No programa Café com Democracia, Tales Groo apresenta a segunda edição da revista Cangaço Rock e defende a cena underground cearense como rica, diversa e apaixonante
Na manhã de sexta-feira, 7 de novembro, o Café com Democracia abriu espaço para o peso e a criatividade do rock cearense. Apresentado por Luiz Regadas, o programa recebeu o músico e editor Tales Groo, responsável pela revista Cangaço Rock, que chega à sua segunda edição aprofundando o registro da cena underground do Ceará. A entrevista foi ao ar pela TV Atitude Popular e por uma rede de rádios comunitárias parceiras, e é a base desta matéria.
Logo no começo da conversa, Tales explicou que a publicação nasce de uma lacuna histórica: a ausência de veículos profissionais dedicados ao artista independente local. “A revista Cangaço Roque surgiu da necessidade e da constatação que a gente teve de que assim não existia nenhuma publicação profissional voltada para o artista independente cearense”, resumiu. Ele lembrou que, enquanto o eixo Sul–Sudeste conta com revistas especializadas, no Ceará o que predominava eram “os fãzinhos ainda, né, que são publicações caseiras, né, feito pelos fãs e de uma forma bem artesanal”.
A Cangaço Rock, contou Tales, é herdeira direta desse espírito. Antes da revista, já existia o fanzine Cangaço Rock Informativo, que foi parceiro no projeto aprovado no edital das Artes de 2022. A boa repercussão da primeira edição abriu caminho para o segundo volume. “Fizemos a primeira, deu legal e a gente inventou de fazer essa segunda também, só que a gente retirou do nome a palavra Informativo para dar uma separada da fanzine e da revista”, explicou.
Na segunda edição, a Cangaço Rock se apresenta com mais fôlego: matéria de capa sobre a veterana Facada, entrevistas com bandas de várias vertentes do rock pesado, um CD com 23 faixas de 23 bandas ativas e textos sobre economia criativa, acessibilidade, mulheres no rock, luthiers e produtores independentes. Tales define o espírito da publicação em uma palavra: atrevimento. “A ousadia mesmo, o atrevimento é colocar um material 100% cearense de bandas alternativas, de bandas independentes, de vários estilos, né? Tudo permeando o rock”, afirma.
A revista também é pretexto para uma espécie de “mini-turnê” pela cidade. O editor contou que o lançamento está sendo feito em vários espaços culturais, especialmente nas periferias e zonas fora do circuito mais óbvio. “Essa revista ela tá sendo lançada, a gente tá fazendo basicamente uma mini turnê de lançamento em vários locais. Já passamos pelo Quintino Cunha, pelo centro, por Maracanaú, pelo Benfica e amanhã nós vamos estar no Bom Jardim e também no Benfica novamente”, detalhou, mencionando festivais como o Rock Até Os e o Alcoholic Vomit.
Um dos pontos fortes da entrevista foi a discussão sobre economia criativa e underground. Para Tales, a cena não se resume a bandas e palcos. “O que permeia o underground não é só a música. A gente costuma falar que a música é só um tentáculo”, disse. Em torno dela gravitam produtoras de eventos, bares, selos, estúdios, lojas de discos, designers, fotógrafos, videomakers, escolas de música e fábricas de instrumentos e amplificadores. “Então, são muitas coisas que permeiam a cena underground, né?”
A revista dedica uma matéria inteira aos profissionais que fazem o som literalmente acontecer: fabricantes de amplificadores, pedais, bags, guitarras e baixos. Tales cita o trabalho de nomes como Evileudo, Cleiton Canino, Targino, Zon, diversos luthiers e o veterano Adalto Soares, um dos pioneiros da luteria no Ceará. O balanço é direto: “Tem muitos fabricantes cearenses que que fazem pedais, constróem pedais, constróem amplificadores, guitarras que não deixam a dever a gringo nenhum. Inclusive as bandas daqui não ficam muito atrás das gringas. As produções não são muito boas atualmente”.
Outra marca da Cangaço Rock é a preocupação com acessibilidade. Tales anunciou que todo o conteúdo da revista terá uma versão acessível em vídeo. “Acessibilidade é uma coisa muito importante pra gente ter mais agrega… agregamento ao nosso movimento, né? A gente acredita, a gente tem a convicção que todas as pessoas podem ter acesso a esse material e também às bandas”, afirmou. “Nós vamos ter uma versão acessível no YouTube da revista completa, página por página, com audiodescrição, a leitura narrada por voz e também legendas”, completou.
No campo das políticas culturais, o editor saiu em defesa das leis de fomento, frequentemente alvo de desinformação. Ao comentar leis como Rouanet, Aldir Blanc e Paulo Gustavo, usadas para atacar a produção artística independente, Tales foi taxativo: “O Brasil tem as leis de cultura mais avançadas do mundo, assim como as trabalhistas, né, e várias outras leis que são assim de mais de primeiro mundo até”. E criticou as campanhas de difamação: “Você vê parte da população querendo colocar isso para baixo, né, jogando fake news, jogando inversão da realidade, fazendo acusações totalmente infundadas. Essas leis são muito importantes”.
Ele citou experiências como o ForCaos e o Rock Cordel, festivais que se sustentam graças aos editais, e lembrou que sua própria banda, Darkside, conseguiu gravar discos, fazer turnê e produzir clipes com apoio público. O mesmo vale para a própria revista, que nasceu do edital das Artes. “É muito interessante que tenha essa aderência”, resumiu.
Perguntado sobre como se organiza a engrenagem do rock hoje no Ceará, Tales respondeu que a lógica é a mesma do underground em qualquer parte do mundo: cooperação e autogestão. “Tudo funciona aqui através da cooperação e através do faça você mesmo”, destacou. “Toda economia criativa que permeia o underground parte desses princípios, né, que é a cooperação e a gente mesmo se virar, a gente conseguir se comunicar e se articular para fazer nossos eventos, fazer nossos corres, fazer nossos CDs, nossa música girar”.
Ele reconhece que, na esmagadora maioria dos casos, a música é uma atividade paralela, já que a cena não está no circuito comercial dominante. Ainda assim, insiste na importância de profissionalização e organização coletiva. Tales integra a Associação do Rock e a diretoria do Sindicato dos Músicos, e diz que a luta é para que a categoria tenha melhores condições de trabalho e maior reconhecimento social.
O papo também entrou no terreno do preconceito e do conservadorismo. Mesmo com avanços, o roqueiro ainda enfrenta estigmas. “Esse estigma sempre existiu desde o comecinho lá, quando a gente era adolescente, nos anos 80, e permanece de certa forma até hoje”, avaliou. Ele lembra que a sociedade segue desconfiada de visual, atitude e temática do rock. “O rock ele é acima de tudo, cara, um estilo de vida, né?” E crava: “Conservadorismo é uma coisa muito complicada que leva tudo para trás, leva a ciência para trás, leva a arte, a cultura, a política, os avanços sociais. Eu nem sei porque que chama conservadorismo, porque devia ser uma coisa mais ligada ao retrocesso”.
Nos minutos finais, Tales reforçou o convite para que o público se aproxime da cena, consuma o conteúdo e apoie diretamente as bandas locais. “O rock é um estilo que é apaixonante, né, assim como metal, o blues, o progressivo, o punk”, disse. E completou com um chamado prático: “Não deixem de frequentar os eventos, não deixem de adquirir material das bandas, material físico, CD. (…) É importante esse apoio, essa participação, essa cooperação e essa vivência com a gente”.
A nova edição da revista Cangaço Rock está sendo vendida em pontos físicos em Fortaleza, Maracanaú e outros bairros da Região Metropolitana, ao preço acessível de R$ 15. Quem está em outros estados pode solicitar o envio pelos Correios, entrando em contato pelas redes sociais da publicação. Na dúvida, Tales resume a proposta em uma frase que traduz o espírito da revista e da própria entrevista: “As bandas daqui não deixam a dever a gringo nenhum”.
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📅 De segunda à sexta
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