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Cleonice, a primeira vítima da Covid no Brasil, virou retrato da desigualdade racial na pandemia

Da Redação

O dia 12 de março de 2020 entrou oficialmente para a história como a data da primeira morte por Covid-19 registrada no Brasil. A vítima foi Cleonice Gonçalves, empregada doméstica, mulher negra, moradora da periferia de Miguel Pereira, no Rio de Janeiro.

A confirmação posterior feita pelo Ministério da Saúde desmontou uma das narrativas mais repetidas no início da pandemia: a de que o coronavírus seria uma doença “democrática”, capaz de atingir todos da mesma forma. Desde os primeiros casos, o impacto social da Covid revelou diferenças profundas entre classe, raça, território e acesso à saúde.

Cleonice trabalhava na casa de uma patroa que havia retornado de viagem da Itália, então um dos epicentros mundiais da pandemia. Mesmo apresentando sintomas, a empregadora continuou mantendo contato com funcionários. Dias depois, Cleonice começou a passar mal. Ela morreu sem saber que estava contaminada pelo novo coronavírus.

O episódio passou a simbolizar aquilo que pesquisadores, movimentos negros e entidades de saúde pública denunciariam ao longo dos anos seguintes: a pandemia atingiu de maneira desproporcional trabalhadores pobres, moradores das periferias urbanas e a população negra.

Enquanto setores mais ricos conseguiram aderir rapidamente ao isolamento social, ao trabalho remoto e ao atendimento privado de saúde, milhões de brasileiros seguiram expostos diariamente em ônibus lotados, hospitais precarizados, serviços essenciais e empregos sem proteção adequada.

No caso das trabalhadoras domésticas, a pandemia revelou uma estrutura histórica ainda marcada por heranças escravistas. Muitas continuaram sendo pressionadas a trabalhar presencialmente mesmo durante os períodos mais críticos de contaminação. Em diversas cidades do país, sindicatos denunciaram casos de empregadas obrigadas a permanecer em casas de patrões durante lockdowns ou submetidas a jornadas ampliadas sem garantias sanitárias mínimas.

O nome de Cleonice acabou se tornando referência em estudos acadêmicos, relatórios sobre desigualdade racial e debates sobre memória da pandemia. Pesquisadores apontam que bairros periféricos registraram mortalidade significativamente maior durante os momentos mais agudos da crise sanitária, especialmente em regiões com menor cobertura hospitalar e maior concentração de trabalho informal.

A tragédia também expôs o impacto da desinformação e das disputas políticas em torno da doença. Enquanto hospitais entravam em colapso, o Brasil convivia com campanhas contra vacinas, ataques às medidas sanitárias e disseminação de tratamentos sem eficácia comprovada.

Nos últimos anos, movimentos sociais passaram a defender a criação de políticas permanentes de memória sobre as vítimas da Covid-19. A discussão ganhou novo peso após a criação do Dia Nacional em Memória das Vítimas da Covid-19, estabelecido para 12 de março.

Mais do que um marco sanitário, a história de Cleonice permanece como retrato de um país onde o risco de morrer também foi atravessado pela desigualdade social e racial.