Da Redação
Aproximação entre Lula e Claudia Sheinbaum avança do diálogo político para comércio, energia e coordenação diplomática, num momento em que a América Latina volta a ser pressionada pela política hemisférica de Donald Trump e enfrenta uma nova correlação de forças regionais
Brasil e México começam a transformar uma histórica relação de cordialidade, mas de integração econômica aquém de seu potencial, em uma articulação política de alcance regional. A aproximação entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Claudia Sheinbaum ganhou até um nome nos círculos diplomáticos e políticos: “Bramex”. Mais importante do que a expressão, porém, é aquilo que começa a existir por trás dela. As duas maiores economias da América Latina estão ampliando simultaneamente a cooperação comercial, energética, diplomática e política num momento em que o governo Donald Trump procura reafirmar a primazia dos Estados Unidos sobre o continente.
O movimento ganhou novo impulso nos últimos dias. Lula e Sheinbaum conversaram por videoconferência e discutiram ampliação do comércio, aproximação entre Petrobras e Pemex, cooperação social e coordenação diplomática. Os dois governos também convergem no apoio à candidatura da ex-presidente chilena Michelle Bachelet para suceder António Guterres na Secretaria-Geral das Nações Unidas. Lula ainda apresentou a Sheinbaum uma proposta defendida pela primeira-dama Janja Lula da Silva para ampliar internacionalmente a mobilização contra o feminicídio.
A conversa presidencial não ocorreu isoladamente. Em 6 de agosto, Brasília recebeu a VI Reunião da Comissão Binacional Brasil-México, mecanismo institucional destinado justamente a aprofundar a relação bilateral. A declaração conjunta divulgada pelo Itamaraty registrou a convergência entre os dois governos e uma agenda extensa de cooperação. O processo dá continuidade a iniciativas desenvolvidas desde 2025 para modernizar e ampliar os acordos econômicos entre os países.
É essa combinação que torna a aproximação mais relevante do que uma simples afinidade entre dois presidentes progressistas. Brasil e México representam, juntos, uma parcela enorme da população, da produção industrial, do mercado consumidor e da capacidade diplomática da América Latina. São também países com relações profundamente diferentes com os Estados Unidos: enquanto o México está integrado geográfica e economicamente à América do Norte e depende fortemente do mercado norte-americano, o Brasil possui maior margem de diversificação internacional e construiu nas últimas décadas uma inserção cada vez mais ligada à China, ao Sul Global e aos BRICS.
As diferenças não desaparecerão. Elas são justamente o que torna uma coordenação entre Brasília e Cidade do México estrategicamente interessante.
O México dificilmente poderá desenvolver uma política externa de enfrentamento frontal aos Estados Unidos. Compartilha com o país uma fronteira de mais de 3 mil quilômetros, possui cadeias produtivas profundamente integradas à economia norte-americana e participa do acordo comercial USMCA. Migração, narcotráfico, indústria, energia e investimentos tornam a relação com Washington uma questão estrutural para qualquer governo mexicano.
Sheinbaum, contudo, vem estabelecendo limites claros quando a pressão norte-americana alcança a soberania mexicana. Essa posição ganhou importância diante da crescente disposição do governo Trump de utilizar instrumentos militares no combate a cartéis latino-americanos. A presidente mexicana rejeita a possibilidade de forças dos Estados Unidos operarem unilateralmente dentro de seu país.
O Brasil enfrenta um problema diferente, mas relacionado. A crise com Washington envolve tarifas, pressões comerciais, questionamentos sobre políticas brasileiras e uma crescente preocupação em Brasília com tentativas de interferência externa no processo eleitoral. Nesta semana, o governo brasileiro acionou formalmente mecanismos previstos na Lei da Reciprocidade Econômica depois das novas tarifas norte-americanas, ao mesmo tempo em que Lula voltou a rejeitar qualquer ingerência estrangeira nas eleições brasileiras.
Nesse ambiente, Brasil e México encontram uma área comum: a defesa de que as relações com Washington não podem significar submissão política.
Essa convergência já havia aparecido anteriormente. Em conversas realizadas neste ano, Lula e Sheinbaum destacaram compromisso com democracia, soberania e cooperação latino-americana, além de tratarem de comércio, energia, ciência, inovação, cultura e saúde. O México também aderiu à Aliança Global contra a Fome e a Pobreza, lançada pelo Brasil durante a presidência brasileira do G20.
Duas gigantes econômicas que ainda negociam muito menos do que poderiam
A dimensão econômica talvez seja o terreno no qual o “Bramex” poderá deixar de ser apenas uma formulação política e adquirir estrutura permanente.
Brasil e México possuem grandes mercados internos, parques industriais diversificados, agricultura competitiva, empresas multinacionais e capacidades tecnológicas relevantes. Apesar disso, a relação comercial bilateral historicamente permaneceu abaixo das possibilidades oferecidas pelas duas economias.
Esse diagnóstico aparece nos próprios entendimentos governamentais. Brasil e México vêm trabalhando na atualização dos Acordos de Complementação Econômica nº 53 e nº 55, mecanismos que regulam parcelas importantes das relações comerciais entre os dois países. Em 2025, foi estabelecido um plano de trabalho para modernizá-los e ampliar a integração econômica.
Há uma lógica estratégica nisso.
Quanto maior a capacidade de Brasil e México comerciarem diretamente, desenvolverem cadeias produtivas complementares e ampliarem investimentos recíprocos, menor será a vulnerabilidade de suas economias a choques externos. Não significa substituir Estados Unidos, China ou União Europeia. Significa aumentar as alternativas.
A diferença é fundamental.
Soberania econômica no século XXI não pressupõe isolamento. Pelo contrário: quanto maior o número de mercados, fornecedores, fontes de financiamento e parceiros tecnológicos disponíveis, menor a capacidade de uma única potência utilizar a dependência econômica como instrumento de pressão.
Nesse sentido, a aproximação Brasil-México pode assumir um significado que ultrapassa os dois países. Uma integração econômica latino-americana construída em torno de grandes mercados nacionais oferece aos países da região maior capacidade de negociação diante de Estados Unidos, China e União Europeia.
A América Latina possui mais de 650 milhões de habitantes, enormes reservas de energia, água, alimentos, minerais críticos e biodiversidade. Entretanto, continua profundamente fragmentada economicamente. Grande parte das economias regionais mantém relações comerciais mais intensas com potências externas do que entre si.
Brasil e México possuem escala suficiente para começar a alterar essa equação.
Petrobras e Pemex podem dar conteúdo material à aproximação
Um dos pontos mais interessantes das conversas recentes é a aproximação entre Petrobras e Pemex.
As duas empresas possuem importância que ultrapassa seus balanços empresariais. São instrumentos centrais das políticas energéticas das duas maiores economias latino-americanas e carregam enorme peso histórico na formação de seus respectivos Estados nacionais.
No México, a nacionalização do petróleo promovida por Lázaro Cárdenas em 1938 transformou a Pemex em símbolo da soberania nacional. No Brasil, a criação da Petrobras em 1953, depois da campanha “O petróleo é nosso”, também nasceu diretamente de uma disputa sobre quem controlaria os recursos estratégicos do país.
Quase um século depois da nacionalização mexicana e mais de sete décadas depois da criação da Petrobras, as duas empresas voltam a aparecer juntas justamente num momento de reorganização da ordem energética mundial.
Lula e Sheinbaum discutiram possibilidades de cooperação entre as companhias. A agenda pode envolver conhecimento tecnológico, exploração e produção, refino, transição energética e outras áreas de interesse comum.
Uma parceria mais profunda entre Petrobras e Pemex teria significado econômico evidente, mas também político. Energia permanece no centro das disputas de poder mundial, como demonstram as guerras, sanções, bloqueios e disputas por petróleo, gás, minerais críticos e infraestrutura energética que atravessam a política internacional.
Brasil e México possuem capacidades complementares e podem compartilhar tecnologia e experiência sem necessariamente depender de empresas sediadas nas grandes potências.
Esse é exatamente o tipo de integração material capaz de transformar discursos sobre integração latino-americana em estruturas concretas.
Trump e Milei ajudam a explicar o momento, mas não deveriam definir o projeto
A expressão “Bramex” ganhou força também porque a aproximação ocorre em contraste com outra articulação política no continente.
Donald Trump procura reconstruir a influência norte-americana sobre a América Latina num ambiente em que governos ideologicamente próximos a Washington oferecem apoio a essa estratégia. Javier Milei, na Argentina, tornou-se um dos principais aliados de Trump na região e rompeu com a tradição argentina de busca de alguma margem de autonomia diante das grandes potências.
Essa reorganização produz uma divisão política importante no continente.
De um lado, governos dispostos a estreitar sua inserção na arquitetura estratégica norte-americana. De outro, países que procuram preservar maior autonomia internacional, ainda que mantenham relações econômicas e diplomáticas com Washington.
Brasil e México aparecem hoje como os dois países de maior peso nesse segundo grupo.
Mas seria um erro construir a relação bilateral apenas como resposta a Trump ou Milei.
Governos passam.
Uma aliança estratégica verdadeira precisa sobreviver às mudanças eleitorais dos quatro países.
O desafio de Lula e Sheinbaum, portanto, é transformar afinidade política em institucionalidade: acordos comerciais, integração empresarial, mecanismos diplomáticos permanentes, cooperação científica, infraestrutura, intercâmbio universitário, políticas sociais compartilhadas e projetos conjuntos capazes de continuar funcionando quando os atuais presidentes já não estiverem no poder.
Essa é a diferença entre uma aliança de governos e uma parceria entre Estados.
Brasil e México podem reconstruir uma voz latino-americana
Existe ainda uma dimensão política maior.
Durante diferentes períodos históricos, Brasil e México exerceram papéis centrais na diplomacia latino-americana, mas raramente atuaram de maneira verdadeiramente coordenada. O México esteve historicamente concentrado na América do Norte, enquanto o Brasil voltou grande parte de sua política regional para a América do Sul e o Mercosul.
Essa separação enfraqueceu a capacidade da América Latina de falar coletivamente.
Uma aproximação consistente entre Brasília e Cidade do México poderia funcionar como ponte entre América do Sul, América Central, Caribe e América do Norte latino-americana.
Não significaria criar um eixo destinado a comandar os demais países. Qualquer tentativa de reproduzir internamente uma lógica de hegemonia encontraria resistência legítima. O potencial está justamente na capacidade das duas maiores economias de fornecer massa crítica para iniciativas multilaterais.
Defesa da democracia, combate à fome, transição energética, industrialização, integração produtiva, reforma da governança mundial, combate ao feminicídio e fortalecimento das Nações Unidas já aparecem na agenda compartilhada.
O apoio conjunto a Michelle Bachelet para a Secretaria-Geral da ONU simboliza essa ambição. Brasil e México defendem que a ex-presidente chilena se torne a primeira mulher a comandar a organização.
Há nisso uma tentativa de recuperar capacidade de iniciativa latino-americana em uma ordem internacional cada vez mais disputada.
O mundo caminha para uma configuração na qual Estados Unidos e China disputam poder econômico e tecnológico, a Rússia desafia militarmente a arquitetura europeia, a Índia aumenta rapidamente sua influência e países do Sul Global procuram ampliar participação nas instituições internacionais.
Uma América Latina fragmentada tende a permanecer objeto dessas disputas.
Uma América Latina capaz de coordenar interesses possui maior possibilidade de se transformar em sujeito.
O “Bramex” será importante se deixar de precisar desse nome
Por enquanto, “Bramex” é uma expressão política útil para descrever uma aproximação real, mas ainda em construção. Não existe uma nova organização internacional Brasil-México, um tratado de aliança ou um bloco formal com esse nome. A expressão não deve ser confundida com uma instituição já constituída.
O que existe é potencialmente mais importante: uma convergência crescente entre os governos das duas maiores economias latino-americanas.
Lula e Sheinbaum compartilham posições sobre democracia e soberania, procuram ampliar comércio e investimentos, aproximam Petrobras e Pemex, coordenam posições diplomáticas e defendem maior protagonismo latino-americano nas instituições internacionais. Tudo isso ocorre justamente quando a pressão dos Estados Unidos sobre o continente aumenta e governos aliados de Washington procuram reorganizar a correlação regional.
A prova definitiva dessa aproximação, contudo, não será uma fotografia entre Lula e Sheinbaum.
Será aquilo que permanecer depois deles.
Se Brasil e México conseguirem transformar a atual convergência em cadeias produtivas compartilhadas, comércio ampliado, cooperação energética, desenvolvimento tecnológico, articulação diplomática e mecanismos permanentes de integração, estarão criando algo que a América Latina tentou diversas vezes ao longo de sua história sem conseguir consolidar: um centro próprio de gravidade política e econômica suficientemente grande para dialogar com Washington, Pequim, Bruxelas, Moscou ou qualquer outra potência sem precisar gravitar automaticamente em torno de nenhuma delas.
Em tempos de Trump e Milei, essa possibilidade ganha urgência. Mas seu verdadeiro significado está muito além dos dois. A questão central é saber se Brasil e México conseguirão transformar uma convergência conjuntural em um projeto estratégico latino-americano de longo prazo.
Se conseguirem, o “Bramex” poderá deixar de ser apenas um apelido diplomático e representar algo muito mais profundo: o reencontro das duas maiores potências da América Latina em torno da ideia de que o continente precisa voltar a decidir seu próprio destino.



