Carta assinada por 12 democratas questiona revogação de visto da embaixadora brasileira, pressões sobre o STF e contatos com integrantes da família Bolsonaro; Departamento de Estado tem prazo até 20 de outubro para responder
Da Redação
Um grupo de 12 deputados democratas dos Estados Unidos enviou ao secretário de Estado, Marco Rubio, uma nova cobrança sobre a atuação do governo de Donald Trump em relação ao Brasil. Na carta, encaminhada nesta terça-feira (6), os parlamentares afirmam que uma sequência de decisões adotadas por Washington compõe, na avaliação deles, um “esforço contínuo” para influenciar a política brasileira e questionam diretamente se integrantes da administração norte-americana mantiveram contatos com Jair Bolsonaro, Flávio Bolsonaro, Eduardo Bolsonaro ou representantes deles.
O episódio mais recente citado pelos congressistas é a revogação do visto diplomático da embaixadora brasileira em Washington, Maria Luiza Ribeiro Viotti. Os deputados classificaram a medida como “extraordinária e sem precedentes” e querem saber se a Casa Branca participou da decisão, se Donald Trump foi informado previamente e quais autoridades do Departamento de Estado autorizaram a retirada do documento.
A carta é assinada por Sydney Kamlager-Dove, Gregory Meeks, James McGovern, Pramila Jayapal, Nydia Velázquez, Jonathan Jackson, Sylvia Garcia, Dina Titus, Yvette Clarke, Mike Quigley, Jasmine Crockett e Madeleine Dean. Meeks é o principal democrata da Comissão de Relações Exteriores da Câmara dos Representantes.
Os parlamentares relacionam a revogação do visto a um conjunto mais amplo de atritos entre Brasília e Washington. Entre os exemplos apontados estão as tarifas impostas pelo governo Trump ao Brasil, sanções contra um ministro do Supremo Tribunal Federal e medidas adotadas durante o processo criminal contra o ex-presidente Jair Bolsonaro. A interpretação de que essas iniciativas constituem uma tentativa de interferência é dos autores da carta; o documento não constitui, por si só, prova de manipulação do processo eleitoral brasileiro.
O grupo também sustenta que medidas da administração Trump estiveram ligadas a uma tentativa de pressionar o sistema de Justiça brasileiro durante o processo envolvendo Bolsonaro. A própria atuação norte-americana no período anterior às eleições já havia sido alvo de preocupação de outros parlamentares dos Estados Unidos, que solicitaram ao governo o compromisso de respeitar o resultado certificado pelas autoridades eleitorais brasileiras.
Visitas de autoridades americanas entram na cobrança
Outro ponto central da carta envolve dois funcionários do Departamento de Estado que tiveram pedidos de visto negados pelo governo brasileiro: Riley M. Barnes, ligado à área de Democracia, Direitos Humanos e Trabalho, e Samuel Samson, da mesma estrutura.
Os congressistas querem saber qual seria exatamente o objetivo da viagem dos dois ao Brasil, quem pretendiam encontrar e por que integrantes do Departamento de Estado buscavam informações sobre o sistema eleitoral brasileiro durante uma campanha presidencial em andamento.
Segundo reportagens citadas pelos parlamentares, autoridades norte-americanas pretendiam discutir a confiabilidade do sistema eleitoral brasileiro. Os deputados perguntam, então, quais evidências concretas o Departamento de Estado possui para questionar a credibilidade das eleições no país.
A carta formula a questão de maneira direta: por que funcionários norte-americanos decidiram examinar o sistema eleitoral brasileiro durante uma campanha ativa e quais elementos específicos justificariam dúvidas sobre sua integridade. Os congressistas também perguntam se o governo Trump considera a eleição presidencial brasileira de 2022 livre e justa e se dispõe de alguma evidência de que o processo de 2026 não seja confiável.
Os questionamentos ganham peso porque a relação entre Washington e Brasília passou por uma sequência de crises diplomáticas durante o segundo mandato de Trump. Em setembro, três senadores democratas — Jeanne Shaheen, Tim Kaine e Peter Welch — já haviam pedido formalmente a Marco Rubio que a administração reconhecesse o resultado certificado das eleições brasileiras e mantivesse relações diplomáticas normais com qualquer candidato escolhido pelos eleitores.
Naquela carta, os senadores também criticaram o uso de tarifas e sanções direcionadas durante o julgamento de Jair Bolsonaro e afirmaram que a pressão política, econômica e diplomática dos Estados Unidos poderia enfraquecer instituições brasileiras e deteriorar a relação bilateral. A caracterização dessas medidas como interferência partiu dos parlamentares democratas.
Antes deles, um grupo ainda maior, formado por 30 deputados e pelo senador independente Bernie Sanders, havia enviado outra cobrança a Rubio. Nesse documento, os congressistas falaram em uma “aparente tentativa de interferir e potencialmente minar” as eleições brasileiras e citaram, entre outros elementos, tarifas, investigações comerciais e a aproximação política entre Trump e Flávio Bolsonaro
Relação com a família Bolsonaro é questionada
A nova carta avança ao pedir informações sobre possíveis contatos específicos entre a administração Trump e integrantes da família Bolsonaro.
Os deputados querem saber se Marco Rubio ou outros funcionários do Departamento de Estado conversaram com Jair Bolsonaro, Flávio Bolsonaro, Eduardo Bolsonaro ou representantes deles sobre a revogação do visto da embaixadora brasileira. A pergunta não significa que os contatos tenham sido comprovados; ela indica que os parlamentares querem que o governo informe formalmente se essas comunicações existiram e, em caso positivo, qual foi seu conteúdo.
Essa parte do documento aparece em um momento no qual a relação entre setores da direita brasileira e o governo Trump já vinha sendo acompanhada publicamente. Flávio Bolsonaro, candidato à Presidência, teve encontros e interlocuções com autoridades norte-americanas, enquanto Eduardo Bolsonaro passou períodos nos Estados Unidos articulando apoio político e medidas contra autoridades brasileiras.
A atuação de Washington também passou a ser observada por instituições brasileiras. Ao longo da campanha, autoridades e partidos levantaram questionamentos sobre possíveis tentativas externas de influência, embora isso seja diferente de uma conclusão formal de que houve interferência capaz de alterar o processo eleitoral.
A própria missão de observação da Organização dos Estados Americanos, depois do primeiro turno, registrou a presença de “ativismo político internacional” em torno da eleição brasileira, mas não afirmou que tenha ocorrido manipulação do voto ou interferência externa comprovada no sistema eleitoral.
Democratas cobram explicações até 20 de outubro
Os 12 deputados deram ao Departamento de Estado prazo até 20 de outubro, cinco dias antes do segundo turno, para responder por escrito.
Além dos questionamentos sobre vistos e contatos políticos, eles querem saber se o governo norte-americano avaliou os efeitos de sua política sobre a relação estratégica com o Brasil. O documento cita possíveis impactos sobre comércio, cooperação contra o narcotráfico, segurança regional e a aproximação brasileira com a China.
Os parlamentares afirmam que a relação entre Estados Unidos e Brasil deve ser definida pela escolha soberana dos eleitores brasileiros, e não pelo resultado preferido pelo governo norte-americano. A formulação deixa claro que a preocupação central da carta não é apenas diplomática: está diretamente ligada à disputa presidencial em andamento.
A nova cobrança amplia uma sequência de manifestações internas no próprio Congresso dos Estados Unidos contra a política de Trump para o Brasil. Em poucas semanas, grupos diferentes de deputados e senadores democratas enviaram cartas ao governo pedindo esclarecimentos sobre sanções, tarifas, contatos com políticos brasileiros e posicionamentos relacionados às eleições.
Até agora, essas iniciativas representam posições de parlamentares da oposição ao governo Trump, e não uma conclusão institucional do Congresso norte-americano de que houve interferência eleitoral.
O que os documentos demonstram, entretanto, é que a atuação dos Estados Unidos em relação ao processo político brasileiro deixou de provocar controvérsia apenas em Brasília. Ela passou também a ser objeto de fiscalização e disputa dentro do próprio sistema político norte-americano, com congressistas exigindo que o Departamento de Estado explique até onde foi sua atuação durante uma eleição presidencial em curso.






