Em entrevista a Sara Goes no programa Democracia no Ar, o pesquisador Reynaldo Aragon critica o seminário PTECH e alerta que o PT corre o risco de legitimar as plataformas que alimentaram a máquina digital do bolsonarismo e o golpe de 8 de janeiro
No programa Democracia no Ar, exibido em 15 de outubro de 2025 pela TV Atitude Popular, o jornalista e pesquisador Reynaldo Aragon fez uma análise contundente sobre o PTECH, seminário promovido pelo Partido dos Trabalhadores em parceria com as grandes plataformas digitais. A entrevista, conduzida por Sara Goes, mergulhou na contradição política e simbólica de um partido historicamente defensor da soberania digital se alinhar, ainda que pontualmente, às big techs responsáveis por distorcer o debate público e impulsionar a extrema direita no Brasil e no mundo.
“As big techs são hoje a bancada mais poderosa do Congresso. E ao dialogar com elas em vez de enfrentá-las, o PT corre o risco de legitimar o inimigo”, alertou Aragon.
O programa partiu da lembrança do seminário do PL com as plataformas, realizado meses antes em Fortaleza — e exposto nacionalmente por uma reportagem de Sara Goes —, que abriu espaço privilegiado para empresas como Google, Meta, X (antigo Twitter) e TikTok discutirem estratégias de influência digital com parlamentares de extrema direita. O PTECH, promovido agora como “resposta progressista”, reacendeu o debate sobre os limites da relação entre Estado, partidos e corporações tecnológicas.
“Não há engajamento de graça”
Para Reynaldo Aragon, o problema central é estratégico: ao buscar formar militantes digitais com o apoio direto das plataformas, o partido pode estar reforçando o poder de quem controla os algoritmos e o fluxo informacional do país.
“Nada é de graça. Nenhum engajamento é neutro, especialmente em período eleitoral. Quando um partido senta à mesa com as big techs, ele está dizendo que aceita as regras do jogo — regras feitas para beneficiar quem tem capital e poder”, afirmou.
O pesquisador lembrou que o Congresso brasileiro de 2025 é o mais à direita da história e que boa parte dos parlamentares foi “forjada nas redes”, com campanhas alavancadas por impulsionamento pago e manipulação algorítmica.
“Esses políticos não cresceram pelo voto consciente, mas pelo engajamento comprado. A bancada das big techs é hoje mais influente do que qualquer outra. É a bancada do like”, ironizou.
Do PL ao PT: o mesmo palco
Sara Goes recordou que, após o seminário das big techs com o PL em Fortaleza, houve forte pressão nas redes para que o PT desse uma resposta “à altura”. O resultado foi o PTECH — realizado no mesmo formato, com participação de executivos das plataformas, técnicos e especialistas em comunicação política.
Aragon reconheceu o mérito de se discutir comunicação digital, mas afirmou que o caminho escolhido é perigoso:
“Nós deveríamos estar formando quadros a partir da base, com ativistas de software livre, comunicadores populares e influenciadores independentes. Não é preciso legitimar empresas que são parte do problema. A guerra informacional se vence com soberania, não com dependência.”
Ele destacou que, desde 2014, as plataformas passaram a ter papel eleitoral determinante em todo o mundo — dos casos do Brexit e da eleição de Donald Trump até a manipulação que alimentou o golpismo no Brasil.
As plataformas como instrumento de desestabilização
Ao comentar o início do julgamento do “núcleo digital” do golpe de 8 de janeiro, Aragon afirmou que há provas abundantes de que as plataformas foram “instrumentos diretos de desestabilização cognitiva da nação”.
“O governo Bolsonaro usou a máquina estatal e as redes sociais para corroer a percepção de realidade do povo brasileiro. O que começou com o ataque às urnas terminou com a negação da ciência e a banalização da morte na pandemia”, disse.
Segundo ele, o inquérito das fake news, ainda em andamento no Supremo Tribunal Federal, deve se tornar um divisor de águas. “É uma bomba muito maior do que o de 8 de janeiro, porque atinge o núcleo do poder das big techs.”
Aragon lembrou ainda que a CPI da Pandemia e o inquérito das milícias digitais reúnem provas suficientes para responsabilizar as plataformas por centenas de milhares de mortes e pela corrosão da democracia brasileira.
“Elas estão destruindo o próprio Estado americano”
O pesquisador ampliou a análise para o cenário internacional, afirmando que o poder das big techs ultrapassa o controle dos próprios governos.
“Hoje, as plataformas estão tomando conta do Estado dentro dos Estados Unidos. Elas atropelam o Congresso e as agências federais. Se lá, que é a casa delas, o Estado perdeu o controle, imagine aqui”, questionou.
Ele mencionou que o tema deve estar na pauta do encontro entre Lula e Donald Trump, marcado para o fim do mês. “As big techs e a regulação digital são um dos pontos mais sensíveis da diplomacia. Para Trump, é inaceitável qualquer tentativa de controle estatal sobre essas empresas.”
O novo colonialismo dos dados
Aragon também alertou para a crescente presença de empresas estrangeiras de tecnologia dentro do aparato público brasileiro. “A Oracle, por exemplo, está se infiltrando em várias áreas do Estado. É soberania de dados que está sendo entregue de bandeja”, criticou.
Ele fez um paralelo entre essa ocupação digital e o genocídio palestino, lembrando que muitas plataformas atuam ativamente para censurar conteúdos que denunciam os ataques de Israel.
“O TikTok agora pertence a uma empresa alinhada ao sionismo. São essas corporações que o PT está chamando para ensinar militância? Isso não é radicalismo, é constatação. Elas fazem parte de uma máquina global de guerra informacional.”
A reação imperial na América Latina
Na segunda parte do programa, Aragon analisou o avanço militar e político dos Estados Unidos na América Latina, especialmente na Venezuela, Colômbia e Equador. Ele comparou o cenário atual ao Plano Colômbia dos anos 1990, quando os EUA usaram o combate ao narcotráfico como pretexto para ocupar militarmente o país.
“Hoje, o discurso é o mesmo. A diferença é que o inimigo agora é qualquer governo progressista que tente afirmar soberania. Estão voltando com tudo para o nosso quintal.”
O pesquisador apontou que o Brasil, sob liderança de Lula, é o principal alvo indireto dessa ofensiva: “O império está em decadência e reage tentando retomar controle sobre as rotas comerciais e as reservas estratégicas da América do Sul”.
Ele lembrou que projetos como a ferrovia bioceânica, ligando Pernambuco ao porto de Chancay (Peru), estão redesenhando a geopolítica continental. “Quando essa ferrovia ficar pronta, o Canal do Panamá vai se tornar obsoleto. Isso é intolerável para os Estados Unidos.”
Um continente em disputa
Aragon encerrou sua participação com uma visão estratégica:
“A América Latina é hoje o campo de batalha entre um império em decadência e outro em ascensão. E o Brasil, por sua posição geopolítica, será o fiel da balança. O problema é que ainda não sabemos de que lado estamos: se do lado da soberania ou do da submissão digital.”
🎥 Assista à entrevista completa no YouTube
📺 Programa Democracia no Ar
📅 De segunda à sexta
🕙 Das 10h às 11h
📺 Ao vivo em: https://www.youtube.com/TVAtitudePopular
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