Caso Master: mensagens revelam que Campos Neto convidou Vorcaro para reunião em sua casa

Conversas apreendidas pela Polícia Federal mostram que o então presidente do Banco Central ofereceu sua residência na Fazenda Boa Vista para receber Daniel Vorcaro, que queria apresentar projetos e perspectivas do Banco Master; encontro acabou transferido para uma unidade do BC

Da Redação

Mensagens encontradas pela Polícia Federal no celular de Daniel Vorcaro revelam que Roberto Campos Neto, quando ainda presidia o Banco Central, convidou o então controlador do Banco Master para uma reunião em sua residência na Fazenda Boa Vista, condomínio de luxo localizado em Porto Feliz, no interior de São Paulo. As conversas são do fim de 2023, período em que Vorcaro procurava diretamente o chefe da autoridade responsável pela supervisão do sistema financeiro para apresentar os negócios, projetos e perspectivas da instituição que controlava.

O encontro na residência não chegou a acontecer. Depois de oferecer sua casa como local da conversa, Campos Neto informou a Vorcaro que o imóvel havia passado por uma dedetização e propôs transferir a reunião para uma unidade do Banco Central em São Paulo. A mudança de endereço é importante para estabelecer com precisão o que ocorreu: as mensagens revelam o convite para uma reunião privada, mas não demonstram que Vorcaro tenha sido efetivamente recebido na casa do então presidente do BC.

As conversas foram apreendidas no celular de Vorcaro quando ele foi preso pela primeira vez, em novembro de 2025, e vieram à tona no conjunto de informações obtidas pela PF durante as investigações sobre o Banco Master. O material acrescenta um novo elemento à reconstrução das relações mantidas pelo banqueiro com autoridades, políticos, empresários e integrantes do sistema financeiro nos anos anteriores ao colapso da instituição.

Segundo as mensagens reveladas nesta quarta-feira, o contato partiu de Vorcaro. Em novembro de 2023, o banqueiro procurou Campos Neto e pediu uma conversa presencial para apresentar “o trabalho que estamos desenvolvendo no banco e nossas perspectivas”. Os dois começaram então a tratar da agenda. Quando percebeu que poderia estar na Fazenda Boa Vista no período sugerido, Campos Neto ofereceu a própria residência para o encontro.

A conversa acabou sendo remarcada. Posteriormente, o então presidente do Banco Central informou que sua casa havia sido dedetizada e sugeriu que o encontro acontecesse nas dependências da autoridade monetária. A sequência é relevante porque diferencia dois aspectos da revelação: a disposição inicial de Campos Neto para receber Vorcaro em ambiente privado e a realização posterior da reunião dentro de uma estrutura institucional.

O convite, isoladamente, não demonstra favorecimento ao Banco Master nem constitui prova de irregularidade. Presidentes do Banco Central mantêm contatos com dirigentes de instituições financeiras como parte de suas funções, especialmente quando existem assuntos regulatórios ou situações relevantes para o sistema financeiro. O que torna as mensagens importantes para a investigação é o contexto mais amplo no qual aparecem: a Polícia Federal apura justamente a atuação do Banco Central sobre o Master e suspeitas de que integrantes da autoridade monetária tenham favorecido interesses de Vorcaro.

Relação com o BC está no centro da investigação

O Banco Master foi liquidado pelo Banco Central em novembro de 2025, depois de uma crise que colocou sob investigação operações financeiras, negociações de ativos e a própria atuação dos mecanismos de supervisão. Desde então, uma das perguntas centrais do caso passou a ser quando a autoridade monetária identificou os problemas da instituição, quais informações estavam disponíveis e como dirigentes e servidores do BC reagiram ao crescimento dos riscos.

Campos Neto deixou a presidência do Banco Central no fim de 2024. Neste mês, ele foi chamado pela Polícia Federal, na condição de testemunha, no inquérito que examina a fiscalização do Master. Também foram convocados o atual presidente do BC, Gabriel Galípolo, o banqueiro André Esteves, do BTG Pactual, e o diretor de Fiscalização da autoridade monetária, Ailton de Aquino.

A condição de testemunha precisa ser ressaltada. Até o momento, a convocação de Campos Neto para depor não significa que a PF o considere responsável pelas irregularidades investigadas. Gabriel Galípolo declarou anteriormente no Senado que não existe auditoria ou sindicância do Banco Central apontando culpa de Campos Neto no caso Master.

Ao mesmo tempo, documentos e depoimentos já conhecidos mostram que os problemas da instituição chegaram à cúpula do BC ainda durante sua gestão. Um dos episódios examinados pela investigação envolve uma apresentação realizada pelo BTG Pactual em dezembro de 2024. Segundo depoimento de Paulo Sérgio Neves de Souza, então diretor de Fiscalização do Banco Central, o BTG havia identificado problemas graves durante uma análise dos ativos do Master e apresentou suas conclusões numa reunião da qual Campos Neto participou.

As investigações também procuram esclarecer a atuação de servidores da autoridade monetária que teriam mantido relações inadequadas com pessoas ligadas ao banco. A PF apura suspeitas de vazamento de informações sobre a fiscalização e possíveis movimentos destinados a favorecer interesses de Vorcaro dentro do BC. As defesas dos envolvidos contestam as acusações.

É dentro desse quadro que as mensagens de 2023 adquirem relevância. Elas mostram que Vorcaro não se relacionava com a autoridade monetária apenas através dos canais burocráticos inferiores da supervisão bancária. O controlador do Master tinha acesso direto ao presidente da instituição e conseguia discutir pessoalmente com ele uma reunião para apresentar os projetos do banco.

Ter acesso ao presidente do Banco Central, por si só, não prova tratamento privilegiado. O ponto que deverá ser esclarecido é se essa interlocução ocorreu dentro dos padrões normalmente adotados pela autoridade monetária para contatos com instituições reguladas e se teve alguma relação com decisões posteriores envolvendo o Master.

A circunstância de Campos Neto ter inicialmente oferecido sua residência acrescenta uma dimensão delicada à questão porque deslocaria a conversa do ambiente institucional para um espaço privado. Embora o encontro tenha sido transferido para o BC, a troca de mensagens mostra que o então presidente não viu inicialmente impedimento em receber em casa o controlador de uma instituição submetida à supervisão da autoridade que comandava.

Essa proximidade precisa ser analisada com cuidado para não produzir uma conclusão maior do que as evidências permitem. O material conhecido demonstra o convite. Não demonstra, sozinho, que Campos Neto tenha interferido numa fiscalização, concedido benefício ao Master ou praticado qualquer ato ilícito em favor de Vorcaro.

As mensagens ajudam a reconstruir a rede de Vorcaro

A importância da descoberta cresce quando ela é colocada ao lado do volume de comunicações apreendidas pela Polícia Federal. O celular de Vorcaro tornou-se uma peça central para compreender como o banqueiro construía relações e buscava interlocução em diferentes centros de poder. Mensagens divulgadas nas últimas semanas revelaram contatos com parlamentares, empresários, banqueiros e integrantes de instituições públicas.

O padrão que emerge desse material mostra um empresário com capacidade de acesso a personagens situados no topo das estruturas políticas, financeiras e institucionais do país. Isso não transforma cada encontro ou conversa em irregularidade. Grandes empresários e dirigentes de instituições financeiras mantêm relações com autoridades e defendem seus interesses diante do Estado. A questão investigativa é determinar quando a interlocução legítima se transforma em influência indevida, acesso privilegiado ou interferência sobre decisões públicas.

No caso específico do Banco Central, essa fronteira é especialmente sensível. A instituição possui autonomia formal justamente para proteger decisões monetárias e de supervisão de pressões políticas e econômicas. Essa autonomia, entretanto, não elimina a necessidade de transparência e impessoalidade na relação entre seus dirigentes e os agentes privados que regula.

O episódio envolvendo Campos Neto toca diretamente nessa contradição. Durante sua presidência, a independência do Banco Central foi defendida como mecanismo destinado a blindar a instituição de interferências do governo. As mensagens encontradas no celular de Vorcaro levantam outra dimensão do mesmo problema: a independência em relação ao Poder Executivo não responde, por si só, à questão da distância necessária entre o regulador e o mercado regulado.

É por isso que a revelação não deve ser reduzida à imagem de uma reunião que poderia ter ocorrido numa casa de luxo. O endereço chama atenção, mas a questão institucional é maior. Um banqueiro submetido à supervisão do Banco Central procurou diretamente o presidente da autoridade monetária para apresentar seus negócios. O presidente respondeu, negociou a agenda e chegou a oferecer sua própria residência como local para a conversa. O encontro privado acabou não ocorrendo, mas a interlocução existiu.

A investigação agora poderá estabelecer o que foi discutido quando a reunião finalmente aconteceu no Banco Central, quais servidores participaram, se houve registros oficiais e se algum dos temas tratados teve relação com decisões posteriores envolvendo o Master. Também será importante comparar o tratamento concedido a Vorcaro com os procedimentos adotados pelo BC para reuniões com outros dirigentes de instituições financeiras.

Essas respostas são necessárias porque o caso Master deixou de ser apenas uma investigação sobre aquilo que Daniel Vorcaro fez dentro de seu banco. À medida que mensagens, depoimentos e documentos aparecem, a apuração avança também sobre as relações construídas pelo banqueiro ao redor da instituição e sobre a capacidade dos mecanismos públicos de fiscalização de identificar e interromper os problemas antes que alcançassem a dimensão conhecida posteriormente.

As mensagens envolvendo Campos Neto não oferecem uma resposta definitiva para essa questão. Elas oferecem algo anterior e igualmente importante: uma nova peça para reconstruir como funcionava o acesso de Vorcaro ao comando do órgão responsável por fiscalizá-lo.

O encontro na casa de Campos Neto não aconteceu.

O convite aconteceu.

E, diante de uma investigação que procura compreender as relações entre o Banco Master e integrantes da própria estrutura de supervisão financeira, essa diferença não elimina a relevância da descoberta. Ela apenas define com precisão aquilo que as evidências permitem afirmar.