Eliminação do Brasil abre debate sobre fim da era Neymar e crise estrutural da Seleção
A eliminação do Brasil para a Noruega nas oitavas de final da Copa do Mundo abriu uma discussão que ultrapassa o resultado de uma única partida. A atuação da Seleção, as escolhas de Carlo Ancelotti, a permanência de jogadores veteranos e, principalmente, o comportamento de Neymar dominaram a análise após a derrota.
Em debate no programa Posse de Bola, do UOL Esporte, os comentaristas fizeram uma avaliação dura da campanha brasileira e questionaram a continuidade de parte do grupo no próximo ciclo. Walter Casagrande e Juca Kfouri concentraram suas críticas em Neymar, enquanto Paulo Vinicius Coelho, o PVC, chamou atenção para problemas mais amplos na formação de jogadores e na organização do futebol brasileiro.
A Seleção deixou o Mundial depois de uma partida em que teve pouca posse de bola e apostou durante longos períodos em transições rápidas. Apesar disso, criou oportunidades para construir um resultado diferente. Bruno Guimarães desperdiçou uma cobrança de pênalti, enquanto Endrick perdeu uma oportunidade diante do goleiro após passe de Vinícius Júnior.
Para os comentaristas, os erros individuais não eliminam a responsabilidade da comissão técnica. A principal crítica foi dirigida à insistência no planejamento inicial mesmo depois de a partida apresentar dificuldades para o Brasil.
A Noruega encontrou seus gols com Erling Haaland e eliminou a Seleção por 2 a 1. Neymar, que começou no banco e entrou no segundo tempo, marcou de pênalti nos acréscimos, mas se envolveu em uma discussão com o goleiro Ørjan Nyland imediatamente após a cobrança. O episódio foi um dos principais assuntos da análise realizada após a partida.
Casagrande: “Esse cara nunca me enganou”
Walter Casagrande afirmou que mantém há anos uma posição crítica sobre Neymar e disse considerar encerrada a passagem do atacante pela Seleção. Para ele, a discussão não pode ser limitada ao desempenho técnico do jogador.
“Eu estou com a minha consciência tranquilíssima porque esse cara nunca me enganou. Nunca me enganou”, afirmou.
Casagrande também criticou setores do jornalismo esportivo que defenderam a convocação de Neymar para a Copa. Segundo o comentarista, houve pressão pública para que o atacante estivesse no Mundial, mesmo diante das dúvidas sobre suas condições esportivas.
“Quantos escreveram, falaram, gritaram, bateram, gravaram vídeo martelando que ele tem que ir para a Copa?”, questionou.
O comentarista lembrou que, antes do Mundial, evitava analisar Neymar justamente porque o atacante tinha pouca sequência em campo. Após a participação do camisa 10 na Copa, Casagrande disse considerar que o desempenho confirmou sua avaliação anterior.
“Hoje eu tenho total propriedade para falar de um cara que entrou em campo e não fez nada, não representou nada”, declarou.
Juca critica comportamento do camisa 10
Juca Kfouri também fez críticas ao atacante. O jornalista considerou especialmente grave a atitude de Neymar depois de converter o pênalti nos acréscimos, quando o Brasil ainda tinha uma possibilidade, mesmo remota, de buscar o empate.
Para Juca, o atacante deveria ter priorizado a retomada imediata da partida, em vez de discutir com o goleiro adversário.
“Ele entra faltando 20 minutos para acabar o jogo. Não faz rigorosamente nada, mas nem podia. A culpa aí é do Ancelotti, não é dele. E faz o que faz”, afirmou.
Durante o debate, Juca classificou o comportamento do jogador de forma ainda mais dura: “Este menino é um pequeno cafajeste”.
A discussão também tratou da possibilidade de a partida representar o encerramento de um período da Seleção marcado pela presença de Neymar, Casemiro, Danilo e Marquinhos. Parte dos comentaristas avaliou que a eliminação deve acelerar a renovação do elenco.
Críticas a Ancelotti e ao planejamento brasileiro
Embora Neymar tenha concentrado uma parcela importante do debate, a análise não poupou Carlo Ancelotti. Os comentaristas questionaram a estratégia de entregar a posse de bola à Noruega e a demora para modificar o comportamento da equipe.
O Brasil conseguiu criar oportunidades mesmo com pouca posse, mas não alterou sua abordagem quando o plano inicial começou a apresentar problemas. Também houve críticas às substituições realizadas pelo treinador durante a etapa final.
PVC apresentou uma avaliação mais ampla. Para ele, a eliminação é consequência de uma sequência de problemas acumulados ao longo dos últimos anos, período em que a Seleção passou por mudanças frequentes no comando técnico e por instabilidade na própria CBF.
O comentarista também questionou a dependência criada em torno de Ancelotti. Em sua avaliação, enquanto outras seleções chegaram à Copa depositando expectativas em seus principais jogadores, o Brasil chegou ao torneio tratando o treinador como sua maior esperança.
“É a primeira vez na história das Copas que os europeus vêm para cá acreditando nos seus craques e o Brasil vem para cá acreditando no seu técnico”, afirmou PVC.
Para o comentarista, a discussão sobre o futuro não deve se limitar à permanência ou saída de Ancelotti. Ele defendeu uma revisão da formação de jogadores e das competições nacionais, questionando a dificuldade recente do país para produzir laterais, centroavantes e meio-campistas com determinadas características.
“A gente tem que discutir tudo isso”, resumiu.
Uma eliminação que exige respostas além da troca de nomes
O debate após a derrota mostrou que a renovação da Seleção dificilmente será resolvida apenas pela retirada dos jogadores mais experientes. A campanha brasileira expôs dificuldades de planejamento, problemas na construção do elenco e uma dependência excessiva da expectativa criada em torno do treinador.
A possível despedida de Neymar ocupa naturalmente o centro das discussões pelo peso que o jogador teve na Seleção durante mais de uma década. No entanto, a própria análise dos comentaristas aponta para uma questão mais ampla: o Brasil precisa decidir que futebol pretende desenvolver antes de escolher apenas quais jogadores serão os rostos do próximo ciclo.
A derrota para a Noruega encerrou a campanha brasileira mais cedo do que nas Copas recentes. O debate que começa agora envolve Ancelotti, a CBF, a formação de jogadores e o futuro de uma geração que acumulou participações em Mundiais sem conquistar o título.
No caso de Neymar, a partida também encerrou uma trajetória internacional iniciada no mesmo estádio em que terminou. Após a eliminação, o atacante afirmou que sua passagem pela Seleção havia chegado ao fim.





