Helena Frota afirma, em entrevista ao Café com Democracia, que o avanço do feminicídio exige mais do que rede institucional: demanda enfrentamento ao ódio, ao autoritarismo e à naturalização da misoginia na sociedade
O avanço do feminicídio no Brasil, em números cada vez mais alarmantes, expõe não apenas a insuficiência das estruturas de proteção, mas a profundidade de uma cultura de violência que segue se reinventando. Em entrevista ao programa Café com Democracia, da Atitude Popular, nesta quarta-feira, 18 de março, a professora doutora em Sociologia e cientista-chefe da Secretaria das Mulheres, Helena Frota, analisou o crescimento dos assassinatos de mulheres e apontou que o problema está enraizado em dimensões sociais, políticas, culturais e subjetivas que vão muito além da legislação penal.
Ao longo da conversa conduzida por Luiz Regadas, a entrevistada chamou atenção para o fato de que, mesmo com ampliação de políticas públicas e equipamentos de acolhimento, a violência de gênero continua avançando. Segundo ela, a resposta para essa contradição está no fortalecimento de discursos autoritários, na banalização do ódio e no papel das redes sociais e de conteúdos que transformam a degradação da mulher em lucro e entretenimento.
Logo no início da entrevista, Helena Frota ressaltou que a própria equipe que acompanha as políticas públicas para mulheres se vê diante de uma inquietação difícil de contornar: “Essa pergunta é uma pergunta que até nós fazemos”. A observação veio em resposta aos dados apresentados no programa, segundo os quais o Brasil registrou, em 2025, entre 1.470 e 1.568 feminicídios consumados, o maior patamar já observado, com uma média aproximada de quatro mulheres assassinadas por dia.
Para a socióloga, o aumento da violência não pode ser compreendido isoladamente das transformações políticas e ideológicas do país. Em sua avaliação, períodos democráticos tendem a ampliar a participação das mulheres e a fortalecer direitos, enquanto fases autoritárias corroem conquistas históricas e alimentam a intolerância. “O autoritarismo traz, entre outras coisas, o ódio”, afirmou. Na leitura da pesquisadora, o enfraquecimento do ambiente democrático contribui para a disseminação de uma visão distorcida dos direitos humanos e reforça a ideia de que proteger mulheres seria um privilégio, quando se trata, na verdade, de garantia civilizatória básica.
Helena Frota explicou que, no Ceará, onde atua diretamente em pesquisas e formulações de políticas voltadas à proteção feminina, existe uma das redes de apoio mais estruturadas do país. Ainda assim, os resultados não têm sido suficientes para conter a escalada da violência letal. O dado, segundo ela, revela um descompasso entre os esforços institucionais e a velocidade com que o discurso misógino se espalha, especialmente no ambiente digital. “As fragilidades das políticas nós conhecemos, mas elas não têm sido suficientes para enfrentar o ódio perpetrado na sociedade”, observou.
Foi nesse ponto que a entrevistada formulou uma das frases mais contundentes da conversa: “Difundir violência contra a mulher dá dinheiro hoje”. A declaração sintetiza uma crítica incisiva ao funcionamento das plataformas e aos mecanismos de monetização do conteúdo violento. Para Helena, quanto mais se divulga, se excita e se reproduz a violência simbólica e verbal contra mulheres, mais determinados agentes lucram com isso. A violência, assim, deixa de ser apenas prática social e passa também a ser produto circulante, impulsionado por algoritmos e por audiências treinadas para consumir humilhação, medo e submissão feminina como espetáculo.
Outro ponto central da entrevista foi a análise do espaço doméstico como lugar histórico de opressão. Comentando o fato de que a maioria dos feminicídios ocorre dentro de casa, Helena afirmou que o lar sempre foi uma esfera marcada pela invisibilidade da violência. Em sua interpretação, a separação entre público e privado consolidou, ao longo dos séculos, uma hierarquia de poder em que à mulher foi destinado o trabalho doméstico, a reprodução da vida cotidiana e a submissão à autoridade masculina. “O espaço da domesticidade é um espaço de violência para criança, para idoso, para a velha e até para animais”, disse.
A professora chamou atenção para a dinâmica recorrente dos feminicídios: a mulher manifesta o desejo de sair da relação, de romper, de retomar a própria vida, e é justamente nesse momento que o agressor reage com brutalidade extrema. “Quando ela se vê nessa situação, ela pede para sair, ela fala que vai sair, ela diz que vai sair e esse homem mata”, afirmou. Em seguida, reforçou uma percepção devastadora: “A morte vem anunciada”. Para ela, a vítima frequentemente sabe que corre risco, a família percebe os sinais, mas a rede de proteção e a estrutura social ainda falham em interromper o desfecho fatal.
Ao abordar os desafios concretos da proteção no Ceará, Helena detalhou que o estado conta com a Casa da Mulher Brasileira, casas estaduais, unidades municipais e salas lilás espalhadas por diferentes regiões. Também mencionou o trabalho de qualificação de profissionais, policiais e equipes da Patrulha Maria da Penha. Ainda assim, insistiu: o aparato continua insuficiente diante da profundidade do problema. O Estado amplia a rede, mas o discurso de ódio se expande com mais força e maior capilaridade. Trata-se, segundo a entrevistada, de uma corrida desigual entre proteção e barbárie.
Por isso, ela defendeu que o enfrentamento ao feminicídio não pode ser atribuído apenas aos governos ou às forças de segurança. “Esse desafio não é só do governo, ele não é só do Estado, ele é da sociedade como todo”, disse. Na sua avaliação, é preciso discutir relações de poder, machismo, autoritarismo e masculinidade violenta em todos os espaços: nas escolas, nas famílias, nas mídias, nas comunidades e nas instituições. Não basta acolher depois da agressão. É necessário desmontar a lógica que a produz.
A fala da socióloga também avançou sobre o medo cotidiano vivido pelas mulheres. Ela relatou que hoje mães orientam filhas a não entrarem sozinhas em elevadores com homens e a evitarem gestos simples de confiança diante do risco constante de assédio e violência. “As mulheres hoje têm medo”, resumiu. Para Helena, esse medo não é fruto de paranoia, mas de uma experiência concreta de vulnerabilidade. O que está em curso, segundo ela, é a consolidação de uma atmosfera em que muitos homens se sentem autorizados a invadir corpos, constranger, ameaçar e punir qualquer negativa feminina.
Esse ambiente de naturalização da violência, explicou, também se expressa na cultura popular. Ao comentar letras de músicas que objetificam mulheres e transformam submissão em divertimento, Helena observou que essas produções ajudam a moldar subjetividades e a reproduzir comportamentos misóginos. “São músicas que a gente chama de misóginas”, afirmou. Ela lembrou que, em determinados períodos, houve reação social e jurídica contra esse tipo de conteúdo, mas destacou que o ideal seria impedir que tais lógicas fossem reproduzidas como se fossem apenas brincadeira ou irreverência.
A entrevista ainda sublinhou um aspecto decisivo: o feminicídio e a violência de gênero não atingem todas as mulheres da mesma forma. As mulheres negras aparecem entre as principais vítimas, e outras populações vulnerabilizadas também enfrentam obstáculos adicionais de acesso à proteção, como mulheres idosas, gordas, indígenas, ciganas e pessoas LGBT. Helena observou que muitas dessas mulheres sequer se reconhecem como destinatárias da rede de acolhimento ou não se sentem seguras para procurar ajuda. Assim, a desigualdade de gênero se cruza com desigualdades raciais, sociais, territoriais e corporais.
Nos minutos finais, a professora ampliou o horizonte da discussão e situou a pauta dos direitos das mulheres dentro de um embate maior, ligado ao próprio destino democrático do país. “A luta por uma nova sociabilidade, a luta pelo humanismo, a luta pelo direito, é uma luta nossa do processo civilizatório”, afirmou. Em outra passagem forte, defendeu que “é somente na democracia que os direitos são conquistados e permanecem”. A afirmação veio acompanhada de um alerta político: conquistas institucionais podem ser rapidamente desmontadas quando forças autoritárias assumem o controle do Estado.
Mais do que uma análise de conjuntura, a entrevista de Helena Frota funcionou como um chamado público à responsabilidade coletiva. Ao relacionar feminicídio, misoginia, autoritarismo, monetização da violência e crise democrática, a socióloga rejeitou explicações simplistas e mostrou que proteger as mulheres exige disputa cultural, investimento permanente em políticas públicas e coragem para enfrentar uma engrenagem social que ainda insiste em tratar a vida feminina como descartável.
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