II Conferência Nacional do Trabalho recoloca no centro do debate a redução da jornada, o enfrentamento da pejotização e a defesa de um projeto de desenvolvimento com emprego, proteção social e dignidade
A II Conferência Nacional do Trabalho, realizada em Brasília entre os dias 3 e 5 de março, recolocou no centro da agenda nacional um debate decisivo para o presente e o futuro do país: de que forma o Brasil pretende reorganizar o mundo do trabalho diante do avanço da automação, da inteligência artificial, da precarização dos vínculos e do adoecimento crescente da classe trabalhadora. O tema foi discutido no programa Democracia no Ar, da TV Atitude Popular, em entrevista com Luciano Simplício, presidente da CTB e delegado da conferência, a partir de transmissão publicada no YouTube.
Ao longo da conversa, Luciano detalhou os bastidores, os impasses e os encaminhamentos do encontro, que reuniu representantes de trabalhadores, empregadores e governo em um processo de diálogo social sobre as novas dinâmicas do trabalho no Brasil. Para ele, a conferência ganhou relevância não apenas por sua pauta institucional, mas por expressar, em escala ampliada, a disputa entre dois projetos de país: um voltado à ampliação de direitos, à proteção social e à valorização da vida; outro orientado pela intensificação da exploração, pela flexibilização extrema e pelo enfraquecimento dos mecanismos de defesa da classe trabalhadora.
Um dos temas centrais da entrevista foi o fortalecimento da luta pelo fim da escala 6×1, que emergiu como símbolo de uma reivindicação mais ampla por dignidade, tempo de descanso e reorganização da vida social. Luciano sustentou que o debate não se resume a uma pauta corporativa, mas atravessa a saúde pública, a economia, a estrutura familiar e a própria ideia de civilização. “Nós estamos, não estamos trabalhando para viver, estamos vivendo para trabalhar”, afirmou, ao descrever a rotina extenuante de milhões de brasileiros submetidos a longas jornadas, deslocamentos massacrantes e condições de vida cada vez mais degradadas.
Segundo o dirigente sindical, a conferência teve de enfrentar não apenas as divergências tradicionais entre capital e trabalho, mas também obstáculos políticos concretos para garantir sua continuidade e produzir resultados. Ele lembrou que a primeira Conferência Nacional do Trabalho, em 2013, foi esvaziada após a retirada da bancada patronal, o que inviabilizou consensos e bloqueou encaminhamentos. Desta vez, relatou, foi necessário “muito jogo de cintura” para evitar novos rompimentos e assegurar que as propostas pudessem avançar.
A defesa da redução da jornada, explicou Luciano, foi apresentada não somente como reivindicação dos trabalhadores, mas também como resposta racional à crise de adoecimento físico e mental que atinge o país. Ao mencionar dados e experiências do cotidiano, ele apontou que a sobrecarga tem multiplicado afastamentos, acidentes, licenças e sofrimento psíquico. “Nós colocamos todos esses pontos na mesa e, para a felicidade nossa, nós conseguimos levar a segunda conferência até o final com essas propostas”, disse.
Na avaliação do presidente da CTB, a resistência patronal à mudança da escala ignora os custos sociais e econômicos da exaustão permanente. Para ele, o trabalhador submetido a jornadas desumanas não consegue estudar, descansar, cuidar da saúde, conviver com a família nem se qualificar profissionalmente. A retórica de que a redução da jornada prejudicaria a produtividade, argumentou, repete um discurso histórico das elites desde a Revolução Industrial, sempre mobilizado contra qualquer avanço trabalhista. “Eles vêm com essa cantilena: não, vai quebrar. Vai quebrar ao contrário”, afirmou, defendendo que trabalhadores descansados e mais protegidos produzem melhor, consomem mais e ajudam a dinamizar a economia.
Luciano também chamou atenção para o fato de que a precarização do trabalho não destrói apenas a saúde individual, mas corrói laços familiares e comunitários. Ao relatar situações de trabalhadores que saem de casa de madrugada e retornam tarde da noite, descreveu uma rotina em que o emprego captura quase integralmente o tempo de viver. Nessa lógica, disse, o país produz não apenas cansaço, mas desestruturação afetiva, insegurança e esgotamento coletivo. Em sua leitura, a pauta trabalhista precisa voltar a ser tratada como problema estrutural da sociedade e não como tema secundário ou meramente técnico.
Outro ponto de forte destaque na entrevista foi a crítica à pejotização, tratada por Luciano como uma ameaça de grandes proporções ao sistema de proteção laboral construído historicamente no Brasil. Para ele, de nada adiantará discutir a redução da escala 6×1 se avançarem mecanismos que esvaziam a carteira assinada, enfraquecem a Justiça do Trabalho e desmontam direitos básicos. Ao mencionar decisões judiciais e movimentos em curso no país, ele alertou para uma ofensiva articulada de desregulamentação, capaz de transformar a exceção em regra e de empurrar massas de trabalhadores para uma condição de total vulnerabilidade.
Nesse sentido, a II Conferência Nacional do Trabalho aparece, na análise do dirigente, como um espaço decisivo para reorganizar uma agenda nacional em defesa do emprego protegido, da negociação coletiva, da qualificação permanente e do fortalecimento das entidades sindicais. O encontro, segundo ele, ajudou a consolidar a percepção de que a informalidade, a uberização e a substituição de vínculos formais por contratos frágeis não representam modernização, mas retrocesso social.
Luciano vinculou ainda a disputa em torno do trabalho às eleições de 2026 e ao embate entre projetos antagônicos para o país. Sem subestimar a força do campo conservador, ele argumentou que o apoio popular ao fim da escala 6×1 revela um terreno fértil para a defesa de pautas concretas da classe trabalhadora. “Do jeito que é vida ou morte para o capital também está sendo para o trabalho”, resumiu, ao afirmar que o conflito atual já não diz respeito apenas a reformas pontuais, mas à preservação das condições mínimas de existência digna para milhões de brasileiros.
Durante a entrevista, também foi defendida a necessidade de ampliar a unidade entre organizações sindicais, movimentos progressistas e setores comprometidos com a democracia social. Para Luciano, o momento exige humildade política, construção de alianças e disposição para enfrentar tanto a pressão do mercado quanto a ofensiva ideológica que tenta naturalizar a precarização. Em sua avaliação, o país vive uma encruzilhada histórica em que a luta por saúde, descanso, renda e proteção social se entrelaça diretamente à defesa da democracia.
Os comentários de Fábio Sobral reforçaram essa leitura ao situar a pauta do trabalho dentro de um cenário mais amplo de disputa política, econômica e civilizatória. Ao longo do programa, ele apontou que a defesa da redução da jornada e da proteção social se opõe frontalmente ao receituário ultraliberal que, em sua visão, representa barbárie social. A entrevista, assim, acabou por evidenciar que a II Conferência Nacional do Trabalho não foi apenas um encontro institucional, mas um momento de condensação de conflitos decisivos sobre o modelo de país que está em jogo.
Ao fim, Luciano reiterou que a classe trabalhadora precisa manter mobilização constante para transformar resoluções em conquistas concretas. Não descartou, inclusive, a necessidade de ações mais duras, caso o bloqueio patronal e institucional impeça avanços reais. Para ele, a conferência deixou claro que o Brasil não poderá enfrentar os desafios tecnológicos, produtivos e sociais do século XXI aprofundando o desgaste humano, mas sim distribuindo melhor o tempo, ampliando direitos e recolocando a vida acima da lógica predatória do lucro.
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