Da Redação
Candidato ao governo cearense afirma que pretende enviar policiais para treinamento ligado ao serviço secreto israelense e diz já ter recorrido à experiência de Israel quando governou o estado; proposta coloca cooperação internacional, limites constitucionais e soberania no centro da campanha
Ciro Gomes voltou a defender nesta terça-feira (18) uma de suas propostas mais controversas para a segurança pública do Ceará: recorrer à experiência de Israel e do Mossad, o serviço de inteligência externa israelense, para capacitar quadros da inteligência policial cearense. Durante sabatina do Jangadeiro Eleições, o candidato do PSDB ao governo estadual afirmou que pretende investir na formação de agentes capazes de mapear a estrutura financeira e operacional das organizações criminosas e voltou a apresentar a inteligência israelense como referência para esse projeto. Não é a primeira vez que Ciro faz a proposta. Em junho, ele já havia declarado que buscaria Israel e mencionado explicitamente o Mossad, afirmando inclusive que, quando governou o Ceará entre 1991 e 1994, enviou um profissional para treinamento no país.
A ideia apresentada por Ciro parte de um diagnóstico que merece ser discutido por seus próprios méritos: organizações criminosas contemporâneas não podem ser combatidas exclusivamente com policiamento ostensivo, prisões e operações em territórios periféricos. Facções funcionam também como estruturas econômicas, movimentam dinheiro, estabelecem cadeias de comando, infiltram atividades legais, utilizam tecnologia e constroem redes que ultrapassam fronteiras municipais e estaduais. Na sabatina desta terça, Ciro defendeu justamente uma atuação que procure identificar os dirigentes das organizações, seus intermediários e os fluxos financeiros que sustentam suas atividades, em vez de concentrar a política de segurança no confronto indiscriminado nas periferias.
O ponto politicamente explosivo está em outra questão: por que uma política de fortalecimento da inteligência policial de um estado brasileiro precisaria ter o Mossad como referência direta? O Mossad não é uma academia internacional de polícia nem uma instituição civil dedicada genericamente à formação de forças de segurança. Trata-se do serviço de inteligência exterior do Estado de Israel, responsável por espionagem, coleta clandestina de informações, contraterrorismo e operações estratégicas no exterior. Qualquer eventual cooperação institucional envolvendo um órgão dessa natureza exige, portanto, muito mais esclarecimentos do que uma promessa eleitoral de enviar policiais para receber treinamento.
A proposta ganha peso adicional porque Ciro não mencionou Israel apenas uma vez. Em entrevista divulgada em junho, afirmou que recorreria novamente ao país porque já havia enviado um delegado para treinamento durante seu primeiro governo. “Vou fazer essa mesma coisa”, declarou naquela ocasião. Nesta terça-feira, ao voltar ao assunto durante a campanha oficial, demonstrou que a aproximação não era apenas uma referência ocasional, mas uma ideia que pretende incorporar à política de segurança caso retorne ao Palácio da Abolição.
Isso abre uma discussão institucional importante. Segurança pública é competência compartilhada dentro da Federação e os estados administram suas polícias Civil e Militar, podendo manter intercâmbios técnicos e buscar experiências internacionais. Relações diplomáticas e compromissos formais entre o Brasil e Estados estrangeiros, entretanto, pertencem à esfera federal. Uma coisa é uma polícia estadual participar de cursos ou programas internacionais realizados dentro das normas brasileiras; outra seria permitir participação operacional, acesso a informações sensíveis ou influência de um serviço secreto estrangeiro sobre estruturas estaduais de inteligência. A proposta de Ciro, da maneira como foi apresentada publicamente, ainda não detalha qual seria exatamente o modelo jurídico, institucional e operacional dessa cooperação. Essa distinção é fundamental antes de afirmar que o Mossad efetivamente “cuidaria” da segurança cearense. A formulação disponível fala sobretudo em treinamento e capacitação.
Também seria necessário responder que tipo de informação poderia ser compartilhada, quais agentes estrangeiros teriam contato com estruturas policiais brasileiras, quais seriam os mecanismos de controle, como seriam protegidos bancos de dados e informações de inteligência e quem fiscalizaria a cooperação. Em segurança pública, soberania não é uma abstração. Informações sobre organizações criminosas, autoridades, investigações, comunicações e estruturas policiais constituem ativos extremamente sensíveis de um Estado.
A escolha de Israel como referência também não ocorre num vazio político. A atuação militar e de inteligência israelense encontra-se no centro de uma enorme controvérsia internacional em razão das guerras e operações realizadas nos últimos anos no Oriente Médio. Importar técnicas de inteligência não significa necessariamente importar a política de segurança de outro país, mas essa separação precisa ser demonstrada concretamente. Métodos concebidos para contraterrorismo e operações de inteligência externa não podem ser simplesmente transportados para o policiamento civil de uma democracia sem discussão sobre proporcionalidade, direitos fundamentais, transparência e controle institucional.
O próprio Ciro apresenta um elemento diferente e potencialmente importante quando afirma não querer uma política baseada em entrar em comunidades “atirando a esmo” e matar inocentes sob a justificativa de perseguir criminosos. Em sua entrevista anterior, o candidato disse preferir uma ação “cirúrgica” voltada ao dinheiro e aos chefes das organizações. Essa concepção — inteligência financeira, investigação patrimonial e identificação das cadeias superiores das facções — pode ser debatida independentemente do Mossad. O Brasil possui Polícia Federal, Conselho de Controle de Atividades Financeiras, Receita Federal, Ministérios Públicos, polícias civis, universidades e estruturas especializadas que acumulam conhecimento sobre lavagem de dinheiro e organizações criminosas.
É justamente por isso que a proposta suscita uma pergunta inevitável: antes de recorrer a um serviço estrangeiro, por que não estruturar uma grande política de inteligência utilizando e fortalecendo capacidades brasileiras?
O debate assume ainda maior importância porque a segurança se transformou no principal campo da disputa pelo governo do Ceará. Ciro aparece na liderança da corrida eleitoral. Pesquisa Datafolha realizada entre 10 e 12 de agosto mostrou o candidato com 52% das intenções de voto, contra 33% do governador Elmano de Freitas, que busca a reeleição. O levantamento ouviu 1.022 eleitores em 51 municípios e possui margem de erro de três pontos percentuais.
A candidatura de Ciro também ocorre numa configuração política muito diferente daquela que marcou boa parte de sua trajetória. Depois de décadas associado ao campo trabalhista e de centro-esquerda, o ex-governador disputa a eleição pelo PSDB e construiu no Ceará uma aliança que inclui forças do bolsonarismo. O debate sobre segurança funciona como uma das principais pontes dessa nova coalizão. Ao mesmo tempo, Ciro procura preservar uma identidade própria, afirmando não apoiar automaticamente a candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro e mantendo divergências públicas com integrantes da família Bolsonaro. A aproximação com setores da direita, portanto, não eliminou suas contradições com esse campo, mas modificou profundamente a arquitetura política ao redor de sua candidatura.
É nesse ambiente que a defesa do Mossad ganha uma dimensão que ultrapassa uma simples proposta administrativa. Segurança pública é uma obrigação central do Estado, mas a maneira de construí-la também define que Estado se pretende construir. Inteligência eficiente, investigação financeira, tecnologia e qualificação policial são instrumentos legítimos e necessários para enfrentar organizações criminosas cada vez mais sofisticadas. Isso não significa, porém, que qualquer modelo estrangeiro possa ser transplantado automaticamente para uma polícia brasileira.
Se Ciro pretende transformar a proposta em política concreta, precisará esclarecer muito mais. Qual seria exatamente a participação israelense? Quem treinaria os policiais? O treinamento ocorreria no Brasil ou no exterior? Quais técnicas seriam ensinadas? Haveria compartilhamento de informações? Existiria acesso estrangeiro a bancos de dados? Qual seria o papel do governo federal? Quais órgãos brasileiros fiscalizariam o acordo? E, principalmente, por que a estrutura brasileira de inteligência não poderia desenvolver essas capacidades diretamente?
Essas perguntas não anulam o problema levantado pelo candidato. Pelo contrário: são necessárias justamente porque o problema é sério. Facções criminosas precisam ser enfrentadas com inteligência, tecnologia, investigação patrimonial e capacidade de alcançar seus comandos, e não apenas com operações policiais que acumulam mortes nas áreas mais pobres. Mas combater o crime organizado e preservar a soberania não são objetivos incompatíveis.
O Ceará pode aprender com experiências internacionais — israelenses, europeias, latino-americanas ou de qualquer outra origem — sem entregar a formulação de sua política de segurança a nenhum serviço estrangeiro. A cooperação internacional pode fortalecer o Estado brasileiro quando existe transferência de conhecimento sob controle das instituições nacionais. Torna-se problemática quando cria dependência, opacidade ou acesso externo a estruturas estratégicas.
Ao voltar a mencionar o Mossad no início da campanha oficial, Ciro Gomes colocou essa discussão diante do eleitorado cearense. Agora, mais do que repetir o nome de uma das agências de inteligência mais conhecidas do mundo como símbolo de eficiência, caberá ao candidato explicar exatamente onde termina a cooperação técnica e onde começa uma área que o Brasil não pode terceirizar: o controle soberano de sua própria segurança e de sua inteligência.






