Brasil cria 1,24 milhão de empregos

Novo Caged confirma a expansão do trabalho com carteira assinada em 2026, com 48,36 milhões de vínculos formais ativos e crescimento em todas as regiões brasileiras. Entretanto, a queda de 43,5% nas contratações líquidas de setembro, em comparação com o mesmo mês de 2025, revela sinais preocupantes de desaceleração. Serviços lideram a geração de vagas, enquanto juros elevados, salários ainda baixos e dificuldades de investimento colocam novos desafios ao desenvolvimento nacional.

Da Redação

O Brasil criou 1.248.914 empregos com carteira assinada entre janeiro e setembro de 2026, consolidando mais um período de expansão do mercado formal de trabalho. Os números foram divulgados nesta quarta-feira, 4 de novembro, pelo Ministério do Trabalho e Emprego, por meio do Novo Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Novo Caged), e mostram que o estoque nacional alcançou 48.359.577 vínculos ativos. O crescimento acumulado de 2,65% representa um avanço importante na incorporação de trabalhadores ao emprego formal, mas os mesmos dados revelam uma tendência de desaceleração que exige atenção: a criação líquida de vagas em setembro ficou 43,5% abaixo do resultado registrado no mesmo mês do ano anterior.

A divulgação apresenta, portanto, duas dimensões que precisam ser examinadas conjuntamente. A primeira é a continuidade da expansão do emprego com direitos trabalhistas, remuneração formalizada e acesso às garantias previstas na legislação. A segunda é a perda de velocidade desse crescimento, em um cenário no qual o Banco Central mantém a taxa básica de juros em 13,75% ao ano e diferentes indicadores apontam moderação da atividade econômica. O mercado de trabalho continua criando postos, mas o ritmo das contratações líquidas demonstra que as condições necessárias para sustentar essa trajetória não podem ser consideradas asseguradas.

Em setembro, foram abertas 121.305 vagas formais, resultado de 2.214.437 admissões e 2.093.132 desligamentos. A diferença entre contratações e demissões permaneceu positiva pelo nono mês consecutivo, demonstrando que as empresas continuaram ampliando seus quadros de pessoal. Entretanto, em setembro de 2025, o saldo havia sido de 214.609 vagas. A retração de aproximadamente 93 mil postos na comparação anual evidencia a perda de dinamismo das contratações.

A desaceleração também aparece no resultado acumulado. Nos primeiros nove meses de 2025, o país havia criado 1.731.398 empregos formais, diante de aproximadamente 1,25 milhão no mesmo intervalo de 2026. A diferença corresponde a uma redução de 27,9% na geração líquida de postos. Isso não significa que o Brasil esteja destruindo empregos em termos agregados, mas que a expansão ocorre em velocidade consideravelmente menor.

A distinção é fundamental para interpretar corretamente as estatísticas. O Novo Caged mede o saldo entre admissões e desligamentos de vínculos formais, e não o número total de pessoas empregadas no país. Um mesmo trabalhador pode participar de mais de uma movimentação ao longo do período, enquanto atividades informais e outras modalidades de ocupação não são integralmente representadas por esse indicador. Para compreender o conjunto do mercado de trabalho, também é necessário considerar pesquisas domiciliares, como a PNAD Contínua, produzida pelo IBGE.

Apesar da desaceleração, o resultado de setembro foi positivo em quatro dos cinco principais grupos de atividades econômicas. O setor de serviços liderou a expansão, com 81.241 novos empregos, respondendo por aproximadamente dois terços do saldo nacional do mês. A indústria criou 19.285 postos, o comércio acrescentou 15.697 e a construção civil registrou 9.468 vagas. A agropecuária apresentou saldo negativo de 4.381 vínculos.

A predominância dos serviços corresponde a uma característica importante da estrutura econômica brasileira. O setor reúne atividades de saúde, educação, transporte, tecnologia, comércio de serviços, administração e numerosas ocupações relacionadas ao funcionamento cotidiano das empresas e das famílias. Sua expansão pode indicar fortalecimento da demanda interna e aumento da necessidade de trabalhadores em atividades que sustentam diferentes segmentos da produção.

Dentro dos serviços, as atividades administrativas e complementares lideraram as contratações, com 18.386 postos. A saúde humana e os serviços sociais acrescentaram 15.403 vagas, enquanto transporte, armazenagem e correio responderam por 13.240. A distribuição demonstra que a criação de empregos não ficou concentrada em uma única atividade, alcançando áreas relacionadas tanto ao funcionamento empresarial quanto à prestação de serviços essenciais.

O crescimento da ocupação na saúde possui significado social particular. A ampliação de serviços médicos, hospitalares e de assistência depende de profissionais especializados e equipes de apoio. Entretanto, a quantidade de vínculos gerados não permite determinar, isoladamente, a qualidade das condições de trabalho, a distribuição regional dos profissionais ou a suficiência do atendimento oferecido à população. Esses resultados precisam ser examinados juntamente com os indicadores de financiamento e de funcionamento dos serviços.

Na indústria, o saldo positivo de 19.285 postos confirma a continuidade das contratações, mas também evidencia a necessidade de examinar a capacidade de expansão do setor. A indústria possui importância estratégica porque mobiliza cadeias produtivas, demanda tecnologia, estimula fornecedores e pode contribuir para elevar a produtividade da economia. A criação de empregos industriais representa uma dimensão relevante do desenvolvimento, mas sua sustentação depende de investimentos, mercado consumidor e condições financeiras adequadas.

A construção civil também manteve saldo positivo. O setor possui relações importantes com infraestrutura, habitação, saneamento e investimentos públicos e privados. Sua expansão pode estimular atividades fornecedoras de materiais, transporte e serviços especializados. Entretanto, o custo do financiamento influencia diretamente a viabilidade de numerosos empreendimentos, tornando o setor particularmente sensível às condições monetárias.

A agropecuária foi a única grande atividade com saldo negativo em setembro. A redução de 4.381 postos pode refletir fatores sazonais relacionados ao calendário agrícola, incluindo encerramento de colheitas e mudanças na demanda por mão de obra em determinados cultivos. Não seria adequado interpretar esse resultado mensal, isoladamente, como uma contração estrutural de todo o setor. A avaliação exige considerar o comportamento acumulado do ano, a produção agrícola e as diferenças regionais.

A distribuição territorial dos empregos apresentou outro resultado importante. Das 27 unidades da Federação, 26 registraram saldo positivo em setembro. Todas as cinco regiões brasileiras apresentaram expansão líquida, demonstrando que a criação de empregos alcançou praticamente todo o território nacional, embora em intensidades diferentes.

O Nordeste liderou a geração de vagas, com 49.142 novos empregos, seguido pelo Sudeste, que registrou 39.404. O Norte apresentou saldo de 14.748 postos, o Sul acrescentou 9.949 e o Centro-Oeste criou 7.894 vínculos formais. A participação nordestina merece atenção porque a região enfrenta desigualdades históricas de renda, infraestrutura e oportunidades produtivas em relação às áreas mais industrializadas do país.

A expansão regional do emprego pode contribuir para fortalecer mercados consumidores locais e ampliar a capacidade de financiamento das famílias. Trabalhadores formalmente contratados recebem remuneração registrada e passam a contar com direitos associados à legislação trabalhista, conforme as características de seus vínculos. A ampliação da renda do trabalho pode estimular atividades comerciais e de serviços, produzindo efeitos adicionais sobre a economia regional.

Entretanto, o crescimento de determinado mês não permite concluir que as desigualdades territoriais estejam sendo superadas. Para avaliar mudanças estruturais, é necessário observar a continuidade das contratações, a qualidade dos empregos, os salários, a produtividade e a capacidade de desenvolver setores industriais e tecnológicos de maior valor agregado.

Entre os estados, São Paulo apresentou o maior saldo absoluto de setembro, com 19.391 postos. Pernambuco apareceu em seguida, com 13.371, e Alagoas registrou 11.110. Em termos proporcionais, Alagoas liderou a expansão, com crescimento de 2,47% sobre seu estoque de empregos formais, seguido pelo Amapá, com 1,35%, e por Roraima, com 1,23%.

Esses resultados demonstram a importância de distinguir quantidade absoluta e crescimento relativo. Estados com economias maiores podem criar mais empregos em números totais, enquanto unidades federativas com estoques menores podem apresentar expansões percentuais mais intensas. Ambos os indicadores são relevantes, mas oferecem informações diferentes sobre a dinâmica do mercado de trabalho.

O recorte por sexo revela que as mulheres ocuparam a maior parcela do saldo formal de setembro. Foram registrados 62.989 vínculos líquidos femininos, diante de 59.129 masculinos. O resultado confirma a participação importante das trabalhadoras na expansão das contratações, mas não demonstra, por si só, que as desigualdades de remuneração e ocupação entre homens e mulheres tenham sido eliminadas.

A avaliação dessas diferenças exige considerar atividades econômicas, jornadas, escolaridade, distribuição de cargos e remunerações. Mulheres podem apresentar maior saldo de contratação em determinado período e continuar concentradas em ocupações de menor remuneração ou enfrentar dificuldades para acessar posições de direção. O avanço quantitativo precisa ser acompanhado por indicadores de qualidade e igualdade de oportunidades.

Os trabalhadores mais jovens também tiveram participação expressiva. A faixa etária de até 24 anos concentrou saldo positivo de 106.293 postos em setembro. O número demonstra que a expansão das contratações alcançou intensamente pessoas em processo de ingresso ou consolidação no mercado de trabalho.

Esse resultado merece ser valorizado porque o início da trajetória profissional constitui uma etapa importante da vida econômica. O emprego formal pode contribuir para desenvolver experiência, ampliar a renda e estabelecer vínculos com atividades produtivas. Entretanto, a concentração de vagas entre jovens também exige avaliar salários iniciais, rotatividade e possibilidades de progressão profissional, evitando confundir acesso ao primeiro emprego com garantia de estabilidade e desenvolvimento de carreira.

Na distribuição por escolaridade, pessoas com ensino médio completo apresentaram o maior saldo, com 82.818 vínculos. Trabalhadores com ensino médio incompleto registraram 17.258 postos. Os números mostram a importância dessa etapa educacional para o mercado formal brasileiro e reforçam a necessidade de políticas capazes de articular formação escolar, educação profissional e oportunidades de emprego.

O desenvolvimento nacional exige ampliar essa articulação. Uma economia que pretende modernizar sua indústria e disputar setores tecnológicos precisa oferecer formação compatível com atividades de maior complexidade. Universidades, institutos federais, escolas técnicas e programas de qualificação possuem papel estratégico na formação de profissionais e na ampliação da produtividade.

A distribuição por cor ou raça, conforme os registros administrativos divulgados, mostrou saldo expressivo entre trabalhadores pardos e pretos. Entretanto, a interpretação desses números requer cautela, considerando possíveis diferenças na qualidade do preenchimento das informações e a influência das declarações registradas pelos empregadores. A análise das desigualdades raciais no trabalho depende de séries consistentes que também considerem remuneração, ocupação e acesso a oportunidades.

A remuneração representa uma dimensão indispensável para compreender a qualidade da expansão do emprego. Em setembro, o salário médio real de admissão foi de R$ 2.429,41. Na comparação com setembro de 2025, houve aumento de R$ 44,90, correspondente a uma variação real de 1,88%. O crescimento demonstra uma melhora do rendimento inicial de contratação, mas o patamar salarial ainda evidencia as dificuldades enfrentadas por trabalhadores para financiar necessidades como alimentação, moradia, transporte e serviços.

A distinção entre emprego e qualidade da renda é fundamental. Uma economia pode ampliar o número de trabalhadores formalmente contratados sem assegurar, na mesma proporção, capacidade de consumo, estabilidade financeira e condições adequadas de vida. A remuneração precisa ser examinada diante do custo dos bens essenciais e das diferenças de produtividade entre setores.

Os dados do Ministério do Trabalho mostram que trabalhadores classificados em vínculos típicos receberam salário médio de admissão de R$ 2.480,24, enquanto os vínculos não típicos apresentaram média de R$ 2.054,61. A diferença de 15,4% em relação à média geral demonstra a importância de observar a composição das contratações.

A categoria de vínculos não típicos reúne modalidades de trabalho com características diferentes, incluindo determinadas jornadas reduzidas e contratos específicos. A existência dessas modalidades não significa automaticamente precarização, mas exige atenção às condições contratuais, à proteção social e às oportunidades de progressão profissional.

O principal alerta econômico do Novo Caged, contudo, está na desaceleração das contratações. Setembro apresentou o menor saldo para esse mês desde o início da série atual, em 2020. A comparação com o ano anterior mostra perda de intensidade em praticamente todos os grandes setores, revelando que o mercado de trabalho continua crescendo, mas enfrenta pressões importantes.

O ministro do Trabalho, Luiz Marinho, atribuiu parte da perda de dinamismo ao nível elevado dos juros. A avaliação encontra fundamento nos mecanismos conhecidos de transmissão da política monetária: crédito caro pode reduzir investimento, consumo financiado e expansão das empresas, afetando a demanda por trabalhadores. Entretanto, a contribuição específica da Selic para a desaceleração observada não pode ser quantificada apenas pelos dados do Caged, pois outros fatores também influenciam as decisões de contratação.

A taxa Selic permanece em 13,75% ao ano depois da decisão do Copom de 4 de novembro, que interrompeu cinco reduções consecutivas. A autoridade monetária justificou a manutenção pela persistência dos riscos inflacionários e pela deterioração de determinadas expectativas. O controle dos preços constitui uma responsabilidade importante, especialmente porque a inflação afeta o poder de compra das famílias.

Entretanto, a política monetária também produz custos econômicos. Empresas que dependem de financiamento enfrentam condições menos favoráveis para ampliar investimentos. Famílias podem reduzir consumo diante do encarecimento do crédito. Projetos industriais e de infraestrutura podem ser adiados quando as condições financeiras diminuem sua viabilidade. Esses mecanismos ajudam a compreender por que o debate sobre juros não pode ser separado das políticas de emprego.

A questão torna-se especialmente relevante diante da preparação do quarto mandato de Lula. O governo pretende ampliar investimentos, fortalecer a indústria, modernizar infraestrutura e melhorar serviços públicos, ao mesmo tempo que anuncia preocupação com a trajetória fiscal. A combinação entre limites orçamentários e juros elevados pode dificultar a expansão da capacidade produtiva necessária para sustentar o crescimento do emprego.

A criação de vagas depende da existência de empresas capazes de produzir, vender e investir. O consumo das famílias possui importância central nesse processo, mas sua sustentação também exige salários adequados e estabilidade econômica. Investimentos públicos em infraestrutura, educação e tecnologia podem ampliar a produtividade e contribuir para gerar oportunidades, desde que executados com planejamento e responsabilidade financeira.

A política industrial possui papel importante porque empregos de maior produtividade podem favorecer salários mais elevados e ampliar a capacidade de arrecadação do Estado. O desenvolvimento de cadeias produtivas estratégicas permite reduzir determinadas dependências externas e estimular atividades científicas e tecnológicas. O crescimento do emprego formal ganha maior profundidade econômica quando acompanhado por investimentos capazes de transformar a estrutura produtiva nacional.

Também é necessário considerar a participação das pequenas e médias empresas. Esses negócios desempenham papel importante na geração de empregos e estão particularmente expostos às dificuldades de financiamento, à oscilação da demanda e aos custos administrativos. Políticas que ampliem acesso a crédito produtivo, qualificação e infraestrutura podem contribuir para melhorar suas condições de operação.

O desempenho regional dos empregos oferece oportunidades nesse sentido. A expansão observada no Nordeste e no Norte pode ser fortalecida por investimentos em transporte, energia, saneamento e formação profissional. A capacidade de transformar contratações conjunturais em trajetórias duradouras de desenvolvimento depende da criação de condições produtivas que sustentem novas atividades econômicas.

Os números de 2026 demonstram, portanto, um avanço real que precisa ser preservado, mas não autorizam uma avaliação complacente da conjuntura. A criação de aproximadamente 1,25 milhão de vagas formais em nove meses amplia o número de vínculos protegidos pela legislação. Ao mesmo tempo, a queda expressiva do saldo em relação a 2025 sinaliza a necessidade de examinar as forças que estão reduzindo o ritmo das contratações.

O governo terá de enfrentar esse desafio em um ambiente de incertezas nacionais e internacionais. Custos energéticos, condições comerciais, inflação, juros e expectativas empresariais influenciam o comportamento da economia. A resposta exige coordenação entre instrumentos monetários, fiscais, industriais e sociais, sem pressupor que qualquer um deles seja suficiente isoladamente.

A evolução do mercado de trabalho também precisa ser acompanhada pela capacidade de ampliar a renda real. O salário médio de contratação aumentou na comparação anual, mas continua distante de assegurar conforto financeiro para grande parte das famílias, especialmente nas cidades onde moradia, alimentação e transporte absorvem parcelas elevadas do orçamento doméstico. A melhoria das condições de vida depende da combinação entre emprego, remuneração, estabilidade de preços e serviços públicos acessíveis.

A população avalia a economia a partir dessas experiências concretas. O crescimento do número de empregos representa uma conquista quando amplia oportunidades e permite que trabalhadores ingressem em relações formalizadas. Entretanto, sua sustentabilidade será determinada pela continuidade das contratações, pela qualidade dos vínculos e pela capacidade de transformar a expansão econômica em melhoria efetiva das condições materiais de vida.

O Novo Caged confirma que o Brasil continua criando empregos formais e alcançou quase 48,36 milhões de vínculos ativos em setembro de 2026. O resultado acumulado de 1,25 milhão de novas vagas representa um avanço importante, especialmente pela abrangência regional e pela participação de mulheres e jovens. Entretanto, a queda de 43,5% no saldo mensal em relação ao ano anterior demonstra que o mercado de trabalho perdeu dinamismo. Preservar e ampliar essas conquistas exigirá mais do que comemorar resultados positivos: será necessário sustentar investimentos produtivos, enfrentar os obstáculos associados ao custo do crédito, ampliar a qualificação profissional e assegurar que a geração de empregos seja acompanhada por salários capazes de melhorar a vida dos trabalhadores. O objetivo econômico fundamental não deve ser apenas criar mais postos de trabalho, mas construir uma estrutura produtiva capaz de oferecer empregos estáveis, direitos e prosperidade social duradoura.