Saída de Mykhailo Fedorov provocou protestos, revelou o conflito com o alto comando militar e levou Zelensky a substituir o general Oleksandr Syrskyi
Da Redação
A demissão do ministro da Defesa da Ucrânia, Mykhailo Fedorov, desencadeou uma das maiores crises políticas enfrentadas pelo governo de Volodymyr Zelensky desde o início da guerra com a Rússia. A decisão provocou manifestações em diversas cidades, expôs divergências profundas dentro da estrutura militar ucraniana e aumentou a pressão por uma reforma no comando das Forças Armadas.
Fedorov foi afastado no dia 16 de julho, apenas seis meses depois de assumir o Ministério da Defesa. Segundo a explicação apresentada por Zelensky, o ministro e o então comandante-chefe das Forças Armadas, general Oleksandr Syrskyi, não conseguiam trabalhar em conjunto e dependiam frequentemente da intervenção direta do presidente para manter a comunicação.
A disputa não permaneceu restrita aos bastidores. Após deixar o governo, Fedorov acusou Syrskyi de impedir suas iniciativas, resistir às reformas e aprofundar divisões dentro do país. O ex-ministro passou a defender publicamente a substituição do comandante militar, enquanto manifestações exigiam seu retorno ao cargo e a saída do general.
Protestos em várias cidades
A exoneração provocou protestos em Kiev, Lviv e outras cidades ucranianas. Manifestantes levaram cartazes em defesa de Fedorov, criticaram a condução da guerra e cobraram mudanças no comando militar.
As mobilizações reuniram jovens, familiares de soldados, veteranos e integrantes da sociedade civil. Para muitos participantes, a saída de Fedorov simbolizava uma vitória das estruturas tradicionais das Forças Armadas sobre as tentativas de modernizar o funcionamento do Exército.
A pressão acabou produzindo uma nova mudança. Nesta terça-feira, 21 de julho, Zelensky anunciou a substituição de Oleksandr Syrskyi pelo major-general Mykhailo Drapatyi no comando das Forças Armadas. A decisão representou a maior alteração na cúpula militar ucraniana desde 2024.
Ao anunciar Drapatyi, Zelensky declarou que a Ucrânia precisa preservar a unidade nacional e garantir tratamento digno aos militares. A troca também foi interpretada como uma tentativa de conter os protestos e recompor a confiança de setores do Exército e da sociedade no governo.
Tecnologia contra a velha doutrina militar
A disputa entre Fedorov e Syrskyi refletia duas concepções distintas sobre a condução da guerra.
Fedorov, de 35 anos, ganhou projeção no governo ao comandar a transformação digital da Ucrânia. Posteriormente, passou a desempenhar papel central na expansão da produção de drones, no desenvolvimento de sistemas digitais para as Forças Armadas e na modernização dos mecanismos de aquisição de equipamentos militares.
Sua visão priorizava o emprego de drones, inteligência artificial e sistemas automatizados para reduzir a exposição dos soldados no campo de batalha. O ex-ministro defendia que a tecnologia deveria ocupar a linha de frente antes do envio de tropas.
Syrskyi, por outro lado, era criticado por setores militares e pela sociedade civil por representar uma estrutura de comando mais rígida, verticalizada e ligada à doutrina militar soviética. Seus críticos o acusavam de privilegiar operações terrestres convencionais, mesmo quando elas produziam elevado número de baixas.
A disputa tornou-se particularmente intensa em torno da integração dos drones às operações militares, da compra de armamentos e da autonomia concedida às unidades que atuam diretamente no front.
Mobilização forçada ampliou desgaste
Outro ponto de tensão foi o sistema ucraniano de recrutamento militar.
Com o prolongamento da guerra e a dificuldade de recompor as tropas, multiplicaram-se denúncias de abordagens violentas contra homens em idade militar. Vídeos publicados nas redes sociais mostram agentes retirando pessoas das ruas, de estabelecimentos comerciais e até de transportes públicos para conduzi-las aos centros de recrutamento.
Fedorov havia prometido reformar o modelo, estabelecer contratos com duração definida e criar mecanismos de desmobilização para soldados que permaneciam havia anos no campo de batalha. As mudanças, porém, não avançaram na velocidade esperada.
Após ser afastado, o ex-ministro atribuiu parte dos abusos ao comando militar. A responsabilidade administrativa pelo recrutamento, entretanto, também alcançava o próprio Ministério da Defesa, o que tornou a disputa ainda mais complexa.
Contratos militares e combate à corrupção
A crise também envolve a disputa pelo controle das compras militares.
Fedorov construiu a imagem de reformador ao defender maior transparência nos contratos, aproximar o governo de empresas de tecnologia e modificar os sistemas de aquisição de drones e armamentos. Seus apoiadores afirmam que essas medidas reduziram a burocracia e ampliaram a capacidade das empresas ucranianas de fornecer equipamentos ao Exército.
Críticos do ex-ministro, no entanto, sustentam que as mudanças também alteraram a distribuição de contratos bilionários e afetaram grupos econômicos que já operavam dentro do Ministério da Defesa.
A RT, veículo estatal russo que publicou uma análise sobre a crise, apresenta acusações mais graves contra Fedorov e atribui a disputa a esquemas de corrupção e ao controle das compras militares. Parte dessas alegações, entretanto, não foi acompanhada de documentação independente na reportagem e deve ser tratada como a interpretação editorial de um veículo diretamente vinculado a uma das partes envolvidas na guerra.
Veículos internacionais como Reuters e Associated Press confirmam a existência do conflito político e militar, mas destacam principalmente a divergência estratégica, a modernização tecnológica das Forças Armadas e o temor de que a crise prejudique a unidade interna da Ucrânia.
Fedorov pode continuar no governo
Zelensky tentou reduzir a crise oferecendo a Fedorov outro cargo de destaque na estrutura estatal, ligado ao desenvolvimento tecnológico e à segurança nacional.
O ex-ministro, porém, teria resistido às propostas e indicado que pretendia retornar ao Ministério da Defesa. A decisão de substituir Syrskyi pode abrir espaço para uma nova negociação, embora o governo ainda não tenha anunciado a reintegração de Fedorov.
A possibilidade de seu retorno depende agora da composição do novo comando militar e da avaliação de Zelensky sobre os custos políticos de reconhecer que a primeira decisão provocou uma crise maior do que o esperado.
Desgaste para Zelensky
O episódio ampliou o questionamento sobre a forma como Zelensky administra divergências dentro do governo e das Forças Armadas.
A demissão de um ministro popular, em meio a uma guerra prolongada e a uma crescente escassez de tropas, produziu a impressão de instabilidade no núcleo responsável pela defesa nacional. Também alimentou suspeitas de que Fedorov poderia ter sido afastado por representar uma alternativa política futura ao atual presidente.
Não há, até o momento, confirmação de que o ex-ministro pretenda disputar uma eleição presidencial. A possibilidade, entretanto, passou a circular entre analistas devido à sua popularidade, à proximidade com setores tecnológicos e ao apoio conquistado entre jovens, militares e empresários ligados à indústria de defesa.
A troca simultânea de figuras centrais do governo e do comando militar demonstra que a crise ultrapassa uma divergência pessoal. Ela envolve o controle das Forças Armadas, a definição da estratégia de guerra, a distribuição de contratos bilionários e a própria reorganização do poder político ucraniano.
Mais de quatro anos após o início da ofensiva russa em larga escala, Kiev enfrenta não apenas a pressão militar externa, mas também uma disputa interna sobre quem deve comandar a guerra e qual modelo de Exército poderá determinar o futuro do país.
