Delegação comandada pelo almirante Giuseppe Cavo Dragone discutiu prioridades militares ucranianas, guerra de drones e defesa aérea; visita ocorre enquanto Washington afirma que entrada da Ucrânia na aliança não está em discussão
Da Redação
Representantes militares dos 32 países integrantes da Otan reuniram-se em Kiev em uma visita oficial inédita desde 2018, aproximando ainda mais a estrutura militar da aliança das Forças Armadas ucranianas num momento em que a guerra com a Rússia atravessa nova escalada. A delegação, comandada pelo presidente do Comitê Militar da Otan, almirante Giuseppe Cavo Dragone, encontrou-se com a cúpula militar ucraniana para discutir prioridades operacionais, novas formas de combate e as lições acumuladas em mais de quatro anos de guerra.
A visita ocorreu na terça-feira (6), mas foi divulgada oficialmente nesta quarta-feira. O Comitê Militar é a principal autoridade militar permanente da Otan e funciona como órgão de assessoramento dos organismos políticos da aliança. Cada país membro mantém um representante militar junto à estrutura, normalmente um oficial de alta patente que atua em nome do comando nacional de suas Forças Armadas.
A presença simultânea de representantes dos 32 países em Kiev tem, por isso, um peso político que ultrapassa uma visita bilateral. A Ucrânia não pertence à Otan, mas tornou-se desde 2022 profundamente integrada às estruturas militares do bloco por meio de fornecimento de armamentos, treinamento, inteligência, logística, padronização de equipamentos e intercâmbio permanente com forças aliadas.
Dragone não escondeu a dimensão política da viagem. Ao anunciar a presença da delegação na capital ucraniana, afirmou que o Comitê Militar estava no país “com força total” e disse que o vínculo entre a Ucrânia e a Otan continuava forte.
A reunião principal ocorreu com o comandante-em-chefe das Forças Armadas da Ucrânia, Mykhailo Drapatyi, e sua equipe. Segundo informações divulgadas pela própria aliança e pelo Estado-Maior ucraniano, as conversas abordaram prioridades militares imediatas, necessidades das forças ucranianas e experiências obtidas no campo de batalha que poderão ser incorporadas ao planejamento de defesa dos países da Otan.
Não se tratou, portanto, apenas de uma visita destinada a demonstrar apoio político. Os militares da aliança foram a Kiev também para observar uma guerra que vem acelerando transformações na maneira como exércitos modernos planejam defesa, ataque, reconhecimento e logística.
Otan estuda experiência ucraniana com drones e defesa aérea
Parte da programação foi dedicada justamente às tecnologias que passaram a desempenhar papel central no conflito.
A delegação visitou instalações relacionadas à defesa aérea, operações com drones e emprego de sistemas terrestres não tripulados. Oficiais da Otan puderam observar como as forças ucranianas vêm adaptando equipamentos, redes de comunicação, inteligência e sistemas autônomos às exigências de um conflito em que tecnologias relativamente baratas passaram a destruir equipamentos militares que custam milhões de dólares.
Desde 2022, a Ucrânia transformou-se em um dos maiores laboratórios militares do mundo para drones de reconhecimento e ataque. Pequenos aparelhos originalmente desenvolvidos para uso civil passaram a ser modificados para operações militares, enquanto sistemas maiores são utilizados para atacar infraestrutura e posições a centenas de quilômetros da linha de frente.
A Rússia realizou processo semelhante. O resultado foi uma corrida tecnológica contínua envolvendo drones, guerra eletrônica, sistemas de interferência, inteligência artificial, sensores e novas formas de defesa aérea.
Para os países da Otan, a experiência ucraniana passou a ter valor direto. Exércitos europeus organizados durante décadas para conflitos diferentes precisam agora adaptar doutrina, estoques e equipamentos a uma guerra marcada pelo consumo enorme de munições, presença permanente de drones sobre o campo de batalha e vulnerabilidade de grandes sistemas de armas.
Dragone afirmou que as lições aprendidas pelos comandantes ucranianos poderão ajudar a aliança a preparar-se para ameaças atuais e futuras.
A formulação mostra uma mudança significativa ocorrida desde o começo da guerra. Nos primeiros meses do conflito, a relação era apresentada principalmente como uma transferência de conhecimento e equipamento dos países ocidentais para Kiev. Hoje, a própria Otan reconhece que parte desse fluxo funciona também no sentido contrário: militares da aliança estudam técnicas desenvolvidas pelos ucranianos durante o combate contra as forças russas.
Visita ocorre um dia depois de Rubio afastar entrada imediata na Otan
A viagem também aconteceu num momento contraditório da relação entre Ucrânia e aliança atlântica.
Um dia antes da divulgação da visita, o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, afirmou que a entrada da Ucrânia na Otan não está atualmente sobre a mesa. Segundo ele, qualquer adesão exigiria consenso e aprovação unânime dos integrantes do bloco, enquanto a prioridade imediata dos Estados Unidos seria buscar uma maneira de encerrar a guerra.
A declaração expõe a diferença entre a integração militar concreta e a situação política formal.
A Ucrânia coopera intensamente com a Otan, utiliza grande quantidade de equipamentos fornecidos por seus integrantes, recebe treinamento e assistência e mantém mecanismos institucionais permanentes de consulta com a aliança. Mas continua fora da garantia de defesa coletiva estabelecida pelo artigo 5º do Tratado do Atlântico Norte.
Esse artigo determina que um ataque contra um integrante seja tratado como ataque contra todos. Admitir a Ucrânia enquanto o país está em guerra com a Rússia criaria, portanto, um problema imediato para a aliança: em determinadas circunstâncias, poderia transformar o conflito russo-ucraniano numa confrontação direta entre Moscou e os países da Otan.
É uma das razões pelas quais a adesão permanece sem consenso.
A Ucrânia incorporou constitucionalmente o objetivo de entrar na Otan e, depois da ofensiva russa de 2022, pediu uma aceleração do processo. Governos europeus mantêm posições diferentes sobre a velocidade e as condições necessárias para uma eventual admissão.
Os Estados Unidos, por sua vez, têm reiterado durante o governo Donald Trump que não pretendem colocar a entrada ucraniana na aliança no centro das atuais negociações sobre a guerra.
Moscou vê aproximação como parte da origem do conflito
Para a Rússia, a presença do principal organismo militar da Otan em Kiev reforça uma das acusações que o Kremlin vem fazendo desde o início do conflito: a de que a Ucrânia estaria sendo progressivamente incorporada ao sistema militar ocidental mesmo sem possuir formalmente a condição de membro da aliança.
Moscou sustenta há anos que a expansão da Otan para o leste representa uma ameaça à sua segurança e exige que a neutralidade militar ucraniana faça parte de qualquer acordo definitivo para encerrar a guerra.
O governo russo também descreve a ajuda militar ocidental como participação indireta no conflito e afirma que Estados Unidos e países europeus utilizam a Ucrânia numa guerra por procuração contra a Rússia.
A Otan rejeita essa interpretação. A posição oficial do bloco é que seus integrantes fornecem assistência a um país que exerce seu direito de defesa depois da invasão russa de fevereiro de 2022 e que isso não transforma a aliança em parte formal do conflito.
Essa divergência está no centro das negociações que tentam estabelecer uma arquitetura de segurança para o período posterior à guerra.
Moscou quer limitações duradouras à integração militar da Ucrânia com o Ocidente. Kiev argumenta que justamente a falta de garantias suficientemente fortes permitiu que a Rússia lançasse a ofensiva e, por isso, exige mecanismos de segurança capazes de impedir uma nova guerra.
Reunião acontece em meio a nova escalada militar
A visita ocorreu ainda sob um pano de fundo particularmente tenso.
Nesta quarta-feira, a Rússia realizou uma nova onda de ataques com mísseis e drones contra várias regiões da Ucrânia. Autoridades ucranianas registraram dezenas de mortos e feridos, enquanto Moscou afirmou ter atingido instalações ligadas à indústria militar, à infraestrutura logística e às Forças Armadas ucranianas.
A Ucrânia também continua atacando alvos dentro do território russo, incluindo instalações energéticas, refinarias e estruturas utilizadas pelas forças militares.
Paralelamente, países da Otan seguem ampliando sua infraestrutura militar no Leste Europeu. A Suécia anunciou nesta semana o envio de sistemas Patriot para proteger um centro logístico na Polônia utilizado no fluxo de equipamentos destinados à Ucrânia, enquanto outros integrantes aumentaram investimentos em defesa aérea e produção de drones.
É nesse ambiente que a visita do Comitê Militar ganha significado maior.
Formalmente, a Ucrânia permanece fora da Otan, e Washington afirma que sua adesão não está atualmente em discussão. Na prática, entretanto, a relação militar entre Kiev e o bloco tornou-se muito mais profunda do que era antes da guerra.
A reunião dos representantes militares de todos os 32 integrantes na capital ucraniana materializa essa contradição. A Ucrânia não recebeu a proteção jurídica reservada aos membros da aliança, mas tornou-se parte central de seu planejamento militar, de sua indústria de defesa e do debate sobre como os exércitos europeus deverão combater nas próximas décadas.
O fato de a Otan ter ido a Kiev para ensinar, observar e aprender mostra até onde essa integração avançou — mesmo que a fronteira política da adesão formal continue, por enquanto, fechada.






