Em entrevista ao Democracia no Ar, filósofo revisita a trajetória de Ciro Gomes no Ceará, questiona o legado atribuído a ele na educação e analisa a aproximação do candidato com setores da direita
A trajetória política de Ciro Gomes, sua passagem pelo governo do Ceará e as disputas em torno do grupo Ferreira Gomes foram o tema da edição do programa Democracia no Ar, da Atitude Popular, que recebeu o filósofo Abraão Maciel. A entrevista, apresentada por Sara Goes, ocorreu no contexto da campanha eleitoral de 2026 para o governo do Ceará e concentrou parte importante do debate na educação pública, área frequentemente associada ao legado político de Ciro.
Em 2026, Ciro Gomes disputa novamente o governo cearense pelo PSDB. A candidatura foi oficialmente homologada pela Federação PSDB-Cidadania em julho. A entrevista do Democracia no Ar procurou revisitar episódios de sua trajetória política e confrontar a imagem construída em torno de sua atuação no Ceará com a experiência relatada por Maciel como estudante e professor da rede pública.
Um dos principais eixos da conversa foi justamente a educação. Maciel afirmou que sua experiência como aluno durante o período em que Ciro governou o estado é diferente da narrativa que, segundo ele, passou a ser utilizada pelo político em campanhas presidenciais. O filósofo lembrou que estudou na rede pública e posteriormente retornou ao sistema como professor.
“Minha experiência como professor tem sido diametralmente oposta à experiência que os meus professores quando eu era aluno da escola pública tiveram”, afirmou.
O telensino como símbolo de uma gestão
Ao recuperar sua passagem pela escola pública, Maciel destacou o antigo sistema de telensino adotado no Ceará. A modalidade substituía parte das aulas convencionais por transmissões televisivas, com um professor responsável pela orientação dos estudantes.
A existência e a dimensão do sistema são documentadas por pesquisas acadêmicas e registros da imprensa. Em reportagem publicada pela Folha de S.Paulo em 1996, o modelo era descrito como uma experiência em que centenas de milhares de estudantes acompanhavam pela televisão conteúdos de diferentes disciplinas, sob orientação de um único professor por turma. A reportagem relacionava a expansão do modelo a uma decisão tomada em 1993, durante o governo Ciro Gomes.
Pesquisa da Universidade Federal do Ceará sobre o telensino também registra que sua universalização na rede estadual ocorreu em 1993, sendo apresentada como uma resposta à falta de professores e à necessidade de ampliar a oferta de vagas. O estudo aponta ainda críticas relacionadas à precarização do trabalho docente e aos efeitos do modelo sobre professores e estudantes.
Foi a partir dessa experiência que Maciel contestou a imagem de excelência educacional que, segundo ele, Ciro passou a associar à própria trajetória.
“Quando eu era aluno da rede pública, eu fui aluno no governo Ciro e no governo Tasso”, relatou.
O professor recordou ainda que, durante seu estágio, encontrou um estoque de livros didáticos que aguardava distribuição para escolas do interior. A lembrança o levou a comparar a situação daquela época com sua experiência anterior como estudante.
Maciel também descreveu a qualidade física dos materiais utilizados quando era aluno. Segundo seu relato, os livros eram produzidos em papel jornal e sofriam deterioração em razão da umidade característica de Fortaleza.
“Era um material sem qualidade alguma, tinha que durar três anos”, afirmou.
Para ele, o telensino representava uma concepção de educação que não pode ser dissociada das condições concretas encontradas nas escolas.
O papel de Isolda Cela
Outro ponto central da entrevista foi a tentativa de identificar quais políticas contribuíram para os resultados educacionais alcançados pelo Ceará ao longo das últimas décadas.
Maciel atribuiu papel central a Isolda Cela, pedagoga e professora que participou da formulação de políticas educacionais em Sobral e posteriormente ocupou a Secretaria da Educação do Ceará.
O reconhecimento de Isolda Cela como uma das figuras importantes da política educacional cearense também aparece em registros sobre a trajetória do modelo de Sobral e sua expansão para o restante do estado. Na entrevista, porém, Maciel foi além e questionou o modo como Ciro Gomes teria passado a apresentar esses resultados como parte de seu próprio legado.
“Uma única pessoa não foi responsável pelo sucesso, pela transformação da educação pública”, afirmou, ao contextualizar sua avaliação. Em seguida, destacou a participação de Isolda Cela e a articulação política que envolveu diferentes grupos durante a construção das políticas educacionais.
A própria trajetória de Isolda Cela inclui a passagem pela Secretaria da Educação do Ceará e, posteriormente, pelo Ministério da Educação como secretária-executiva durante o governo Lula. Em 2024, ela disputou a Prefeitura de Sobral pelo PSB e terminou o primeiro turno em segundo lugar.
Maciel também criticou o que considera uma tentativa de reduzir a participação de outros atores na construção dos resultados educacionais do estado.
“Ele tenta apagar os méritos do PT, ele tenta apagar a figura de Isolda Cela e ele tenta se apropriar disso”, afirmou, referindo-se à narrativa que atribui a Ciro Gomes.
Os dados usados por Ciro no debate eleitoral
A discussão ganhou novo elemento quando o programa exibiu trechos de uma sabatina de Ciro Gomes sobre educação. Na ocasião, o candidato apresentou números sobre a situação do ensino no Ceará e defendeu mudanças na política educacional.
Entre os dados citados por Ciro estava a afirmação de que 86 municípios cearenses teriam registrado retrocesso na qualidade da educação básica e na alfabetização. Na entrevista, Maciel questionou a forma como o dado foi apresentado e chamou atenção para a divisão de responsabilidades entre estado e municípios.
O ponto levantado por ele é institucional: no sistema educacional brasileiro, estados e municípios possuem atribuições distintas. A educação infantil e o ensino fundamental estão majoritariamente sob responsabilidade municipal, enquanto os estados têm papel central na oferta do ensino médio.
Maciel argumentou que uma informação sobre o desempenho educacional de municípios precisa deixar claro a qual rede de ensino se refere para que o público possa compreender corretamente o problema.
“Ele faz isso de propósito? Ele deixa aí numa água assim”, afirmou, ao comentar a forma como, em sua avaliação, determinados dados são apresentados no discurso político.
A entrevista também discutiu a afirmação de Ciro sobre um suposto “desmonte institucional” na Secretaria da Educação do Ceará. Maciel contestou a ideia de que a Secretaria Estadual de Educação tenha controle direto sobre as estruturas municipais.
“A Secretaria de Educação do Estado do Ceará cuida da educação estadual”, afirmou, destacando a diferença entre as redes estadual e municipal.
Professores temporários e condições de trabalho
Outro trecho da sabatina exibido no programa abordou o número de professores temporários no Ceará. Ciro Gomes afirmou que dois terços dos professores seriam temporários e defendeu mudanças na carreira, na formação e no recrutamento.
Maciel relativizou a leitura do número. Segundo ele, a existência de professores temporários não significa necessariamente que não haja professores efetivos suficientes, já que profissionais concursados podem se afastar temporariamente por licença médica, estudos ou assumir funções administrativas.
“Um professor vai para a coordenação, as 40 horas dele são distribuídas para professores temporários”, explicou.
O filósofo também criticou a ideia de que o professor da rede pública precise ser constantemente submetido a processos de “requalificação” como solução para os problemas educacionais.
“Eu estou cansado de formação”, afirmou.
Na avaliação de Maciel, investimentos em infraestrutura e condições materiais das escolas deveriam ocupar espaço maior nesse debate.
“É muito mais barato você pegar um idiota para palestrar para 300 professores dizendo que você tem que adequar sua aula ao aluno do que realmente investir em infraestrutura”, disse.
A crítica também alcançou o modelo de educação em tempo integral. Maciel defendeu que a ampliação da jornada escolar não pode ser reduzida ao simples aumento do tempo de permanência do estudante na escola.
Para ele, uma escola de tempo integral precisa oferecer condições adequadas de aprendizagem, convivência e desenvolvimento, e não apenas ampliar a permanência do aluno no mesmo espaço.
A relação de Ciro com os professores
A relação entre Ciro Gomes e categorias do serviço público também apareceu na entrevista. Maciel lembrou que seu governo no Ceará foi marcado por conflitos com professores e médicos.
Um episódio documentado é a greve dos médicos de 1992. Segundo registro publicado pela CUT Ceará, a paralisação durou 67 dias, entre janeiro e março daquele ano, durante o governo de Ciro Gomes. A entidade também reproduziu uma declaração atribuída ao então governador na qual ele comparava médicos ao sal.
Maciel recuperou o episódio para contestar a imagem de Ciro como político identificado com a valorização dos servidores públicos.
“Nem na época dos coronéis a gente teve greve de professor”, afirmou. “A maior greve de fato que ocorreu foi no governo do Ciro Gomes, não só de professores, mas também de médicos.”
O registro histórico da greve médica dá sustentação documental a essa parte da discussão, embora outras afirmações feitas durante a entrevista sejam avaliações dos participantes e devam ser lidas nesse contexto.
Ciro e a nova configuração política no Ceará
A entrevista também se voltou para a mudança de posição política de Ciro Gomes e sua atual configuração eleitoral.
Ciro, que já foi filiado a partidos de diferentes campos políticos ao longo de sua trajetória, concorre em 2026 pelo PSDB. A convenção que oficializou sua candidatura contou com a presença e o apoio de lideranças como Tasso Jereissati, e a chapa passou a reunir partidos e grupos que anteriormente estavam em campos distintos da política cearense. ([PSDB][1])
O próprio contexto eleitoral de 2026 é marcado por uma ruptura entre Ciro e seu irmão Cid Gomes. Cid está no campo político que apoia a candidatura à reeleição do governador Elmano de Freitas, enquanto Ciro disputa o governo pelo PSDB.
Maciel interpretou a nova composição política de Ciro como resultado de escolhas próprias e rejeitou a justificativa de que determinadas alianças seriam apenas uma estratégia necessária para disputar a eleição.
“Ninguém está obrigando o Ciro a andar em conluio com fascista. Ninguém está obrigando ele a fazer isso. Ele está fazendo porque ele quer”, afirmou.
Na sequência, resumiu sua interpretação da mudança política com uma frase que deu o tom de sua análise:
“Ele encontrou o lar dele.”
A fala deve ser entendida como uma avaliação política do entrevistado sobre as alianças atuais de Ciro Gomes, e não como uma descrição factual consensual sobre a posição ideológica do candidato.
As comparações de Abraão Maciel
Em determinado momento, Maciel recorreu a referências literárias e culturais para explicar sua interpretação sobre a personalidade política de Ciro Gomes. Ele citou a personagem Perséfone, da mitologia grega, e o personagem Fausto, associado à tradição literária europeia, além de Anakin Skywalker, personagem da saga Star Wars.
A referência a Perséfone foi utilizada para descrever o que Maciel chamou de uma postura de autossacrifício político, enquanto Fausto apareceu como uma comparação com alguém que acredita possuir conhecimento privilegiado sobre o mundo. Já Anakin Skywalker foi citado como outra representação utilizada pelo entrevistado para descrever a trajetória que ele atribui a Ciro.
São, portanto, interpretações pessoais do filósofo durante a entrevista, e não diagnósticos sobre o político.
O episódio envolvendo Chico Passeata
A entrevista também recuperou um antigo conflito entre Ciro Gomes e o médico Francisco Monteiro, conhecido como Chico Passeata.
Maciel lembrou que Ciro enfrentou forte oposição de médicos durante seu governo no Ceará. O episódio da greve de 1992 é documentado em registros contemporâneos, incluindo a publicação da CUT Ceará.
A conversa também mencionou uma declaração atribuída a Ciro durante o período em que foi prefeito de Fortaleza. Segundo o relato recuperado no programa, o então prefeito teria feito uma comparação depreciativa envolvendo Francisco Monteiro.
Maciel contestou a forma como Ciro teria posteriormente tratado o episódio e defendeu a trajetória de Chico Passeata, apresentado por ele como uma figura ligada à resistência à ditadura militar e à defesa da categoria médica.
Como parte das declarações discutidas no programa envolve episódios antigos e acusações ou versões sobre acontecimentos políticos, a atribuição aos participantes da entrevista é essencial para distinguir a análise de Maciel dos fatos documentados por fontes independentes.
Uma campanha marcada por alianças e rupturas
A conversa ocorreu em um momento de forte disputa eleitoral no Ceará. A candidatura de Ciro Gomes foi oficialmente registrada pelo PSDB-Cidadania e sua campanha passou a ocupar posição central na disputa pelo governo estadual.
Pesquisas divulgadas em setembro mostram cenários distintos conforme o instituto. O Datafolha divulgado em 18 de setembro apontou Ciro com 47% e Elmano de Freitas com 40% das intenções de voto no primeiro turno, em levantamento realizado entre os dias 14 e 17 de setembro com 1.204 eleitores e margem de erro de três pontos percentuais.
No mesmo período, pesquisa RealTime Big Data registrou 47% para Elmano e 42% para Ciro, com margem de erro de dois pontos percentuais. O levantamento ouviu 1.600 eleitores entre 14 e 17 de setembro.
Os números ilustram um cenário eleitoral em disputa e mostram também por que a trajetória política de Ciro Gomes voltou a ser objeto de debate público no estado.
Ao final da entrevista, Maciel retomou sua crítica à construção da imagem política de Ciro e sustentou que a avaliação sobre sua trajetória deveria considerar também episódios de governos anteriores, relações políticas e posições assumidas ao longo dos anos.
“Ele poderia sim ser presidente um dia tranquilamente”, afirmou, antes de atribuir a posterior perda de espaço político ao que chamou de falta de humildade e isolamento.
A entrevista do Democracia no Ar apresentou, assim, uma leitura marcadamente crítica da trajetória de Ciro Gomes, com especial atenção ao legado educacional atribuído ao ex-governador e às mudanças em suas alianças políticas. Os argumentos apresentados por Abraão Maciel combinam experiências pessoais, interpretações políticas e referências a episódios históricos, enquanto alguns dos acontecimentos mencionados possuem registros independentes que permitem contextualizar as declarações.
Referências
Fausto, Goethe, 1808 e 1832. Obra dramática de Johann Wolfgang von Goethe que apresenta a figura de Fausto, personagem que estabelece um pacto com Mefistófeles.
Star Wars, George Lucas, 1977. Saga cinematográfica criada por George Lucas. Anakin Skywalker é um dos personagens centrais da narrativa.
Perséfone, mitologia grega, tradição clássica. Personagem associada ao mito do rapto por Hades e à alternância entre o mundo subterrâneo e a superfície, vinculada também às narrativas sobre as estações do ano.
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