Da Redação
Mark Carney confirmou que examinou a possibilidade de uma ação militar americana contra o Canadá, classificada por ele como um “risco extremo de cauda”: altamente improvável, mas grave demais para ser ignorado. A revelação ocorre depois das reiteradas declarações de Donald Trump sobre transformar o país vizinho no 51º estado americano e em meio à deterioração das relações comerciais entre Ottawa e Washington. O governo canadense também discute alternativas aos caças F-35 e à Starlink e amplia seus vínculos estratégicos com Europa e Ásia. Carney, contudo, não afirmou que uma invasão seja provável — nem que os EUA estejam preparando uma operação militar contra o Canadá.
Durante gerações, imaginar as Forças Armadas canadenses preparando-se para uma eventual ação militar dos Estados Unidos pareceria pertencer mais aos arquivos históricos da Guerra de 1812 do que ao planejamento estratégico do século XXI. Nesta semana, porém, o primeiro-ministro Mark Carney confirmou publicamente que a possibilidade foi examinada.
Questionado pelo New York Times sobre se havia levado a sério as reiteradas declarações de Donald Trump sobre transformar o Canadá no 51º estado americano, Carney respondeu que pessoas em sua posição têm a obrigação de considerar até acontecimentos extremamente improváveis quando suas consequências potenciais são muito grandes.
Ele utilizou a expressão financeira “extreme tail risk” — um risco situado na extremidade da distribuição de probabilidades.
“Isso é simplesmente gestão de risco”, explicou Carney. “Não é o cenário-base, mas seria irresponsável não se preparar.” O primeiro-ministro recusou-se a detalhar exatamente em que consistiu o estudo ou quais medidas de contingência foram examinadas. A Canadian Press e outros veículos canadenses confirmaram nesta quarta e quinta-feira as declarações dadas ao jornal americano.
A distinção é fundamental.
Carney não disse que espera uma invasão americana, não anunciou mobilização militar contra os Estados Unidos e não apresentou evidências de que Washington esteja preparando uma operação contra território canadense. Sua declaração confirma algo diferente: diante da mudança extraordinária ocorrida na relação bilateral durante o segundo governo Trump, Ottawa decidiu incluir até uma eventual ação militar americana entre os cenários extremos que um governo precisa considerar.
O próprio Trump, embora tenha falado repetidamente sobre transformar o Canadá no 51º estado, descartou em janeiro de 2025 a utilização de força militar para fazê-lo e afirmou que recorreria a “força econômica”.
É justamente a passagem da confiança automática para a gestão de riscos que torna a declaração de Carney politicamente significativa.
De aliado indispensável a vulnerabilidade estratégica
Estados Unidos e Canadá construíram uma das relações econômicas e militares mais integradas do planeta. Compartilham milhares de quilômetros de fronteira, cadeias produtivas, infraestrutura energética e sistemas de defesa. Os dois países são membros da OTAN e comandam conjuntamente o NORAD, estrutura binacional criada durante a Guerra Fria para a defesa aeroespacial da América do Norte.
Essa arquitetura continua existindo.
O que mudou foi a percepção canadense sobre os riscos produzidos pela dependência excessiva do vizinho.
Carney já havia formulado essa mudança publicamente. Em abril, declarou que a proximidade econômica com os Estados Unidos, historicamente considerada uma força canadense, havia se transformado também numa vulnerabilidade. Em mensagem ao país, chegou a evocar o general Isaac Brock e o líder indígena Tecumseh, personagens da resistência à invasão americana durante a Guerra de 1812, para argumentar que o Canadá não poderia simplesmente esperar que as pressões vindas de Washington desaparecessem.
A atual crise comercial aprofundou esse raciocínio.
Trump impôs sucessivas tarifas sobre produtos canadenses, enquanto Ottawa respondeu com medidas próprias. As negociações comerciais voltaram a enfrentar dificuldades e Carney passou a defender uma estratégia de diversificação das relações econômicas do Canadá.
Na entrevista desta semana, entretanto, ele deixou claro que os canais entre os dois governos não estão rompidos. Segundo a Canadian Press, Carney afirmou que ele e Trump continuam conversando “frequentemente”, apesar do fracasso das últimas negociações comerciais.
Portanto, coexistem duas políticas.
Ottawa continua negociando com Washington porque nenhuma estratégia canadense pode eliminar rapidamente a profundidade da integração econômica continental. Ao mesmo tempo, prepara-se para diminuir o grau de dependência que permite aos Estados Unidos exercerem enorme pressão econômica, tecnológica e militar sobre o país.
É nesse segundo movimento que aparecem Starlink e F-35.
Carney afirmou que o Canadá pretende diversificar sua dependência da rede de satélites Starlink, controlada pela SpaceX, de Elon Musk. O primeiro-ministro também confirmou que Ottawa considera alternativas à aquisição de caças americanos F-35.
Não são discussões secundárias.
Comunicações por satélite e aeronaves de combate estão entre as infraestruturas mais sensíveis de qualquer Estado. Se um país conclui que precisa reduzir sua dependência de fornecedores vinculados ao principal aliado militar, isso sinaliza uma mudança importante na avaliação de risco estratégico — mesmo sem representar ruptura da aliança.
Carney citou Europa e Coreia do Sul entre parceiros com os quais o Canadá poderia trabalhar para ganhar escala e diversificar sua infraestrutura.
Europa entra na equação estratégica canadense
A mudança já começa a produzir consequências institucionais.
Carney esteve recentemente na Europa defendendo maior cooperação econômica e militar. O Canadá participa do programa europeu SAFE de compras de defesa e solicitou ingresso na Joint Expeditionary Force, agrupamento militar liderado pelo Reino Unido e concentrado principalmente no Norte da Europa, Atlântico Norte, Báltico e Ártico.
Na semana passada, diante do Parlamento Europeu, Carney argumentou que a integração econômica passou a ser utilizada como instrumento de poder. Tarifas podem funcionar como alavancas políticas e dependências das cadeias de fornecimento podem transformar-se em vulnerabilidades estratégicas.
Embora o discurso tenha implicações muito mais amplas do que a relação com Washington, é difícil separá-lo da experiência recente do Canadá com os Estados Unidos.
A lógica é relativamente simples: se um Estado depende excessivamente de outro para mercados, tecnologia, defesa, comunicações, equipamentos militares e cadeias industriais, uma relação inicialmente baseada em eficiência econômica pode produzir capacidade extraordinária de coerção quando a relação política se deteriora.
Carney procura responder diversificando.
Isso não significa abandonar os Estados Unidos. Significa construir alternativas.
O movimento canadense também precisa ser entendido dentro da transformação do Ártico em espaço estratégico cada vez mais importante. Estados Unidos, Canadá, Dinamarca, Noruega e Rússia possuem interesses diretos na região, enquanto mudanças climáticas, novas rotas marítimas, recursos naturais e infraestrutura militar aumentaram seu peso geopolítico.
As declarações de Trump sobre a Groenlândia aprofundaram essas preocupações.
Carney já havia reafirmado que o futuro da Groenlândia cabe aos groenlandeses e ao Reino da Dinamarca e recordado os compromissos canadenses com seus aliados da OTAN. Em janeiro, publicações nas redes sociais distorceram essa declaração como se o primeiro-ministro tivesse anunciado que o Canadá entraria em guerra contra os Estados Unidos caso Washington atacasse a ilha. A Canadian Press verificou que Carney não havia dito isso.
O precedente é útil agora porque mostra a facilidade com que discussões sobre cenários militares extremos podem ser transformadas em afirmações muito mais dramáticas do que os fatos permitem.
O mesmo cuidado é necessário com a revelação desta semana.
Planejar uma invasão hipotética não significa esperar uma guerra
Existe ainda outra camada da história.
Antes da declaração atual de Carney, já havia sido noticiado no começo de 2026 que as Forças Armadas canadenses haviam modelado cenários hipotéticos sobre como o país poderia responder a uma invasão americana.
Os relatos descreviam exercícios conceituais, e não um plano operacional indicando que Ottawa acreditasse que tropas americanas estivessem prestes a atravessar a fronteira. Fontes ligadas à discussão ressaltaram na época que uma invasão continuava sendo considerada altamente improvável.
Essa diferença é normal no planejamento de defesa.
Estados e forças armadas trabalham com cenários de baixa probabilidade justamente porque algumas ameaças, embora improváveis, teriam consequências catastróficas caso se materializassem.
É exatamente o raciocínio que Carney descreveu como gestão de “tail risk”.
A assimetria militar entre Canadá e Estados Unidos também torna o cenário extraordinário. Os EUA possuem forças armadas, orçamento de defesa, capacidade aérea, naval, espacial e logística incomparavelmente superiores aos canadenses. Qualquer exercício envolvendo um confronto entre os dois países precisaria partir dessa disparidade.
Mas transformar um exercício desse tipo em manchete dizendo que Canadá e Estados Unidos estão “preparando uma guerra” seria incorreto.
Não há evidência apresentada publicamente de que esse seja o cenário esperado pelos governos.
Há, sim, uma mudança documentada na forma como Ottawa pensa sua relação com Washington.
Essa talvez seja a parte mais importante da notícia.
Durante décadas, a política canadense pôde organizar boa parte de sua estratégia econômica e militar a partir de uma premissa: independentemente das divergências ocasionais, os Estados Unidos permaneceriam um parceiro estruturalmente previsível.
Carney já não trata essa previsibilidade como garantida.
Sua política consiste em continuar cooperando com Washington enquanto aumenta a capacidade canadense de funcionar caso essa cooperação seja reduzida ou utilizada como instrumento de pressão.
A Starlink entra nessa equação.
O F-35 entra nessa equação.
As novas relações com Europa e Ásia entram nessa equação.
A política comercial entra nessa equação.
E até o improvável cenário de uma ação militar americana passou a integrar essa matriz de riscos.
Isso não significa que Ottawa espere tanques americanos atravessando a fronteira. O próprio Carney foi explícito ao dizer que essa não é sua hipótese central.
A importância histórica está em outro lugar.
Quando o primeiro-ministro de um dos aliados mais próximos dos Estados Unidos considera necessário confirmar publicamente que seu governo examinou até a possibilidade extrema de ação militar americana contra seu território, algo fundamental mudou na percepção de segurança da relação bilateral.
O acontecimento concreto não é uma guerra entre Canadá e Estados Unidos.
É o fato de que uma hipótese que durante décadas pareceria politicamente absurda voltou a ser considerada suficientemente séria para entrar — ainda que na extremidade remota dos riscos — nos cálculos estratégicos de Ottawa.






