Da Redação
Vishal Garg tornou-se símbolo de uma cultura empresarial marcada por demissões em massa e relações de trabalho desumanizadas; agora, fundador da Better Home & Finance acusa sucessor de tê-lo enganado e tenta mobilizar acionistas para retomar o comando da companhia
Cinco anos depois de se tornar mundialmente conhecido pela maneira brutal como demitiu cerca de 900 funcionários durante uma única chamada pelo Zoom, o empresário Vishal Garg experimenta do outro lado da mesa a insegurança de perder o próprio emprego. Fundador da empresa norte-americana de hipotecas digitais Better.com, atualmente Better Home & Finance, Garg foi afastado do cargo de CEO em 3 de agosto e substituído por Daniel Lewis, executivo de fundos de investimento que havia ingressado no conselho da companhia apenas poucos dias antes. O episódio desencadeou uma guerra pelo controle da empresa e ganhou repercussão justamente pelo contraste com uma das demissões coletivas mais controversas da história recente do mundo corporativo.
A história que tornou Garg conhecido aconteceu em dezembro de 2021, ainda sob os efeitos da pandemia e da explosão do trabalho remoto. Mais de 900 funcionários da Better.com foram convocados para uma reunião virtual. Em aproximadamente três minutos, o CEO comunicou que todos os trabalhadores presentes naquela chamada estavam sendo desligados imediatamente. Cerca de 9% da força de trabalho da empresa foi atingida de uma só vez. A gravação vazou, espalhou-se pela internet e transformou Garg em símbolo de uma gestão empresarial capaz de utilizar a tecnologia não apenas para organizar o trabalho à distância, mas também para eliminar praticamente toda a dimensão humana de uma demissão.
O episódio provocou indignação internacional. Funcionários descobriram diante da tela do computador que haviam perdido seus empregos pouco antes das festas de fim de ano. Garg justificou os cortes mencionando condições de mercado, produtividade e desempenho. Posteriormente, diante da repercussão, reconheceu que havia cometido um erro na forma como realizou as dispensas e admitiu não ter demonstrado respeito e reconhecimento adequados às pessoas afetadas. O conselho da Better determinou então seu afastamento temporário, encomendou uma avaliação externa sobre liderança e cultura empresarial e colocou outro executivo provisoriamente no comando. Garg, contudo, retornou à função no início de 2022.
Agora, quase cinco anos depois, é ele quem afirma ter sido surpreendido por uma decisão tomada acima de sua cabeça.
Segundo as informações divulgadas pela CNN e repercutidas internacionalmente neste fim de semana, Daniel Lewis chegou ao conselho da Better pouco antes da queda de Garg. O fundador afirma que Lewis elogiava publicamente a estratégia da companhia e transmitiu confiança aos dirigentes, mas, uma vez dentro do conselho, teria articulado rapidamente sua destituição. Garg resumiu sua interpretação do episódio dizendo que foi “enganado” pelo homem que acabaria ocupando seu lugar. Lewis assumiu interinamente o comando da Better imediatamente após a saída do fundador.
A versão de Garg, porém, está longe de ser a única. O conselho da Better apresentou justificativas muito mais graves para sua destituição. Segundo informações divulgadas após o rompimento, todos os diretores, com exceção do próprio Garg, votaram por sua retirada depois de manifestarem preocupações relacionadas ao seu julgamento, temperamento e credibilidade. A crise teria se agravado em torno da divulgação dos resultados trimestrais da companhia e de uma disputa cada vez mais aberta entre o fundador e o conselho. Garg, por sua vez, passou a exigir a saída de cinco diretores e afirma possuir apoio acionário suficiente para promover uma mudança na direção.
O caso, portanto, é muito mais complexo do que a ironia pronta do “CEO que demitia e acabou demitido”. Por trás da coincidência existe uma disputa de poder numa companhia que atravessou uma transformação dramática desde os anos de expansão da pandemia.
A Better viveu seu auge quando juros baixos e uma enorme onda de refinanciamento imobiliário impulsionaram o setor hipotecário norte-americano. Naquele período, a companhia chegou a ser avaliada em aproximadamente US$ 8 bilhões. A mudança das condições econômicas, especialmente com a elevação das taxas de juros, atingiu duramente seu modelo de negócios. Segundo Garg, as vendas despencaram de aproximadamente US$ 1,5 bilhão em 2021 para cerca de US$ 70 milhões em 2023. Para 2026, ele sustenta que a empresa caminhava para aproximadamente US$ 200 milhões e se aproximava da rentabilidade.
Garg atribui parte dessa recuperação à utilização intensiva de inteligência artificial para automatizar etapas do processamento de hipotecas. E esse detalhe torna a trajetória da Better particularmente reveladora sobre uma transformação muito maior do capitalismo contemporâneo. A mesma empresa que se tornou símbolo da facilidade tecnológica para dispensar centenas de trabalhadores simultaneamente agora apresenta a automação como elemento central de sua estratégia para produzir mais utilizando estruturas humanas menores.
Não se trata de afirmar que toda automação necessariamente destrói empregos. Tecnologias podem aumentar produtividade, eliminar atividades repetitivas e criar novas ocupações. A questão levantada pelo caso Better é outra: quem se apropria dos ganhos de produtividade e quem assume os custos sociais das transformações empresariais?
Quando uma empresa enfrenta dificuldades, os trabalhadores frequentemente aparecem como a variável mais rapidamente ajustável. Cortam-se postos, salários, departamentos e benefícios para reduzir despesas. Quando a tecnologia aumenta a produtividade, porém, os ganhos não são necessariamente distribuídos na mesma proporção entre aqueles que produzem o valor. Essa assimetria ajuda a explicar por que a história de Garg provocou tanta repercussão em 2021 e volta a despertar interesse cinco anos depois.
Na ocasião da demissão coletiva, não foi apenas o número de pessoas dispensadas que causou revolta. Empresas fazem cortes de pessoal diariamente. O que chocou foi a forma industrializada e impessoal como a decisão foi executada: centenas de trajetórias profissionais reduzidas a uma comunicação coletiva diante de uma webcam.
A tecnologia transformou a demissão em procedimento escalável.
A crise agora acontece no topo da empresa
A diferença é que Garg possui instrumentos de defesa que seus antigos funcionários não tinham.
O fundador é acionista, possui relações com investidores, conhece profundamente a estrutura societária e pode disputar votos para modificar o conselho que o afastou. Segundo informações publicadas pelo New York Post, aliados de Garg afirmam ter reunido investidores que representam aproximadamente 52% dos direitos de voto da companhia numa tentativa de remover Lewis e outros integrantes do conselho. Uma votação entre acionistas poderá transformar a disputa nas próximas semanas.
Essa diferença expõe uma das dimensões mais interessantes do episódio. Um empregado comum dispensado por uma companhia pode recorrer aos direitos previstos pela legislação, negociar indenizações ou contestar irregularidades judicialmente, mas normalmente não possui poder para convocar os proprietários da empresa e tentar destituir quem decidiu demiti-lo. Um fundador com participação acionária relevante vive uma realidade completamente diferente.
Garg está fazendo justamente isso.
Ele sustenta que a Better estava próxima de completar uma recuperação e que sua retirada aconteceu no pior momento possível. Afirma que a companhia havia triplicado o volume de empréstimos e estava próxima da lucratividade. Também acusa Lewis de ter utilizado elogios à estratégia empresarial como caminho para conquistar a confiança necessária para entrar no conselho e, posteriormente, assumir o comando. Lewis e o conselho contestam a narrativa apresentada pelo fundador.
Há ainda um componente financeiro importante. A Better acumulou dificuldades expressivas durante os últimos anos e perdeu grande parte do valor que possuía no auge da pandemia. Segundo informações publicadas neste fim de semana, sua avaliação atual está em torno de US$ 300 milhões, muito distante dos bilhões atribuídos ao negócio durante seu período de maior expansão.
Portanto, a destituição não pode ser explicada como uma espécie de punição tardia pela demissão coletiva de 2021. Não há evidência de que o conselho tenha retirado Garg agora porque decidiu responsabilizá-lo, cinco anos depois, pelo episódio do Zoom. A disputa envolve desempenho empresarial, governança, resultados financeiros e uma luta pelo controle da companhia.
A ironia histórica existe. Mas a causalidade é outra.
E essa distinção é fundamental para compreender corretamente o caso.
De símbolo da demissão digital a trabalhador que quer o emprego de volta
O episódio também mostra como as relações de poder dentro das corporações podem ser mais instáveis do que parecem. Fundadores costumam construir a imagem de que empresa e empresário constituem praticamente uma única entidade. Quando investidores externos, fundos e conselhos passam a possuir influência relevante, porém, mesmo quem criou uma companhia pode descobrir que o controle não lhe pertence integralmente.
Steve Jobs foi afastado da Apple que ajudara a fundar. Travis Kalanick perdeu o comando da Uber. Sam Altman chegou a ser retirado temporariamente da liderança da OpenAI antes de retornar. A história empresarial está repleta de fundadores que descobriram que criar uma companhia não significa possuir poder absoluto sobre ela para sempre.
Garg acaba de entrar nessa lista.
O caso possui, entretanto, uma característica que lhe confere uma força simbólica incomum. Milhões de pessoas conheceram seu rosto não porque utilizavam os serviços da Better, mas porque assistiram ao vídeo no qual centenas de trabalhadores descobriam simultaneamente que estavam desempregados.
Cinco anos depois, o executivo não está apenas fora da cadeira de CEO.
Ele quer o emprego de volta.
A disputa ainda pode mudar. Garg mobiliza acionistas, questiona a atuação do conselho e sustenta que possui votos suficientes para promover uma reviravolta. Portanto, não é possível afirmar que sua saída seja necessariamente definitiva. A guerra societária da Better continua aberta.
Independentemente do desfecho, entretanto, a trajetória da companhia deixa uma reflexão que ultrapassa seu fundador. O desenvolvimento tecnológico tornou empresas extraordinariamente capazes de coordenar milhares de trabalhadores, medir produtividade em tempo real, automatizar tarefas e tomar decisões numa velocidade antes impossível. A mesma infraestrutura também tornou possível dispensar centenas de pessoas apertando praticamente os mesmos botões utilizados para convocar uma reunião de rotina.
Tecnologia não determina como trabalhadores serão tratados. Quem determina isso são as relações sociais, as normas, a legislação e as escolhas feitas pelas empresas.
Foi uma escolha humana reunir 900 pessoas numa tela e comunicar em poucos minutos que elas estavam desempregadas.
E também foi uma escolha humana, cinco anos depois, reunir um conselho e retirar do comando o homem que havia tomado aquela decisão.
A diferença é que Vishal Garg possui capital, ações, advogados e aliados suficientes para tentar recuperar aquilo que perdeu.
A maioria dos 900 trabalhadores que apareceram naquela chamada de Zoom em dezembro de 2021 simplesmente precisou procurar outro emprego.






