Da Redação
Jornalista e escritor participa nesta quinta-feira (10) de encontro promovido pela Coluna Retroceder Jamais e apresenta ao público cearense a biografia de Marisa Letícia Lula da Silva e “Nunca Mais”, livro-reportagem que reconstrói a operação clandestina responsável por documentar milhares de relatos de violência e tortura durante a ditadura militar.
Fortaleza recebe nesta quinta-feira, 10 de setembro, o jornalista e escritor Camilo Vannuchi para um encontro dedicado a dois trabalhos que se cruzam em um mesmo território: memória, democracia e reconstrução histórica. Conforme a divulgação do evento, Vannuchi será convidado da Coluna Retroceder Jamais, grupo de apoio à candidatura de Luizianne Lins ao Senado, em atividade marcada para as 19h no Comitê 180, onde apresentará a biografia Marisa Letícia Lula da Silva e seu trabalho mais recente, Nunca Mais: Os Bastidores da Maior Denúncia Contra a Tortura Já Feita no Brasil. Por se tratar de evento inserido no ambiente eleitoral, essa vinculação política precisa ser registrada com clareza; o conteúdo das duas obras, porém, possui trajetória editorial própria e anterior à atividade de Fortaleza.
Os livros partem de objetos bastante diferentes. Um recupera a trajetória de uma mulher cuja imagem pública durante décadas esteve quase inteiramente subordinada à de Lula. O outro retorna ao coração documental da repressão política brasileira para contar como advogados, religiosos, jornalistas e pesquisadores conseguiram copiar clandestinamente processos da própria Justiça Militar e transformá-los em uma das maiores coleções de provas sobre a tortura praticada pelo Estado durante a ditadura. Juntos, eles mostram uma característica recorrente do trabalho de Vannuchi: procurar personagens, documentos e acontecimentos que permaneceram parcialmente escondidos atrás das grandes narrativas políticas.
A biografia Marisa Letícia Lula da Silva nasceu de uma pesquisa extensa. Segundo informações editoriais da obra, Vannuchi trabalhou durante quase três anos, entrevistou mais de 90 pessoas e produziu um volume de 408 páginas acompanhado por dezenas de fotografias. O percurso começa muito antes de Marisa tornar-se primeira-dama. Filha de imigrantes italianos radicados na região de São Bernardo do Campo, ela trabalhou ainda criança como babá e, aos 13 anos, ingressou como operária na fábrica Dulcora, interrompendo os estudos.
Essa origem operária é fundamental para compreender o livro. Vannuchi procura retirar Marisa do lugar secundário que frequentemente lhe foi atribuído na narrativa política brasileira e reconstruir sua existência como personagem histórica com trajetória própria. A pesquisa percorre sua juventude, a maternidade, o relacionamento com Lula, a vida familiar, a formação do Partido dos Trabalhadores, as campanhas eleitorais e os anos em Brasília. A editora descreve a obra como resultado de investigação destinada justamente a confrontar representações públicas que, durante décadas, reduziram Marisa ao papel convencional de esposa do dirigente sindical que chegou à Presidência.
O trabalho também ajuda a recuperar a dimensão material da política brasileira das décadas de 1970 e 1980. Antes das campanhas profissionalizadas, das redes sociais e das grandes estruturas de comunicação, havia casas transformadas em pontos de encontro, militantes carregando panfletos, famílias participando da organização cotidiana e mulheres executando tarefas essenciais que raramente apareciam nas fotografias ou nos registros oficiais. A trajetória de Marisa se cruza com esse mundo: a industrialização do ABC paulista, as greves operárias, a reorganização sindical e a formação de uma nova esquerda após duas décadas de ditadura.
É precisamente nesse ponto que a biografia encontra, por outra estrada, o segundo livro que Vannuchi leva a Fortaleza.
Nunca Mais: Os Bastidores da Maior Denúncia Contra a Tortura Já Feita no Brasil mergulha numa das operações documentais mais extraordinárias realizadas durante o processo de abertura política. Entre 1979 e 1985, um grupo de advogados, religiosos, pesquisadores, jornalistas e colaboradores trabalhou clandestinamente para copiar e analisar 707 processos judiciais de perseguidos políticos que haviam chegado ao Superior Tribunal Militar. A operação reuniu aproximadamente 1 milhão de páginas e quase 2 mil relatos de tortura, permitindo identificar 242 centros de tortura e 444 torturadores, segundo os dados apresentados pela Unicamp e pela própria edição do livro.
A dimensão dessa operação é difícil de compreender sem lembrar as condições em que ocorreu. O regime militar ainda existia. Os documentos não estavam sendo entregues voluntariamente pelo Estado para uma comissão da verdade. O material precisava ser obtido a partir dos próprios processos judiciais, copiado e preservado antes que pudesse desaparecer ou tornar-se inacessível. O trabalho desenvolvido entre 1979 e 1985 terminaria alimentando o histórico projeto Brasil: Nunca Mais, cuja publicação em livro se tornou um marco na documentação das violações de direitos humanos cometidas durante a ditadura.
O método possuía uma força particular: grande parte das provas vinha da documentação produzida pelo próprio aparato estatal. Em vez de depender exclusivamente de testemunhos posteriores ao regime, os pesquisadores examinaram processos que haviam tramitado na Justiça Militar e nos quais vítimas e presos políticos registraram denúncias de tortura. A documentação produzida pelo sistema repressivo acabou, assim, ajudando a construir o arquivo histórico de suas próprias violações.
Décadas depois, Vannuchi retornou a esse acervo para responder a uma pergunta diferente. A história do Brasil: Nunca Mais era conhecida; muito menos conhecidos eram os homens e mulheres que fizeram a operação funcionar, as condições concretas em que os documentos foram copiados, transportados, organizados e analisados e os riscos assumidos por quem participou do trabalho.
É essa história subterrânea que Nunca Mais procura recuperar.
O autor mergulhou no acervo preservado no Arquivo Edgard Leuenroth, da Unicamp, e reconstruiu a rede responsável pela operação. Em entrevista sobre seu método de trabalho, Vannuchi explicou que utiliza documentos não simplesmente para acumular informação, mas para verificar relatos e recriar de maneira concreta uma época. Um dos episódios recuperados pelo escritor envolve Avel de Alencar, que tinha apenas 17 anos quando participou da reprodução dos processos em Brasília e, enquanto manuseava aquelas páginas, começou a perceber que estava diante de histórias de tortura, mortes e desaparecimentos.
Esse detalhe ajuda a entender a contribuição do novo livro. A história da ditadura costuma ser narrada a partir dos grandes protagonistas — generais, presidentes, ministros, dirigentes políticos, guerrilheiros, líderes religiosos e intelectuais. Vannuchi desloca parte do foco para a infraestrutura humana que permitiu preservar a memória: quem xerocava, quem transportava, quem organizava, quem escondia, quem analisava, quem construía silenciosamente um arquivo enquanto o regime responsável por aquelas violações ainda permanecia no poder.
A investigação histórica ganhou reconhecimento em 2026. O livro foi apresentado em abril em um encontro sobre Memória e Democracia realizado pelo Instituto de Filosofia e Ciências Humanas e pelo Arquivo Edgard Leuenroth da Unicamp. A universidade destacou justamente o esforço de revelar os “heróis anônimos” do projeto. Meses depois, a Udesc anunciou Vannuchi para atividades acadêmicas sobre a ditadura e informou que Nunca Mais estava entre os dez semifinalistas da categoria História do Prêmio Jabuti Acadêmico de 2026.
Há ainda uma conexão familiar significativa. Camilo é filho do jornalista e militante Paulo Vannuchi, que participou do universo político e de direitos humanos ligado à resistência à ditadura e posteriormente seria ministro da Secretaria Especial dos Direitos Humanos. Mas o livro não se sustenta apenas nessa proximidade. A pesquisa procura reconstruir documentalmente uma operação coletiva que envolveu dezenas de pessoas e instituições.
O Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo também colocou essa história no centro do Troféu Audálio Dantas 2026, dedicado aos participantes do projeto Brasil: Nunca Mais e ao trabalho posterior de Camilo Vannuchi na recuperação de seus bastidores. A homenagem associa o jornalista às dezenas de “agentes discretos” que participaram daquela operação entre 1979 e 1985.
Essa recuperação histórica possui importância que ultrapassa a literatura. O Brasil passou décadas discutindo como lidar com o legado da ditadura, os desaparecidos políticos, os arquivos militares, a responsabilização por violações de direitos humanos e o direito das vítimas e de suas famílias à verdade. Documentos são fundamentais porque transformam memória em evidência histórica verificável. O próprio método do Brasil: Nunca Mais demonstrou isso ao utilizar milhares de páginas provenientes do sistema judicial para reconstruir práticas repressivas que o Estado autoritário procurava negar ou minimizar.
Também por isso é importante separar memória histórica de disputa eleitoral. O evento de Fortaleza ocorre dentro de uma iniciativa politicamente identificada e em plena campanha de 2026. Esse contexto faz parte da notícia e não deve ser escondido. Mas o Brasil: Nunca Mais, os documentos analisados pelo projeto e a pesquisa histórica de Vannuchi existem independentemente da campanha atual. Confundir as duas dimensões diminuiria justamente a força documental de uma obra cuja relevância pode ser discutida a partir das próprias fontes que apresenta.
O encontro em Fortaleza aproxima, assim, dois trabalhos sobre personagens e estruturas frequentemente deixados nas margens da narrativa oficial. Em Marisa Letícia Lula da Silva, aparece a mulher operária, mãe, militante e companheira que atravessou silenciosamente parte decisiva da história política brasileira recente. Em Nunca Mais, surgem homens e mulheres que trabalharam em segredo para impedir que a documentação da repressão desaparecesse.
São duas formas diferentes de enfrentar o mesmo problema histórico: quem permanece visível quando uma época termina e quem desaparece da memória coletiva apesar de ter ajudado a construí-la.
A atividade desta quinta-feira ganha significado exatamente nesse encontro entre livro, documento e memória. Quase quatro décadas depois do fim da ditadura militar, o material reunido clandestinamente por aquela rede continua permitindo que novas gerações examinem o período não apenas por interpretações políticas posteriores, mas por registros produzidos nos próprios processos do Estado. Os 707 processos, quase 2 mil relatos de tortura, 242 centros identificados e 444 nomes associados às práticas documentadas constituem uma massa histórica que não depende de slogans para demonstrar sua relevância.
Ao levar essas histórias a Fortaleza, Camilo Vannuchi recoloca diante do público uma questão elementar para qualquer democracia: preservar documentos e reconstruir a trajetória daqueles que foram apagados não significa permanecer preso ao passado. Significa criar condições para que o passado possa ser conhecido, discutido e submetido à crítica pública com base em evidências — e não ao esquecimento.






