Da Redação
Dois soldados etíopes da ONU morreram e outras sete pessoas ficaram feridas numa emboscada em Jonglei; ataque ocorre em uma das regiões mais disputadas do país, enquanto o acordo de paz que encerrou a guerra civil sofre deterioração e confrontos entre governo e oposição voltam a atingir níveis alarmantes
O Sudão do Sul voltou a emitir um dos sinais mais graves de deterioração de sua já frágil estabilidade. Dois integrantes etíopes da Missão das Nações Unidas no Sudão do Sul (UNMISS) foram mortos nesta segunda-feira (24) quando uma patrulha que se deslocava para Pajut, no estado de Jonglei, foi emboscada por homens armados ainda não identificados. Outras sete pessoas ficaram feridas: três capacetes azuis, dois policiais sul-sudaneses e dois funcionários civis. A ONU enviou uma Força de Reação Rápida para a região e exigiu investigação imediata.
O ataque não pode ser compreendido como um incidente isolado. Ele aconteceu justamente em Jonglei, um dos principais epicentros da nova escalada militar sul-sudanesa, num momento em que o país enfrenta confrontos entre forças governamentais e combatentes ligados à oposição, deslocamentos em massa e um enfraquecimento perigoso do acordo de paz que encerrou formalmente a guerra civil de 2013 a 2018.
Segundo a UNMISS, os atacantes emboscaram deliberadamente a patrulha durante uma missão regular destinada a apoiar a estabilização de uma área marcada por insegurança constante. A chefe da missão, Anita Kiki Gbeho, condenou a violência e classificou como inaceitável o ataque contra integrantes da ONU enviados ao país para apoiar o processo de paz.
O secretário-geral António Guterres também condenou a emboscada. A posição da ONU possui uma dimensão jurídica importante: ataques deliberados contra integrantes de forças de manutenção da paz podem constituir crimes de guerra segundo o direito internacional. A organização pediu às autoridades sul-sudanesas uma investigação rápida e completa capaz de identificar os responsáveis. Até agora, porém, nenhuma organização reivindicou publicamente a autoria do ataque.
É fundamental preservar essa última informação. Jonglei abriga diferentes forças, milícias e estruturas comunitárias armadas, e atribuir a emboscada neste momento ao governo ou à oposição sem evidências seria precipitado. A ONU fala, até agora, em “indivíduos armados não identificados”.
O lugar escolhido para a emboscada, entretanto, torna o episódio particularmente preocupante.
Pajut não é apenas mais uma pequena localidade no vasto território sul-sudanês. No início deste ano, forças do Exército Popular de Libertação do Sudão na Oposição (SPLA-IO), ligado historicamente ao campo político de Riek Machar, tomaram a cidade durante fortes combates. A conquista foi considerada estratégica porque colocou pressão adicional sobre Bor, capital de Jonglei.
A violência chegou a um ponto tão crítico que, em janeiro, as Forças de Defesa Popular do Sudão do Sul anunciaram uma grande operação militar na região e ordenaram a retirada de civis e funcionários internacionais de três condados — Nyirol, Uror e Akobo. A própria ONU afirmou naquela ocasião que os confrontos estavam ocorrendo em uma escala que não era observada desde 2017, período ainda marcado pela guerra civil.
Naquele momento, aproximadamente 180 mil pessoas já haviam sido deslocadas somente em Jonglei, segundo a UNMISS. A organização decidiu manter capacetes azuis em algumas posições, apesar das ordens de evacuação, alegando que sua presença era necessária para tentar reduzir as tensões e proteger civis.
A emboscada desta segunda-feira demonstra o risco dessa presença.
Os soldados etíopes mortos estavam precisamente desempenhando uma dessas patrulhas.
A situação revela uma contradição dramática das missões de paz contemporâneas: quanto mais a segurança de uma região se deteriora, mais necessária se torna a presença internacional — e, simultaneamente, mais vulneráveis ficam os próprios homens e mulheres encarregados de proteger civis.
O ataque ganha dimensão ainda maior quando colocado dentro da história recente do Sudão do Sul.
O país nasceu em 2011, depois de décadas de guerras contra o governo central sudanês. A independência foi recebida internacionalmente como uma das grandes mudanças políticas do continente africano naquele início de século. A expectativa era de que o fim do conflito Norte-Sul abrisse caminho para a construção de um novo Estado.
A esperança durou pouco.
Em dezembro de 2013, uma disputa pelo poder entre o presidente Salva Kiir e seu então vice-presidente Riek Machar transformou-se numa guerra civil devastadora. O conflito adquiriu rapidamente dimensões étnicas, principalmente envolvendo comunidades Dinka e Nuer, embora reduzi-lo exclusivamente a uma guerra étnica esconda as disputas pelo Estado, petróleo, território, recursos e controle político que também alimentaram a violência.
Estimativas citadas pela Reuters indicam que cerca de 400 mil pessoas morreram durante a guerra de 2013 a 2018.
O acordo de paz de 2018 deveria encerrar esse ciclo.
Kiir permaneceu presidente e Machar voltou à estrutura governamental dentro de um arranjo de compartilhamento de poder. O problema é que diversas disposições fundamentais do acordo avançaram lentamente ou permaneceram incompletas. A unificação das forças armadas, a construção de instituições nacionais efetivas, reformas políticas e a própria realização de eleições foram repetidamente adiadas.
A violência local tampouco desapareceu.
Jonglei tornou-se uma das expressões mais dramáticas desse problema. Disputas envolvendo comunidades armadas, gado, território, recursos e poder político coexistem com o conflito nacional entre governo e oposição. Isso produz uma estrutura extremamente fragmentada, na qual nem sempre é simples determinar onde termina a violência comunitária e começa uma operação vinculada às grandes forças políticas nacionais.
A deterioração recente tornou a situação ainda mais perigosa. A Associated Press observa que o acordo de paz de 2018 sofreu um colapso efetivo em diversos aspectos e que os combates entre forças governamentais e grupos ligados à oposição voltaram a alimentar temores de uma nova guerra civil.
Para a população, essas categorias diplomáticas significam algo muito concreto: abandonar casas, perder colheitas, deslocar famílias e novamente depender de organizações humanitárias para sobreviver.
E é precisamente aí que a crise sul-sudanesa se conecta a outra tragédia regional: a guerra no vizinho Sudão.
Os dois países continuam profundamente interligados por história, populações fronteiriças, comércio e petróleo. A instabilidade simultânea nos dois lados da fronteira cria um corredor de enorme vulnerabilidade no nordeste da África. Refugiados e deslocados atravessam regiões onde Estados possuem capacidade limitada de garantir segurança, enquanto recursos humanitários precisam atender múltiplas crises simultaneamente.
O Sudão do Sul também permanece economicamente extremamente vulnerável. Sua economia depende fortemente do petróleo, cuja infraestrutura de exportação está conectada ao território sudanês. Isso significa que uma guerra ocorrida ao norte da fronteira pode afetar diretamente as receitas do governo em Juba.
Esse componente econômico é central.
Um Estado com receitas fragilizadas encontra mais dificuldades para pagar servidores, sustentar instituições, financiar serviços públicos e integrar forças armadas rivais. A crise fiscal pode, portanto, retroalimentar a crise política e militar.
Ao mesmo tempo, milhões de pessoas dependem de assistência humanitária. Já em 2024, a ONU estimava que 7,1 milhões dos aproximadamente 12,4 milhões de habitantes do país enfrentariam níveis de fome considerados de crise durante o período mais difícil daquele ano.
Esse dado ajuda a compreender por que qualquer nova guerra civil seria potencialmente catastrófica.
Não se trataria simplesmente de dois exércitos retomando uma guerra interrompida em 2018. O conflito aconteceria sobre uma sociedade que passou anos acumulando deslocamentos, pobreza, insegurança alimentar, violência comunitária e instituições frágeis.
É nesse ambiente que a UNMISS tenta operar.
A missão possui mandato para proteger civis, apoiar a implementação do processo de paz, facilitar assistência humanitária e acompanhar violações de direitos humanos. Historicamente, chegou a manter dezenas de milhares de deslocados dentro de áreas protegidas por instalações das Nações Unidas. Em anos anteriores, aproximadamente 20 mil integrantes da missão protegiam cerca de 180 mil deslocados internos espalhados pelo país.
A presença internacional, porém, também enfrenta limitações materiais.
As operações de paz da ONU atravessam uma crise financeira internacional. Em 2025, a organização anunciou a necessidade de reduzir aproximadamente um quarto de seus capacetes azuis em nove operações devido à falta de recursos.
Essa realidade produz uma contradição particularmente grave para países africanos: algumas das regiões em que as missões internacionais são mais necessárias são justamente aquelas onde a ONU enfrenta maiores dificuldades financeiras e operacionais para manter sua presença.
Existe ainda outra dimensão que merece atenção a partir do Sul Global.
Os dois militares mortos eram etíopes.
Esse detalhe lembra uma característica frequentemente invisibilizada na cobertura ocidental sobre operações de paz: grande parte das tropas que assumem fisicamente os riscos das missões da ONU vem de países do próprio Sul Global.
Soldados africanos e asiáticos são enviados para proteger civis, patrulhar estradas, escoltar comboios e permanecer em regiões onde Estados e grupos armados disputam território.
Os custos humanos da manutenção da paz internacional, portanto, não são distribuídos igualmente.
A emboscada de Jonglei também eleva para nove o número de integrantes de forças de paz da ONU mortos em serviço em diferentes operações no mundo em 2026, segundo dados divulgados após o ataque.
Mais importante, entretanto, será observar o que acontecerá nas próximas semanas.
A primeira pergunta é quem realizou a emboscada.
A segunda é se o ataque foi uma ação isolada de homens armados locais ou parte de uma estratégia destinada a limitar a movimentação da UNMISS em Jonglei.
A terceira é como o governo de Salva Kiir responderá.
E a quarta — provavelmente a mais importante — é se a escalada entre forças governamentais e oposição continuará aproximando o Sudão do Sul de uma nova guerra de grande escala.
Até que existam evidências adicionais, não é possível atribuir aos assassinos dos capacetes azuis uma agenda política específica.
Mas é possível afirmar algo mais amplo.
O ambiente que tornou esse ataque possível está se deteriorando rapidamente.
Uma patrulha internacional foi atacada enquanto seguia para uma cidade recentemente disputada militarmente. Dois soldados estrangeiros morreram. Outros integrantes da missão, policiais nacionais e civis ficaram feridos. Centenas de milhares de pessoas já foram deslocadas pelos confrontos na região. E forças políticas que deveriam compartilhar o poder dentro de um acordo de paz voltaram a se enfrentar.
O Sudão do Sul já conhece o destino para o qual essa combinação pode conduzir.
Conheceu-o entre 2013 e 2018.
Foram centenas de milhares de mortos, milhões de deslocados e uma geração inteira criada sob guerra, fome e instabilidade.
Por isso, a morte dos dois capacetes azuis etíopes em Jonglei precisa ser compreendida não somente como mais um episódio de violência em um país distante dos grandes centros do sistema internacional.
Ela funciona como um alarme.
Treze anos depois de mergulhar pela primeira vez numa guerra civil e oito anos depois do acordo que deveria encerrá-la, o Estado mais jovem do mundo volta a caminhar perigosamente perto do abismo.
E, desta vez, existe uma guerra gigantesca acontecendo logo do outro lado de sua fronteira.






