o recuo expressivo do desalento marcam um momento muito positivo para o Brasil — uma reviravolta em relação aos piores momentos da crise econômica e sanitária. A celebração do governo é compreensível, e os resultados evidenciam que políticas públicas combinadas com retomada econômica podem gerar efeitos concretos e duradouros.
Mas os indicadores também lembram que o desafio do trabalho no Brasil vai além de números. A persistência da informalidade, a precariedade de parte dos empregos gerados, a subutilização da força de trabalho e a vulnerabilidade social de milhões de brasileiros mostram que a consolidação da recuperação depende de avanços estruturais no mercado de trabalho, de ampliação da proteção social e da valorização da formalização.
A boa notícia precisa vir acompanhada de ambição: a de transformar a aparente estabilidade em dignidade real, com trabalho decente, direitos garantidos e renda compatível com a vida no Brasil.




