Conselhão ocupa o Itamaraty e reforça mensagem de soberania em meio a tensões com os EUA

Em encontro presidido por Lula no Palácio do Itamaraty, governo destaca independência da política externa brasileira e amplia debate sobre desenvolvimento, segurança, igualdade e meio ambiente

O presidente Lula comandou nesta quarta-feira a primeira reunião plenária de 2026 do Conselho de Desenvolvimento Econômico Social Sustentável, o Conselhão, em um cenário carregado de simbolismo político. Pela primeira vez, o encontro foi realizado no Palácio do Itamaraty, sede histórica da diplomacia brasileira, em Brasília.

A escolha do local ocorreu em meio ao agravamento das tensões entre Brasil e Estados Unidos após medidas comerciais adotadas por Washington contra produtos brasileiros. Embora o tema não tenha sido tratado diretamente como eixo central da reunião, a defesa da soberania nacional atravessou diversos discursos e transformou o evento em uma demonstração pública de alinhamento entre governo, sociedade civil e setores econômicos em torno da autonomia brasileira.

Durante a abertura, o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira afirmou que o Itamaraty tem atuado com firmeza na proteção dos interesses nacionais diante da imposição de “sanções unilaterais injustificadas” contra o país. O chanceler também destacou a atuação brasileira em fóruns multilaterais como o G20, os Brics e a COP30, defendendo uma ordem internacional mais representativa e menos subordinada aos interesses das grandes potências.

A presença do Conselhão no coração da diplomacia brasileira foi interpretada por integrantes do governo como um gesto político relevante. O encontro reuniu ministros, empresários, sindicalistas, representantes de movimentos sociais, acadêmicos e lideranças da sociedade civil para discutir temas como combate ao feminicídio, desenvolvimento sustentável, inovação tecnológica, segurança pública, transformação ecológica e projeto nacional de desenvolvimento.

Ao longo do evento, a palavra “soberania” apareceu repetidamente nas intervenções de ministros e conselheiros. O ministro das Relações Institucionais, José Guimarães afirmou que o Brasil vive um momento de afirmação nacional desde o retorno de Lula ao governo.

“A soberania é uma bandeira abraçada por todos aqueles que defendem a democracia e o Brasil soberano”, declarou.

O vice-presidente Geraldo Alckmin reforçou a ideia de que soberania não significa isolamento. Segundo ele, o Brasil tem ampliado sua presença internacional por meio de acordos comerciais e da valorização do multilateralismo.

Já o ministro da Fazenda, Dario Durigan, que representou a equipe econômica no encontro, defendeu o que chamou de política econômica “humanista e progressista” e afirmou que o país não abrirá mão de sua autonomia.

“O Brasil não abaixa a cabeça para ninguém”, disse.

No encerramento da plenária, Lula retomou o tema de forma ainda mais direta. Sem citar nominalmente os Estados Unidos, o presidente criticou a recente elevação de tarifas contra produtos brasileiros e afirmou que o governo não aceitará medidas que prejudiquem os trabalhadores do país.

“Não temos o direito de aceitar isso por dignidade e respeito ao que nós fazemos pelos trabalhadores brasileiros”, afirmou.

Lula também destacou os resultados econômicos de seu terceiro mandato, citando crescimento do PIB, geração de empregos, redução do desemprego, ampliação das políticas sociais e avanços na demarcação de terras indígenas e quilombolas.

Segundo o presidente, o principal desafio continua sendo distribuir os benefícios do crescimento econômico para a população mais pobre.

“O importante não é apenas crescer. O importante é que aquilo que crescer seja distribuído”, declarou.

Além dos debates sobre economia e soberania, a plenária apresentou resultados de políticas formuladas ou aperfeiçoadas a partir das discussões do Conselhão. Entre elas estão iniciativas relacionadas ao combate ao feminicídio, igualdade racial, primeira infância, desenvolvimento sustentável e participação social.

A primeira-dama Janja Lula da Silva apresentou um balanço dos primeiros meses do Pacto Brasil contra o Feminicídio, destacando a redução do tempo de análise das medidas protetivas, a ampliação do uso de tornozeleiras eletrônicas para agressores e a integração de sistemas de monitoramento de mulheres em situação de risco.

Após o encerramento da reunião no Itamaraty, Lula seguiu para outra agenda estratégica do governo federal: o anúncio de novas medidas relacionadas ao Dia Mundial do Meio Ambiente. A sequência dos compromissos reforçou dois dos principais eixos da atuação internacional brasileira neste momento: a defesa da soberania nacional e o protagonismo do país na agenda climática global.

Ao reunir o Conselhão justamente no Palácio do Itamaraty e, em seguida, avançar com anúncios ligados à pauta ambiental, o governo procurou associar desenvolvimento, participação social, política externa e transição ecológica em uma mesma narrativa de reconstrução nacional e afirmação do Brasil no cenário internacional.