De galã a “doidinho do bairro”: a decadência da carreira do ator que interpreta Bolsonaro no cinema

A escolha de Jim Caviezel para interpretar Jair Bolsonaro no filme Dark Horse talvez revele mais sobre o estado atual da própria carreira do ator do que sobre o projeto político bolsonarista. Antes tratado como um nome promissor de Hollywood no fim dos anos 1990 e início dos anos 2000, Caviezel atravessou um processo de isolamento profissional, radicalização ideológica e adesão pública a teorias conspiratórias que o transformaram numa figura cada vez mais associada aos circuitos da extrema-direita internacional do que ao cinema tradicional.

Nos anos anteriores, sua trajetória indicava outro destino. Caviezel participou de produções relevantes como Além da Linha Vermelha, Alta Frequência e O Conde de Monte Cristo. Havia espaço para consolidá-lo como protagonista recorrente do cinema norte-americano. Sua presença em grandes produções praticamente desapareceu depois de 2004. O último período de relativa estabilidade ocorreu na série Person of Interest, exibida entre 2011 e 2016.

O peso de A Paixão de Cristo

A guinada começou após sua atuação em A Paixão de Cristo, dirigido por Mel Gibson. O ator passou a construir para si uma narrativa de perseguição religiosa dentro da indústria audiovisual. Em entrevistas e conferências, Caviezel afirmou repetidas vezes que teria sido “banido” de Hollywood após interpretar Jesus Cristo.

A experiência do filme foi convertida em uma espécie de mito pessoal, misturando sofrimento físico real durante as filmagens com uma retórica espiritual de combate ao mal.

Mesmo durante os anos de televisão, começaram a circular relatos de comportamento errático nos bastidores. Membros da equipe descreviam dificuldades severas do ator para memorizar falas, episódios de agressividade e atitudes consideradas perigosas durante gravações externas. Um dos casos narrados envolve tentativas de direção imprudente em cenas filmadas em Manhattan, justificadas por Caviezel como parte da “interpretação do personagem”.

A entrada no universo QAnon

A deterioração profissional coincidiu com sua aproximação explícita do universo conspiratório do QAnon, teoria surgida nos Estados Unidos que afirma, sem provas, que existe uma rede secreta de elites envolvidas em crimes contra crianças e controle global. Seus seguidores tratam Donald Trump como alguém destinado a destruir esse suposto sistema oculto.

Em palestras realizadas em eventos conservadores, Caviezel passou a reproduzir teorias sobre tráfico global de crianças, elites satânicas e “adrenocromo”, substância ficticiamente apresentada por conspiracionistas como um elixir extraído do sangue de menores torturados.

O ator não apenas repetia essas narrativas, mas detalhava publicamente cenas grotescas ligadas à teoria conspiratória. Especialistas apontam que esse discurso retoma estruturas históricas do chamado “libelo de sangue”, uma acusação antissemita medieval reciclada agora em linguagem digital e conspiratória.

Som da Liberdade e o novo público de Caviezel

A transformação pública de Caviezel ganhou nova dimensão com o sucesso comercial de Som da Liberdade. Embora o longa tenha sido promovido como denúncia humanitária, o ator utilizou entrevistas e eventos promocionais para associar a obra ao imaginário conspiratório do QAnon.

Organizações especializadas em combate ao tráfico humano criticaram o filme por distorcer o funcionamento real desse tipo de crime e reforçar pânicos morais alimentados pela extrema-direita norte-americana.

Paralelamente, Caviezel tornou-se presença constante em ambientes ligados ao trumpismo radical. Em discursos públicos, descreveu o sistema financeiro global como um “polvo” controlado por elites ocultas e chegou a comparar Trump a um “novo Moisés”.

De astro de Hollywood a símbolo de nicho ideológico

É nesse contexto que surge Dark Horse, cinebiografia de Bolsonaro dirigida por Cyrus Nowrasteh e roteirizada por Mario Frias. O filme tenta apresentar Bolsonaro como um líder perseguido por forças políticas e institucionais, numa construção heroica muito semelhante às narrativas utilizadas pela direita radical norte-americana em torno de Trump.

No fim, a presença de Jim Caviezel em Dark Horse parece sintetizar uma trajetória de deslocamento político e cultural. O ator que um dia ocupou espaço relevante no cinema comercial norte-americano passou a circular quase exclusivamente em produções religiosas militantes, convenções conspiratórias e projetos associados à extrema-direita global.

Em vez do prestígio de Hollywood, restou a persona de pregador paranoico que mistura espiritualidade, ressentimento e teoria conspiratória diante de plateias ideologicamente homogêneas. A figura do antigo galã foi sendo substituída por outra: a do homem que fala como quem acredita ter descoberto segredos ocultos do mundo, enquanto a indústria que antes o celebrava simplesmente seguiu adiante.

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