Da Redação
O governo Lula sinaliza que está disposto a discutir com os Estados Unidos temas como minerais críticos e regras para plataformas digitais, mas rejeita interferência política no Judiciário.
O governo de Luiz Inácio Lula da Silva considera que, nas negociações comerciais com os Estados Unidos, “tudo está sobre a mesa” — incluindo temas sensíveis como mineração estratégica e regulação das plataformas digitais — exceto pressões políticas diretas para favorecer o Judiciário ou beneficiá-lo em casos específicos. Essa disposição surge no momento em que o Brasil busca reaproximação com Washington após episódios de tensões e sobretaxas comerciais americanas.
Durante a recente Assembleia Geral da ONU, Lula teve um breve contato com Donald Trump. Embora ainda não haja convites oficiais formalizados, o governo brasileiro espera realizar reuniões nos próximos dias, possivelmente até por meio virtual. Fontes governamentais indicam que não houve pedidos concretos dos EUA até agora, apenas especulações sobre as prioridades da Casa Branca, especialmente após o anúncio de um “tarifaço” que impôs sobretaxas de até 50% para produtos brasileiros exportados.
Minerais estratégicos e energia do futuro
Um dos pontos mais sensíveis na pauta bilateral envolve minerais estratégicos — como lítio, nióbio e terras raras — fundamentais para indústrias de baterias, tecnologia verde e componentes eletrônicos. Em julho, o encarregado de negócios da embaixada dos EUA em Brasília chegou a contatar representantes do setor mineral para manifestar interesse em acordos de cooperação ou investimentos nesses segmentos. Da parte brasileira, Lula já havia sinalizado abertura para parcerias internacionais, desde que supervisionadas por estruturas nacionais de soberania, como conselhos presidenciais que definam diretrizes de exploração.
Para o Ministério da Fazenda, liderado por Fernando Haddad, a expectativa é retomar termos de acordos que estavam em estudo antes, envolvendo temas como energia limpa, transformação produtiva e mineração. Haddad afirma que há base técnica para avanços se a relação bilateral “voltar à normalidade”.
Regulação digital na mira
Outro ponto de convergência possível entre Brasil e EUA é a regulação de plataformas digitais (big techs). O governo brasileiro já avançou na ideia de uma lei para responsabilizar empresas de internet por conteúdos públicos, especialmente para proteger minorias e crianças. No entanto, diante da resistência política interna, o Planalto fez recuos: a proposta enviada ao Congresso será mais restrita, centrada em aspectos econômicos (concorrência, transparência), e não na moderação de conteúdo, para evitar acusações de censura.
Autoridades nos EUA manifestaram preocupação com regulações digitais que possam ser usadas como mecanismo de controle ou limitação da liberdade de expressão — um ponto em que posições divergentes poderão gerar embates se as negociações forem adiante.
Resistência e riscos do setor privado brasileiro
Enquanto governo fortalece a agenda diplomática e comercial, empresários brasileiros veem com cautela possíveis exigências americanas que favoreçam empresas estrangeiras ou imponham regulamentações desfavoráveis ao Brasil. Há receio de que o país acabe aceitando condições assimétricas em troca de acesso a mercados e investimentos. A pressão será maior nas semanas seguintes, com atendimento político a interesses regionais e industriais.
A disputa política entre Câmara e Senado sobre temas legislativos — como regulação digital, reformas fiscais e acordos comerciais — poderá complicar o compromisso exclusivo do Executivo na negociação externa. O sucesso dependerá da coerência interna, capacidade de negociação e equilíbrio entre soberania e pragmatismo.


